Crítica | Tales to Astonish #44 [Primeira Aparição: Janet Van Dyne/Vespa]

estrelas 1,5

Desde a primeira aparição do Homem-Formiga propriamente dito em Tales to Astonish #35, de setembro de 1962, o herói passou a ser o destaque da publicação, com aventuras em todos os números, além de sempre aparecer na capa. No ano seguinte, a primeira significativa sacudida na vida do herói seria a criação, por Stan Lee e H.E. Huntley, de uma parceira, a heroína Vespa. Logo no final do mesmo ano, a dupla, juntamente com o Homem de Ferro, Thor e Hulk, fundariam os Vingadores.

tales to astonish 44 coverMas a história que introduz Janet Van Dyne, a Vespa, em Tales to Astonish #44, é muito fraca, quase amadora. E esse número da publicação marca, também, o primeiro retcon na vida de Hank Pym, pois ele ganha uma esposa – Maria – falecida quando ela, filha de húngaro que fugiu da Cortina de Ferro para os EUA, imbecilmente volta com o marido para Budapeste. Com isso, descobrimos que Hank Pym, na verdade, inventou a fórmula de diminuição com o objetivo de lutar contra o crime, o que obviamente não combina em nada com o que Stan Lee criou em Tales to Astonish #35. E esse flashback desnecessário é usado para justificar a necessidade de Pym de achar uma parceira para lutar contra o crime.

E, lógico, como basicamente tudo que Stan Lee bota a mão, coincidentemente batem em sua porta o cientista Vernon Van Dyne e sua bela e jovem filha Janet. Vernon quer ajuda de Pym para um projeto envolvendo exploração espacial (considerando que a especialidade científica de Pym não passa nem perto disso, a coincidência torna-se mais bizarra ainda), mas o herói recusa. Não demora e Vernon, claro, continua seus experimentos e acaba atraindo para a Terra uma criatura sem nome do planeta Kosmos (é o cúmulo da falta de originalidade, não?) que o mata e sai por Nova York destruindo tudo. Lógico que Janet chama Hank para ajudar, mas só quando sua rede de informações de formigas o informa do acontecido no laboratório de Vernon é que ele realmente veste o uniforme para ajudar a donzela em perigo.

Se o leitor acha que as coincidências param por aí, saiba que a criatura espacial secreta ácido fórmico, o mesmo ácido secretado porque criaturas terráqueas? Adivinhou quem tiver pensado em formigas. Sim, as formigas são a chave para a derrota do monstrão, mas não sem antes que Pym, mal conhecendo Janet, revele sua identidade para ela e a transforme na Vespa, com base em outra experiência que estava fazendo e que a reduz em tamanho, fazendo com que asas e antenas cresçam. Mas, assim como no caso das meias Vivarian e facas Ginsu, tem mais! Pym havia coincidentemente feito um uniforme feminino, do tamanho de Janet, com suas “moléculas instáveis” e estava tudo pronto para a moça se transformar na super-heroína que conhecemos. E ela, ainda por cima, parte para a missão imediatamente após encolher, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

mosaico janet

Em cima: retcon à vista, com a invenção de Maria, a esposa falecida de Hank Pym. Embaixo: primeira aparição de Janet Van Dyne.

Tenho plena consciência que as histórias sessentistas da Marvel (e de outras editoras também) era pueris, especialmente a maior daquelas escritas – ou co-escritas – por Stan Lee. Mas essa talvez tenha sido a maior bobagem que tenha lido dessa época, com um encaixe atabalhoado e risível de coincidências das mais absurdas. Lee e Huntley nem mesmo nomearam a criatura interplanetária, dando a impressão de algo escrito em um guardanapo enquanto os dois comiam cachorro-quente na carrocinha da esquina.

tales to astonish 44 vespa uniforme

Primeira aparição da Vespa.

No lado da arte, a publicação não tem melhor sorte, mesmo sendo obra de Jack Kirby. Àquela época, ele trabalhava a toque de caixa e  seu esmero e liberdade criativa eram muito limitados. A pressão do tempo era grande e os prazos tinham que ser obedecidos. Ainda que os laboratórios de Vernon e de Hank, com toda a parafernália tecnológica, carreguem bem os traços de Kirby, que sempre trabalhou esse aspecto como ninguém, suas demais criações, aqui, são muito pobres. O monstro sem forma do planeta Kosmos é apenas isso, uma espécie de “minhoca” verde gigante que parece uma mistura de verme de areia de Duna com Cara de Barro, inimigo clássico do Batman. Os detalhes dos quadros que ele desenha são inexistentes, com todo o foco sendo deixado no primeiro plano. Lógico que o roteiro de Lee e Huntley definitivamente não ajuda, mas esse é um trabalho quase irreconhecível de Kirby.

Vespa merecia uma primeira aparição melhor, muito melhor. Ela nunca foi uma personagem de extrema relevância no Universo Marvel, mas fico até espantado que, depois desse começo tenebroso, ela tenha tido qualquer relevância.

Tales to Astonish #44 (EUA, junho de 1963)
Roteiro: Stan Lee, H.E. Huntley
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Don Heck
Editora (original): Marvel Comics
Páginas: 19

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.