Crítica | Tangerine (2015)

estrelas 4

Abordar minorias, seja na realidade, na ficção ou no meio campo entre ambas, acarreta um problema: como apresentar algo ou alguém que poucos conhecem de fato? Sim, porque independente do quanto se possa conhecer algo ou alguém, é fácil viver de estereótipos, de rumores, de uma imagem que nos é vendida acerca do outro e que, no final das contas, só é reflexo do seu isolamento, da sua carência de representatividade social.

Essa preocupação, a exemplo do saudoso cinema de John Waters, parece evidente em Tangerine, não apenas no texto, mas em toda a narrativa comandada por Sean Baker. Na trama, o protagonismo é principalmente das transexuais negras Cin-Dee (Kitana Kiki Rodriguez) e Alexandra (Mya Taylor), que fazem programa nas ruas de Los Angeles. Após passar vinte e oito dias na cadeia, já em liberdade Cin-Dee reencontra a amiga e, por meio desta, fica sabendo que o namorado, Chester (James Ransone), a traiu com uma mulher de nascença, fisicamente falando. Ainda com informações vagas sobre quem é a tal mulher, Cin-Dee revela-se decidida a encontrá-la e se vingar.

Tem-se aí o estopim para o desenrolar de uma narrativa no bom e velho estilo road movie. Enquanto perambulamos com Alexandra e Cin-Dee pela cidade em uma busca indomável por aquela que partiu o coração da protagonista, somos imersos mais e mais em uma retratação quase documental, embora o roteiro mantenha seu ponto de apoio no humor dramático, da rotina simbiótica local entre a prostituição, os cafetões e traficantes. Apesar do proposital ritmo turbulento da narrativa, que prejudica um pouco a interiorização dos personagens, o roteiro claramente se preocupa em humanizá-los — inclusive um cliente em especial –, porém com um texto objetivo e realista, que não polpa palavrões e barracos, ao mesmo tempo subjetivando a beleza ou a degradação humana segundo o caráter antes de quaisquer outros fatores, como o gênero ou a classe social.

Como dito, essa subjetividade perpassa a narrativa em diferentes frentes, não apenas no texto, como também na trilha sonora – que ora usa a música eletrônica, ora recorre a Beethoven – ou mesmo nos equipamentos de filmagem: iphones, uma lente e um aplicativo de filtro de imagens para celular (que, no entanto, não são utilizados por amadores, e daí tem-se o grande diferencial). Quanto às atuações, especialmente Rodriguez e Taylor parecem sentir-se em casa e, definitivamente, representam a maior eficácia do longa em atingir seu referido quase tom documental.

Assim, com tantos elementos trabalhando juntos, harmoniosos em prol da mensagem de uma história, tem-se uma obra digna das minorias e de todo e qualquer caráter. Que muitas mais venham!

Tangerine (Idem), EUA – 2015
Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker, Chris Bergoch
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian, Mickey O’Hagan, James Ransone, Alla Tumanian, Luiza Nersisyan, Arsen Grigoryan, Ian Edwards, Clu Gulager
Duração: 88 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.