Crítica | Surpreendentes X-Men Vol. 3 #13-24: Destroçados e Incontrolável

estrelas 4

A segunda parte do run de Joss Whedon à frente dos X-Men guarda em si uma boa dose de investigação psicológica dos principais mutantes da equipe. Após doze edições centradas nas fluidas dinâmicas da equipe, escritas primorosamente pelo diretor de Os Vingadores, os dois arcos finais aqui criticados tomam, aos poucos, uma urgência bem construída por roteiro e arte, graças à identificação que o leitor consegue criar com esses personagens tão bem manejados pela dupla criadora. A história não passa, todavia, sem alguns percalços que poderiam ser evitados.

Roteiro e arte demonstram pura sinergia, é preciso dizer. Whedon e Cassaday permanecem homenageando fases clássicas dos mutantes com maestria, jogando com os poderes de cada membro da equipe de formas criativas e não gratuitas. Com a volta do Clube do Inferno no primeiro arco “Destroçados”, temos uma infiltração na Mansão Xavier nos moldes tradicionais. Entre as brechas de duelos memoráveis – Sebastian Shaw contra Colossus, Fera contra Wolverine de um modo inimaginável, entre outros – vemos um verdadeiro exame minucioso do que é ser um X-Men na perspectiva de queridos personagens. Ainda que me incomode a volta de uma figura vilanesca em específico, Whedon consegue centrar sua história no desenvolvimento emocional da equipe, gerando cenários cômicos e ousados: o que se faz com Wolverine e Kitty Pryde aqui é admirável, por motivos muito distintos.

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Faltou essa cena nos filmes do Hugh Jackman

Os problemas que surgem acabam sendo diminuídos, mas permanecem latentes: quem não tiver lido a fase de Grant Morrison – pelo menos o primeiro arco – ficará um pouco perdido nas primeiras edições aqui. Da mesma forma, por mais que seja compreensível no que diz respeito à construção do último arco, a utilização da Agente Brand é um constante chamado para fora do núcleo narrativo principal. Como contraponto, Whedon enche a história de detalhes tão preciosos que são capazes de te colocar na escola para superdotados em questão de segundos. Estou falando de situações banais com soluções geniais: a sugestão de Kitty com Colossus na cama, o treinamento do professor Logan, o passado atormentador de Ciclope, o Fera sendo fera…ninguém é esquecido, nem mesmo a mutante Armadura, uma personagem bem-vinda que se desenvolve nessas ordinárias interações.

O último arco toma, de fato, proporções épicas, o que acaba contrastando com o sentido mais introspectivo e local da era Whedon inteira. O principal problema é a complexidade desnecessária em retomar a história de Ord e do Breakworld – que apareceram no primeiro arco – tornando-a mais intrincada. O ritmo, que passa a ser demasiadamente acelerado, acaba diminuindo os efeitos do arco anterior ao mesmo tempo em que falha ao entregar uma ameaça verdadeiramente assustadora. Outras pequenas rachaduras no roteiro fecham algumas saídas óbvias – falo das atitudes de Brand em relação ao Colossus – com meras frases intransigentemente de efeito, o que chega a irritar.

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John Cassaday respeitando o líder dos X-Men

Para além da raça alienígena que soa genérica do começo ao fim, há, no arco final, momentos inesquecíveis. A dupla criativa trata Scott Summers, por exemplo, com o devido carinho que ele merece. O Ciclope aqui é um exemplo para todas as outras encarnações do líder dos X-Men. Dando, digamos, olhos visíveis ao mutante, Whedon e Cassaday conseguem gerar maior empatia, uma empatia que já vinha crescendo pelas próprias atitudes que ficam longe de incidir naquele estereótipo de líder chato e insosso, o típico material perfeito para dar anos de destaque para o Wolverine. Da mesma forma, Colossus ganha um papel distinto do normalmente atribuído somente para sua força. A grande estrela, todavia, é mesmo Kitty Pryde: retratada como mulher, mutante e heroína, Kitty se torna uma distinta mestra nessas edições, protagonizando a era Whedon em um retrato gracioso, forte e sólido. Uma personagem e tanto, certamente.

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Alguém lembra do Wolverine de John Byrne em “The Uncanny X-Men” #133?

Deixando de lado a confusão narrativa e espacial desta última história – culpa das variações de núcleo de Whedon e da impossibilidade de deixar limpo, por meio da arte, o roteiro cheio de gente desimportante – o trabalho dos criadores é para lá de notável. Não só há aprofundamento em cada caráter, senso de equipe e arte distinta e clara, como também há aqui um espírito que se encaixa com o que os X-Men tem de melhor a oferecer, tanto em termos de ação quando de conversação. Como eu disse, o arco final, se assumindo realmente épico e catártico, traz a participação dos maiores heróis da editora como simples plateia para ver um final célebre, intenso e trágico, protagonizado por Kitty Pryde que encarna o que é ser uma X-Men para o universo Marvel inteiro ver, em choque – como o leitor – o tamanho da alma dos alunos de Charles Xavier. Entre a contingência e a fragilidade do mundo – real e das hqs – Whedon faz um retrato primoroso e delicado, obrigatório para qualquer fã de uma verdadeira história bem contada.

Surpreendentes X-Men #13-24 e Giant-Size #1 (Astonishing X-Men, EUA, 2005)
Roteiro: Joss Whedon
Arte: John Cassaday
Cores: Laura Martin
Letras: Chris Eliopoulos
Editora: Marvel Comics
Páginas: 22 por edição

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.