Crítica | Tarzan, o Filho das Selvas (1932)

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estrelas 2,5

Longe de ser a primeira adaptação cinematográfica da imortal obra de Edgar Rice Burroughs publicada originalmente em 1912, Tarzan, o Filho das Selvas, de 1932, é, provavelmente, a mais importante. E sua importância repousa muito mais no que o filme significou para a expansão da mística de seu protagonista do que por seus méritos técnicos intrínsecos. Afinal, é nele que o medalhista olímpico de natação Johnny Weissmuller vive Tarzan pela primeira de 12 vezes; é nele que o mais característico “berro” do personagem é ouvido pela primeira vez; é nele que o chimpanzé Chita (vivido por Jiggs) surge e é nele que todos os estereótipos possíveis do sub-gênero são estabelecidos.

Os roteiristas Cyril Hume (história) e Ivor Novello (diálogos) elegeram criar uma história que apenas pinça alguns elementos aqui e ali da série literária de Tarzan. Há o protagonista, claro, um homem branco criado na selva africana, há Jane Parker (Maureen O’Sullivan), seu interesse romântico e… só. Não há qualquer preocupação em se explicar o como e o porquê ou dar algum estofo a Tarzan, que nada mais é do que um símio sem pelos sempre limpinho, barba bem feita e cabelo arrumado correndo de um lado para o outro de tanga e falando “macaquês” e tentando aprender o inglês com Jane. A história, ou o fiapo dela, lida com a busca de James Parker (o pai de Jane, vivido por C. Aubrey Smith) e seu insensível braço direito Harry Holt (Neil Hamilton) por um mítico cemitério de elefantes, para que eles possam furtar o marfim dos esqueletos. Jane aparece na expedição em visita a seu pai e acaba acompanhando-o por todos os perigos da selva misteriosa. Tarzan acaba sequestrando Jane (duas vezes!) e o romance entre os dois até poderia ser classificado como Síndrome de Estocolmo, com direito até de tratamento bastante violento de Jane por um Tarzan bem diferente daquele que vemos no livro.

Mas a história é apenas desculpa para a direção de W. S. Van Dyke costurar filmagens em estúdio com as mais diversas imagens de arquivo na África, como era comum ser feito à época. O problema é que Dyke fica refém do que há disponível para ele e todos os 30 minutos iniciais da fita parecem muito claramente terem sido minuciosamente construídas para permitir o uso do stock footage da MGM, com tribos indígenas diferentes desfilando e recebendo comentários assombrados de Jane apenas para que venham comentários didáticos de seu pai ou Harry. O que realmente salva são os belos usos das pinturas matte de fundo quando a expedição em si começa, com especial destaque para a sequência no desfiladeiro em que o plano geral permite que toda a qualidade do trabalho seja analisada.

O grande problema, porém, é que o diretor não consegue fugir de uma estrutura narrativa viciada pelos seriais da época, praticamente filmes cortados em pequenos episódios projetados semanalmente nos cinemas. Tarzan, o Filho das Selvas, porém, não é um serial, mas sim um longa-metragem. No entanto, é sensível o ritmo entrecortado e claudicante feito justamente para que “paradas” estratégicas sejam possíveis entre um episódio e outro. Isso somado à ditadura das imagens de arquivo resulta em uma película estranha, com desvios inexplicáveis, como quando Tarzan sai para pegar comida para Jane e, no momento em que vai saltar para matar um gnu, ouve o chamado de um elefante e, então, esquece de tudo e se encarrega de salvar um que havia caído em um buraco. Outro exemplo gritante é quando, mais para a frente, Chita corre para chamar Tarzan depois que a expedição de Jane é sequestrada por indígenas. Vemos o chimpanzé correndo e fugindo primeiro de uma pantera e, depois, de dois leões em sucessão, claramente porque era esse o material disponível e porque era necessário esticar a narrativa episódica.

Mas Dyke consegue alguns feitos interessantes, como as sequências em que Tarzan luta com felinos. Abstraindo-se por um momento do mundo embebido em CGI de hoje em dia, é particularmente inteligente e convincente a forma como o dublê e Weissmuller e, depois, a montagem, conjugam-se em sequências bastante realistas para 1932. São essas sequências que de certa forma compensam, por exemplo, o uso de elefantes indianos com orelhas prostéticas de elefantes africanos, algo que me incomodou profundamente…

Se visto pelos olhares politicamente corretos de hoje, então, esse filme seria um escândalo nas redes sociais. A escravização dos nativos, os diálogos de superioridade branca sobre quaisquer outros animais (aí incluídos os indígenas de pele negra e sem contar com os pigmeus vividos por anões brancos pintados de preto…), o descaso por vidas e a objetificação da mulher fariam muita gente ficar de cabelo em pé e sair gritando aos quatro ventos palavras de ordem e criando hashtags como #TarzanOpressor. Mas era o espírito de uma época, além da mais completa inabilidade dos roteiristas em criar algo coerente com os ditames do estúdio. Um exemplo claro disso é como Jane é apresentada e transformada. Toda a meia hora inicial, antes de Tarzan aparecer, é usada para mostrar o quanto ela é forte e independente. Basta então, o homem macaco aparecer de tanga ao lado dela para ela se desmanchar de amores pelo brutamontes selvagem (que acabou de sair do camarim…), com direito até a filtros mais suaves para deixar às escâncaras seus sentimentos. E isso sem contar com a função “dama em perigo” que ela ocupa o tempo todo, com Maureen O’Sullivan nos brindando com berros e mais berros desesperados, daqueles de arrebentar os tímpanos dos espectadores.

E Weissmuller, ele funciona? A grande verdade é que, se ignorarmos a forma “limpa” como ele se apresenta, algo que é culpa da produção e não dele, o ator funciona bem como um selvagem silencioso. Ele nem mesmo tenta agir de maneira mais animalesca como Christopher Lambert viria a fazer muito bem em Greystoke muitos anos depois, mas há que entender que a MGM, aqui, estava criando um “super-herói” e, como tal, ele não poderia andar como um símio. O porte atlético de Weissmuller lhe dá vantagens no choque com os demais personagens e ele consegue passar a imagem do troglodita amoroso determinado pelo roteiro. Em termos de atuação em si, bem, digamos que ele é um ótimo nadador… Ah, vale lembrar que o magnífico berro de Tarzan, ao contrário do que reza a lenda, não foi criado por Weissmuller, mas sim por Douglas Shearer usando efeitos sonoros. O ator apenas, depois, acabou aprendendo a imitar o referido berro, criando a lenda que ele o havia inventado em um concurso de iodelei que participara.

Tarzan, o Filho das Selvas é o trampolim para o sucesso de Weissmuller como Tarzan e para as outras dezenas e dezenas de adaptações cinematográficas e televisivas que o personagem recebeu e continua recebendo ao longo das décadas. No entanto, visto externamente a toda essa importância histórica, o filme não é muito mais do que um serial mal escrito e dirigido que caiu no gosto popular e criou sua própria lenda.

Tarzan, o Filho das Selvas (Tarzan the Ape Man, EUA – 1932)
Direção: W.S. Van Dyke
Roteiro: Cyril Hume, Ivor Novello (baseado em romance de Edgar Rice Burroughs)
Elenco: Johnny Weissmuller,  Neil Hamilton, C. Aubrey Smith, Maureen O’Sullivan, Doris Lloyd, Forrester Harvey, Ivory Williams, Ray Corrigan,  Johnny Eck
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.