Crítica | Tau

Contém spoilers!

A plataforma de streaming Netflix, embora produzindo séries de grande qualidade, transformou-se há tempos em um verdadeiro quarto de despejos de filmes. Lançando e organizando seus longas-metragens sem maiores critérios, tudo se torna ainda pior quando o assunto são os filmes originais da plataforma. O mais recente lançamento original da Netflix – o suspense sci-fi Tau – não me deixa mentir. Dirigido e roteirizado pelos estreantes Federico D’Alessandro e Noga Landau, respectivamente, o longa-metragem faz uma compilação de elementos já utilizados por outros títulos do gênero e acaba por não acrescentar nada de novo a ele. No cômputo geral, não passa de uma junção manca de um excesso de ideias, que em nenhum momento impressionam um espectador um pouco mais versado em cinema.

A cena em que os três prisioneiros de um psicopata desconhecido acordam em seu cativeiro parece ter sido retirada da franquia transformada em caça-níquel Jogos Mortais. A referência é inevitável, mas se, ao menos no primeiro filme da franquia, obtém-se um impacto genuíno, em Tau, a ideia surge tímida e inexpressiva. O roteiro de Landau é tão atabalhoado que não consegue se decidir sobre seus próprios rumos. Acaba abortando a ideia quando mata dois dos personagens precocemente, desperdiçando-os por completo. Um deles é apresentado como uma moça que aparenta ter enlouquecido no cativeiro – não imagino um clichê mais irritante do que esse. Digo que aparenta pois, obviamente, nenhum dos dois personagens é minimamente desenvolvido. Cumprem a ridícula função de dizer ao público que o psicopata mauricinho e hi-tech de Tau escolhe suas vítimas por critérios à la Jigsaw.

Após a introdução canhestramente chupada de Jogos Mortais, o filme vai se revelando com mais clareza. Julia (Maika Monroe), a prisioneira restante, descobre ter se tornado cobaia em um projeto de criação de inteligência artificial. A partir daí, o filme recorre a tentativas inúteis de impressionar seu público com nano-drones, robôs assassinos, modelos digitais de encéfalos giratórios e toda sorte de bobagens tecnológicas. A prisão futurista de Tau parece decalcada de obras como o mediano A Ilha. O filme de D’Alessandro repete o discurso da existência de um mundo “lá fora” como catalisador do conflito central da obra. Dessa vez, não são os prisioneiros que sonham em descobrir o que há além das paredes da prisão, mas sim o próprio sistema operacional da mansão, chamado de Tau. O mais estranho é notar que o novo lançamento da Netflix tenta humanizar um computador enquanto trata roboticamente do anti-herói Alex, interpretado (se assumirmos qualquer coisa como interpretação) pelo insosso Ed Skrein.

A decisão do roteiro, somada à direção genérica, burocrática e quase infantilizada de D’Alessandro, acaba distanciando o público do conteúdo da história que conta. Se o filme às vezes parece resvalar na problematização do mau uso da tecnologia, lembrando episódios de Black Mirror, o que mais distancia uma obra da outra é a capacidade nula de Tau em criar verossimilhança. Não há qualquer ponto de ligação realmente forte entre o futuro apresentado pelo longa-metragem e o mundo atual. As tentativas de criar laços entre o “agora” e “o que nos espera” são frouxas demais, de modo que o filme fracassa também enquanto distopia tecnológica. É possível que o único ponto forte do filme do diretor uruguaio seja a atuação de Maika Monroe. A boa atriz consegue oferecer alguma humanidade a sua personagem, ainda que o terrível roteiro tente sabotá-la com insinuações completamente soltas de um romance iminente com Alex.

Tau falha enquanto suspense e distopia. Desperdiça o potencial de uma boa atriz envolvendo-a em um roteiro arruinado e sem qualquer inventividade. Ao trabalhar o tema desgastado da inteligência artificial, tratado por Spielberg com tanta sensibilidade em A.I., acaba criando uma ficção científica boba e que talvez não agrade nem ao público infanto-juvenil. Mais um filme medíocre que a mais famosa plataforma de streaming lança com destino ao esquecimento.

Tau – EUA, 2018
Direção: Federico D’Alessandro
Roteiro: Noga Landau
Elenco: Maika Monroe, Ed Skrein, Gary Oldman, Sharon D. Clarke, Ian Virgo
Duração: 97 minutos.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.