Crítica | Tallulah

estrelas 5,0

Baseado no curta-metragem, Mother, da própria diretora, Sian Heder, Tallulah, longa-metragem original do Netflix, funciona como uma espécie de “e se” da diretora. A realizadora nos conta que, quando trabalhava como babá para bebês de hóspedes em um hotel de Los Angeles, ela se deparou com uma mãe negligente que deixou com ela a criança a fim de ter um caso amoroso fora do casamento – eu deixei o hotel, entrei em meu carro e chorei o caminho todo para casa e pensei, eu deveria ter levado comigo aquela criança.

A obra, portanto, assume essa ramificação, como em uma realidade paralela na qual Heder teria, de fato, levado o bebê. Para nos contar essa história, somos apresentados Tallulah (Ellen Page), uma jovem garota que vive na rua, morando em sua van, viajando de cidade em cidade com cartões de crédito roubados. Quando seu namorado, Nico (Evan Jonigkeit), a deixa repentinamente ela decide voltar a Nova York a fim de encontrar com a mãe do rapaz, Margo (Allison Janney), e, na empreitada, acaba se vendo na situação descrita acima. Com a criança a seus cuidados ela passa a dizer que é sua filha junto com Nico, convencendo a senhora a cuidar de ambas. A trama, pois, aborda a questão de pais, que, evidentemente, não estão prontas para trazer crianças para o mundo

A história não traz efetivamente nada de muito novo à indústria cinematográfica, mas Sian Heder foge do óbvio através de seus personagens – esse é um filme conduzido por eles, focando não somente em seus crescimentos pessoais, como nas relações que se constroem, especialmente entre a protagonista e Margo. Tallulah, que inicialmente demonstrara ser evidentemente contra qualquer tipo de aquietação, não desejando construir qualquer espécie de família, aos poucos se vê no papel de uma verdadeira mãe. Seu carinho pela pequena Madison é estarrecedor, perfeitamente contrastando com a posição da mãe da criança, que não sabemos ao certo se está procurando a filha porque quer revê-la ou simplesmente para não ter seu casamento destruído.

Ellen Page nos oferece um verdadeiro show de atuação, sua mudança é essencial, visível e, ao mesmo tempo, seus temores, inquietações e pensamentos filosóficos vão sendo trazidos à tona. Ao seu lado temos a fantástica Allison Janney, que cria com a protagonista uma relação materna verdadeiramente tocante, que progride de maneira tão orgânica que não podemos nos encantar com tal. Sua relutância inicial vai dando espaço para um carinho notável que a influencia profundamente – essa é uma experiência de recuperação para uma mulher que ainda não conseguiu lidar com seu divórcio e sua primeira risada na obra traz a nós próprios um genuíno sorriso. Mesmo no clímax o roteiro de Sian Heder consegue distinguir-se do óbvio, nos mostrando a força da relação cuidadosamente construída ao longo dos 111 minutos do filme.

Naturalmente a direção tem grande parte do mérito do longa-metragem. É precisa, nos mostra exatamente o que precisamos ver, sabendo ocultar quando deve. Os planos são, prioritariamente ligados à protagonista, somos colocados em seu ponto de vista e as surpresas presentes aqui e lá não aparecem do nada – nos são dadas dicas que, no fim, contribuem notavelmente para a coesão da obra como um todo. A tensão, que gradualmente caminha para seu ápice, vai nos pressionando e os personagens lentamente, sabemos que não veremos um final feliz, mas há sempre a esperança e o desfecho não pede uma suspensão de descrença do espectador, funciona de forma bastante realista e com um tom até otimista dentro das possibilidades.

Tallulah se prova como mais um acerto da Netflix, um filme que merece ser visto que certamente fará a qualquer espectador se apaixonar pela protagonista e a coadjuvante. Trata-se de uma obra com um teor verdadeiramente humano, que não peca trazendo falsos moralismos, aborda uma questão preocupante e constante de nossa sociedade com um olhar bastante sóbrio, realista. Sian Heder, Ellen Page e Allison Janney merecem ser aplaudidas.

Tallulah (idem – EUA, 2016)
Direção: 
Sian Heder
Roteiro: 
Sian Heder
Elenco: 
Ellen Page, Allison Janney, Tammy Blanchard, Evan Jonigkeit, Felix Solis, David Zayas
Duração:
111 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.