Crítica | Tarzan (1999)

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estrelas 5,0

A série literária de Edgar Rice Burroughs iniciada com Tarzan, o Filho das Selvas (publicado como livro em 1914), já foi adaptado mais de duzentas vezes para o cinema, não incluindo as séries de televisão na lista. Curiosamente, somente em 1999 a obra ganharia sua primeira animação em longa-metragem, através dos estúdios de animação da Disney. Dirigido por Chris Buck, que posteriormente realizaria Frozen: Uma Aventura Congelante e por Kevin Lima, Tarzan é, possivelmente, a melhor releitura do clássico do início do século XX e certamente teria concorrido ao Oscar de Melhor Longa de Animação se tal categoria já houvesse sido criada na época de seu lançamento.

Naturalmente, por tratar-se de uma trama de conhecimento geral, privarei o texto de detalhes, focando no que faz deste um filme único. Sua narrativa é evidentemente dividida em dois atos distintos. O primeiro inicia-se com a infância de Tarzan (Tony Goldwyn), mostra seu crescimento, o aprendizado do modo de vida dos gorilas e encerra-se quando este vence Sabor, o leopardo que matara sua família e o filhote de Kala (Glenn Close, que dublara Andie MacDowell em Greystoke) e Kerchak (Lance Henriksen). O segundo ato, por sua vez, ocupa a maior parte do longa e representa a ruptura na vida do homem-macaco. Ao conhecer Jane (Minnie Driver), o professor Porter (Nigel Hawthorne) e Clayton (Brian Blessed em uma evidente homenagem ao romance original, já que o nome real de Tarzan é John Clayton), sua realidade é profundamente alterada. Esta parcela da animação lida com isso e com a paixão crescente do selvagem e Jane, terminando junto ao desfecho do filme.

O enredo de Tarzan, porém, é muito mais do que uma história de amor. Como qualquer animação realizada pelo estúdio, temos diversas camadas a serem interpretadas a mais óbvia sendo justamente o romance e as aventuras  do protagonista, que por si só já nos engajam através do fluido trabalho de animação, que traz sequências de ação realmente surpreendentes mesmo depois de todo esse tempo. Cada movimento do personagem central é um espetáculo à parte e o mais surpreendente é que nossos olhos conseguem acompanhá-lo a qualquer instante e há uma dosagem certa de velocidade no que nos é mostrado, fator amplificado, naturalmente, pelas cores vivas utilizadas na animação. Isso, sem falar na estrutura física do protagonista, que reflete muito bem seus hábitos na selva, desde as mãos e pés mais brutos até o cuidado com a musculatura mais avantajada nas coxas, refletindo a forma como se locomove.

Uma segunda camada, mais profunda, é a questão da identidade do homem: ele é o que a sua natureza dita ou o que seu redor faz dele? Aqui, o personagem Kerchak, líder dos símios, se faz essencial, pois ele é o elemento que causa o deslocamento do protagonista e o mantém sempre à margem dessa sociedade, por mais que outros de seu bando o acolham como se fizesse parte deles (e realmente faz). O primeiro encontro com os humanos, portanto, torna-se o grande ponto de virada do filme – Tarzan é construído para depois ser desconstruído e remodelado novamente. A priori, o longa nos dá a entender que não é possível fugir de quem você realmente é, apenas para nos mostrar o contrário depois, deixando a forte mensagem que, de fato, nós somos um produto de nossas experiências e sensações. Tarzan pode não ser um símio, mas se porta como um.

A terceira camada já nos leva para uma via mais filosófica, o conceito do bom selvagem, tão comum na idade moderna europeia e um dos temas centrais tanto de Tarzan, o Filho das Selvas, quanto de O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, que deu origem a Mogli: O Menino Lobo e que precedeu a história de Burroughs em alguns anos. A animação da Disney faz muito bem em respeitar o material fonte nesse quesito, nos mostrando que, por mais que Tarzan fosse um selvagem aos olhos do homem “civilizado”, seu coração era puro e ainda não fora corrompido pela civilização. Uma marca disso é no clímax da obra, quando Clayton está prestes a se matar, o protagonista o adverte. Evidentemente, aqui, não temos todo o arco do personagem fora de seu habitat original, mas essa parte é, de certa forma, resumida através da escolha de Jane e seu pai em ficarem na África, regredindo, portanto, ao seu estado mais primitivo e puro.

Realçar os feitos do roteiro e do departamento de animação sem falar em sua trilha sonora, contudo, seria um grande equívoco. A trilha sonora composta por Mark Mancina, com canções originais de Phil Collins – You’ll be in my Heart, inclusive, ganhou o Oscar de Melhor Canção Original – não somente se encaixa perfeitamente com a imagem, como evoca fortes emoções do espectador. Cada sequência tem seu momento dramático intensificado consideravelmente e cada canção representa um grande acerto de Collins, que soube explorar em suas letras o âmago da temática aqui apresentada.

Tarzan, portanto, é muito mais que um desenho feito para crianças; é um filme de notável profundidade, que somente nos faz sentir falta da época em que a Disney ainda investia na animação tradicional. Temos aqui a adaptação definitiva de Tarzan, o Filho das Selvas, que orgulharia seu escritor, uma história divertida, dramática e atemporal, que mexe com o espectador e o faz esquecer os minutos passando. Quando percebemos, o longa-metragem terminou e somos deixados com um sorriso no rosto ao som da música de Phil Collins presente nos créditos finais.

Tarzan (idem – EUA, 1999)
Direção: Chris Buck, Kevin Lima
Roteiro: Tab Murphy, Bob Tzudiker, Noni White
Elenco (vozes originais): Tony Goldwyn, Minnie Driver, Brian Blessed, Glenn Close, Nigel Hawthorne, Lance Henriksen, Wayne Knight, Rosie O’Donnell.
Duração: 88 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.