Crítica | Tanna

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estrelas 3

Tanna é uma ilha de 550 km², parte do arquipélago de Vanuatu, no sul do Oceano Pacífico. Não poderia ser mais distante da chamada “civilização”. Mas, em 1987, uma história que parece ter diretamente saído das páginas de Romeu e Julieta realmente aconteceu, comprovando cabalmente que histórias de amor dessa natureza são universais.

A fita, que leva o nome da ilha, foi filmada inteiramente em locação em Tanna, onde o co-diretor Bentley Dean ficou vivendo por nada menos do que sete meses juntamente com sua família. Aliás, ele e o outro diretor, Martin Butler, são documentaristas responsáveis pela série First Footprints, que lida com os aborígenes australianos de 50 mil anos atrás e Tanna é o primeiro projeto deles de ficção, ainda que seja uma ficção muito próxima da realidade e com uma inegável e inescapável pegada documental.

Para dizer a verdade, considerando que o filme é integralmente falando em nauvhal e nafe, dois dialetos da ilha, e que seus atores são também nativos locais vivendo, em sua maioria, eles mesmos, pode-se dizer que o que  Butler e Dean fizeram está mais para cinema experimental do que para um drama comum. Mas não se enganem: mesmo com todas essas características que diferenciam o filme de seus pares, os elementos familiares de uma narrativa clássica estão presentes em Tanna. Considerando que invoquei a obra mais conhecida do bardo inglês um pouco mais acima, é desnecessário dizer que a história gira em torno de um amor proibido – no caso entre Wawa, prometida em casamento para o filho do chefe da tribo rival e Dain, bisneto do chefe da tribo de Wawa – que leva à tragédia, em um reencenamento dos eventos da década de 80.

A escolha de nativos para formar o elenco empresta autenticidade da mesma forma que retira um pouco da carga dramática, fazendo com que o drama passe de maneira leve e sem trazer qualquer tipo de urgência ou perigo. Além disso, Butler e Dean, talvez por suas visões de documentaristas, parecem muito mais preocupados em lidar com os costumes e tradições das tribos rivais – coletivamente denominados Kastom, palavra claramente derivada do inglês custom – do que em contar uma história. Isso fica particularmente evidente pelo fato de que o efetivo começo da trama acontece na metade da projeção, com tudo que antecede esse ponto sendo uma lenta construção em última análise detalhada demais para ter justificativa dentro do roteiro. Finalmente, ainda que a partir do catalisador do conflito haja momentos genuinamente interessantes como a fuga inicial de Wawa e Dain e seu encontro com outras duas tribos, uma delas “colonizada” e seguindo o cristianismo, tudo parece burocrático e simples demais para efetivamente engajar o espectador.

O aspecto religioso é muito interessante, já que o cerne da questão do amor proibido de Wawa e Dain tem origem no casamento arranjado versus o casamento por amor. Tanna foi o epicentro do movimento “John Frum” que afastou os nativos dos usos e costumes ocidentais a partir da década de 30, includindo dinheiro, trabalho nas plantações de coco e o catolicismo e os levou de volta aos antigos costumes. Ainda que a presença dessa dicotomia esteja no filme e a sombra do vulcão ativo Yasur, que impera na projeção, empreste um ar de misticismo, o tratamento dado por Butler e Dean camba para um lado raso sendo até mesmo curioso notar que Werner Herzog chega a ser mais bem sucedido neste aspecto em Visita ao Inferno, ironicamente um documentário.

No entanto, é inegável que a mescla de experiência antropológica documental com obra de ficção gera curiosidade no espectador, mesmo que a história caminhe de forma familiar e sem nenhuma surpresa. Os diretores foram felizes em trazer à luz Mungau Dain e Marie Wawa vivendo eles mesmos, além de Marceline Rofit como Selin, irmã de Wawa, todos aparentemente muito confortáveis em seus papeis, mas a inabilidade dos dois em construir uma drama eficiente durante metade da projeção enfraquece o resultado final e quase que automaticamente leva o espectador a focar no pitoresco e no curioso, esquecendo a história em si.

Tanna é um filme razoável, um documentário interessante e uma experiência inusitada. Se tivesse sido apenas um dos três, poderia ter sido sensacional. Ao tentar ser os três, acabou se perdendo, ainda que seja uma curiosidade para qualquer cinéfilo que se preze.

Tanna (Idem, Autrália/Vanuatu – 2015)
Direção: Martin Butler, Bentley Dean
Roteiro: Martin Butler, John Collee, Bentley Dean
Elenco: Mungau Dain, Marie Wawa, Marceline Rofit, Kapan Cook, Charlie Kahla, Lingai Kowia, Dadwa Mungau, Albi Nagia, Mikum Tainakou, Mungau Yokay, Linette Yowayin
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.