Crítica | Tarkin, por James Luceno

estrelas 4,5

Espaço: Base Sentinela, Coruscant, Murkhana, Eriadu, Geonosis, Star Destroyer Executrix
Tempo: 14 a.BY, mais precisamente entre A Vingança dos Sith (Episódio III)Uma Nova Esperança (Episódio IV)

Importante personagem de Uma Nova Esperança, Wilhuff Tarkin finalmente ganha sua merecida abordagem nas páginas de James Luceno. O Moff Imperial tem sua história aqui contada a fundo em uma narrativa que explora os anos desde a República até os primeiros anos do Império. O autor, já experiente dentro do Universo Expandido de Star Wars, demonstra uma grande familiaridade com toda a mitologia da franquia e consegue nos transportar com exatidão para os eventos que procura narrar, ao mesmo tempo que oferece importantes detalhes que compõem nossa visão do novo cânone estabelecido após a compra pela Disney.

A trama tem início nos anos iniciais do novo sistema de governo criado por Palpatine, Moff Tarkin foi realocado para uma distante base próxima a Geonosis, onde deve supervisionar a construção de uma estação espacial de combate (em outras palavras, a Estrela da Morte) – criando, assim, um vínculo imediato não só com Uma Nova Esperança, como com A Vingança dos Sith. Longe do centro da galáxia, o governador sofre um ataque por um grupo de piratas ou dissidentes e cabe a ele, posteriormente aliado a Darth Vader, descobrir o motivo e as origens desse atentado contra o Império. Uma verdadeira investigação se inicia cujas experiências fazem Wilhuff relembrar o seu aprendizado na juventude, e o que o fizera se tornar o homem que é hoje.

Com essa premissa, Luceno introduz uma narrativa que constantemente oscila entre o passado e o presente e surpreendentemente o faz de maneira orgânica, em nenhum ponto nos sentimos perdidos quando o protagonista mergulha em seu próprio passado em Eriadu, retomando as rígidas provações impostas por sua família que moldaram seu caráter. De pouco em pouco passamos a entender como ele ocupara um cargo de tamanho destaque dentro do Império, que, portanto, explica sua relação com Vader vista no primeiro filme da franquia (em ordem de lançamento). A interação entre esses dois importantes personagens é elaborada aqui de forma fascinante com Luceno inserindo inúmeras suposições por parte do governador em relação ao Darth – ele procura decifrar a expressão que há por trás da máscara e faz isso com uma deliciosa frieza e astúcia.

tarkin-capa-pcO autor, detalhista na construção desse universo, utiliza de tudo a seu dispor para criar um quadro realista do cenário galáctico atual, referenciando acontecimentos tanto dos filmes, dos livros, quanto da série animada Clone Wars. Por vezes, essa estratégia acaba constituindo um tiro no pé – um excesso de informações e personagens pode acabar confundindo o leitor, especialmente se este não contar com um profundo conhecimento da mitologia de Star Wars. Tal fator poderia ser facilmente contornado com um glossário ao fim da obra, mas pode ser facilmente substituído por consultas na internet – algo praticamente obrigatório para se ter uma visão completa sobre Tarkin, especialmente quando James se utiliza de nomes de naves ou até mesmo alguns personagens secundários. Por outro lado, ao dispensar extensivas explicações sobre todo e qualquer aspecto abordado em sua trama, ele cria uma nítida fluidez na leitura – pulamos de página após página ansiosos pelo que está por vir. Suas descrições estimulam nossa criatividade e curiosidade. Estamos falando, naturalmente, de um universo inteiramente pautado na transmídia e consultas externas se fazem sim necessárias e não há falta de fontes para termos a visão geral requisitada.

O que talvez seja mais interessante em toda a construção do livro, contudo, é a forma como ele cuidadosamente amplia nossa percepção sobre o Império. A trilogia original dispensa quase que completamente qualquer abordagem política sobre o governo galáctico – ao contrário dos Episódios I, II e III. Somente em Uma Nova Esperança temos alguns vislumbres desse aspecto da franquia através dos diálogos entre o Moff, Vader e outros oficiais na Estrela da Morte. Aqui em Tarkin, todavia, somos levados para a cúpula da galáxia e passamos a entender melhor todo o cenário pós-guerras clônicas. A exploração, o racismo, o totalitarismo desse novo governo, naturalmente espelhando o nazismo, são discretamente trabalhados por Luceno com alguns detalhes inseridos em determinadas frases, mas que contam com enorme peso.

A fim de explorar mais profundamente esse aspecto, o autor ainda divide, pontualmente, alguns trechos de seus capítulos focando-os em outros personagens, como o Imperador, Vader ou até mesmo os antagonistas. Um preciso trabalho de diagramação aqui se faz essencial e cria uma maior distância entre os parágrafos na ocasião de uma mudança de foco narrativo. Já abordando o trabalho editorial eu não poderia deixar de tecer elogios à Aleph, que nos traz a edição brasileira. Cada mudança de capítulo é um verdadeiro deleite, contando não só com páginas de qualidade, como com uma ilustração bem inserida do ataque à Estrela da Morte, que imediatamente nos situa dentro do mesmo universo da trilogia clássica.

Além disso, a tradução por Caco Ishak sabiamente mantém alguns nomes e títulos no idioma original, enquanto alguns outros são traduzidos. Essas traduções, especialmente Pico da Carniça exercem uma poderosa força na construção do livro, há um certo ar de interioridade no nome da nave de Tarkin e isso perfeitamente corresponde às suas origens de Eriadu. Ouso dizer que Pico da Carniça chega a soar melhor que o original Carrion Spike quando inserido dentro desse contexto, que dá muitas faces ao protagonista e, sobretudo, uma gigantesca profundidade.

Com a experiência e a Força do seu lado, James Luceno nos traz a fascinante história do homem que se tornaria Grand Moff, ocupando uma posição de equivalência ao próprio Vader no cenário galáctico. Tarkin é uma obra nada menos que obrigatória para todo e qualquer fã de Star Wars e ajuda imensamente a construir nossa percepção sobre esses tempos sombrios dentro da mitologia da franquia, trazendo o passado e presente de um icônico personagem que, até então, fora muito subutilizado. O novo cânone definitivamente começou com o pé direito.

Tarkin (idem – EUA, 2014)
Lançamento no Brasil: Agosto de 2015
Autor: James Luceno
Ilustrações: David Smit
Tradução: Caco Ishak
Editora: Aleph
Páginas: 368

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.