Crítica | Susana, Mulher Diabólica

estrelas 3,5

Baseado no romance de Manuel Reachi, Susana, Mulher Diabólica segue-se ao clássico Os Esquecidos e, por mais que se diferencie de seu predecessor na abordagem crítica da sociedade, não deixa de ser um ótimo exemplar da fase mexicana de Luis Buñuel.

O filme traz alguns elementos que o diretor trabalharia mais amplamente no futuro, como a chegada de alguém estranho a um lugar aparentemente pacífico, modificando toda a velha estrutura local; ou a oposição quase irônica entre a castidade e a luxúria, aqui representada pela família campesina sexualmente reprimida e a jovem Susana que aparece numa tenebrosa noite de tempestade e traz à tona sentimentos que todos os homens da propriedade seguiam ocultando.

A narrativa é cativante desde o início e ainda ganha alfinetadas cômicas através do discurso de Felisa, a velha e religiosa governanta do casarão. Misturando ditados populares, superstição pagã e mentalidade cristã, a velha identifica de imediato a libido por trás da castidade de Susana e alimenta desde cedo o sentimento de punição para essa jovem de “modos demoníacos”. Vemos então a primeira temática recorrente nas obras de Buñuel: a postura repressora da igreja. Por mais que Susana use de artifícios nada éticos (ela é também um símbolo da maldade) para se manter no casarão e longe do reformatório, vemos estampada a sua personificação da luxúria, do sexo por prazer, algo que a igreja abomina e que a sociedade estampou como sendo produto de prostituição ou coisa semelhante. Nesse caso, não é difícil perceber por que a jovem começa e termina o filme presa, afastada do convívio entre as “pessoas de bem”.

O temor ao prazer sexual ganha contornos irônicos durante a obra. O roteiro traz um amálgama de passagens bíblicas, orações e estrutura familiar cristã junto a desejos porcamente sublimados, exemplo que temos em evidência na personagem de Luis López Somoza, o jovem Alberto. Totalmente mergulhado nos estudos, o filho sensível e exemplar sofre uma verdadeira transformação quando Susana começa a seduzi-lo. Seus livros e a obediência saem de foco para dar lugar ao ciúme, ao desejo e ao ódio, quase ao mesmo tempo. É como se Susana trouxesse à tona características da personalidade de Alberto que até aquele momento haviam sido silenciadas por um superego cada vez mais forte e um senso de obrigação social e familiar massacrantes. Querendo ou não, o jovem se torna mais humano, e aí é que se estende muito pano pra manga. Seria melhor que ele fosse um filho-cordeiro, oprimido, obediente e ardendo de desejo em segredo ou um filho livre que deixa clara a sua virilidade, idade para decidir coisas que lhe dizem respeito e satisfeito ou triste consigo mesmo por coisas que ele mesmo escolheu?

Na outra ponta temos Don Guadalupe e Jesus (que ironia!), dois homens honrados e trabalhadores que também caem nos encantos da jovem. Todavia, é em Don Guadalupe que temos o exemplo da maior resistência ao desejo, primeiro, porque o ideal da família constitui uma obrigação moral que ele aparentemente honra (no final da película veremos que isso é apenas pose), depois, porque na qualidade de “soldado” ou força armada repressora (ele tem um armário de armas, é um caçador e ainda possui a voz ativa e final quando as coisas não saem do jeito que ele quer), era lícito que afastasse do cumprimento de seu dever os prazeres pessoais, algo que ele aparentemente havia deixado de lado já a algum tempo.

Por fim, os diferentes papéis da mulher se manifestam. Buñuel se preocupa em mostrar com requinte de detalhes físicos e psicológicos o comportamento da ‘fêmea ideal’, representada por Dona Carmen, a esposa e mãe fiel aos preceitos familiares e religiosos; a mulher beata, representada por Felisa, a versão feminina da igreja que alia os costumes tradicionais à doutrina bíblica a fim de torná-la mais poderosa e ter mais significado para quem ouve; e por fim, o exemplo “errado” de mulher na pessoa de Susana, que viverá de maneira hedonista e egoísta, preocupando-se apenas com o seu prazer/bem-estar mesmo que isso lhe traga consequências negativas. Esses tipos femininos são criticados nas entrelinhas e o maior trunfo do diretor está diretamente ligado a eles, na última cena do filme, sem contar que a direção de Buñuel segmenta um modelo de planificação para cada uma dessas personagens.

Quando a luxúria, o prazer sexual e a libido são novamente encarcerados, a família retoma a sua máscara de felicidade pacífica e realizada. Trilha sonora e figurinos são os setores que mais fortemente atestam isso, fechando o ciclo aberto desde as primeiras cenas. A mãe está feliz, o filho bem comportado, o marido arrependido e a beata nas nuvens, ao ver que tudo voltou ao normal. A grande sacada do diretor está justamente nesse desfecho, mais uma de suas incursões clandestinas em uma obra aparentemente moralista.

Os maiores incômodos do filme estão na construção geral fotografia e no jogo libidinoso quase infinito disposto no miolo do filme. Mas estes pontos são apenas detalhes que precisamos apontar, todavia, eles não retiram da obra o seu alto valor. Buñuel dirige uma película onde a luxúria anda de mãos dadas com a maldade e choca-se com a beatice e os valores sociais. O resultado não poderia ser outro senão um exercício de desmascaramento, para no final, mascarar-se tudo novamente. Como arguto observador das instituições, o diretor não deixa escapar essas mudanças de atitude que raramente acabam com a exposição definitiva da verdadeira face das cosias, uma incômoda e persistente realidade inclusive em nossos dias.

Susana, Mulher Diabólica (Susana) – México, 1951
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Manuel Reachi, Jaime Salvador, Luis Buñuel
Elenco: Fernando Soler, Rosita Quintana, Víctor Manuel Mendoza, María Gentil Arcos, Luis López Somoza, Matilde Palou, Rafael Icardo, Enrique del Castillo
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.