Crítica | Taxi Driver

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Sou livre para gostar ou não de lagosta à americana, mas, se não gosto dos homens, sou um miserável e não posso encontrar lugar ao sol. Monopolizaram o sentido da vida.

Erostrato, de Jean-Paul Sartre

“Preciso ver os homens do alto” é a frase que abre o conto Erostrato, de Jean-Paul Sartre, presente em O Muro e que narra a trajetória de um homem solitário que resolve sair às ruas e atirar a esmo nos transeuntes. A noção de distanciamento e de certa superioridade megalomaníaca, presente no olhar do protagonista sartreano, é exposta de saída também por Martin Scorsese ao apresentar um de seus personagens mais icônicos – o taxista Travis Bickle. Em 1976, ano de lançamento de Taxi Driver, o nome do diretor norte-americano ainda não ocupava nenhum lugar de destaque no cinema mundial. Seu longa-metragem protagonizado por Robert De Niro alçou os dois a um novo patamar e é considerado ainda hoje um dos maiores filmes não só da carreira de Scorsese mas da própria história do cinema.

O roteiro escrito por Paul Schrader baseou-se em grande medida no romance de Fiódor DostoievskiNotas do Subsolo. Todos os três personagens marginais citados tem em comum a busca da redenção de sua miséria por meio de atos grandiosos, que dêem um sentido real ao seu tormento. Buscam afirmar sua exclusão como uma posição excelsa. Nutrem ódio e ressentimento por quase todos os cruzam seu caminho e, em sua via crucis, tentam encontrar meios de causar uma ferida, ainda que solitária, em tudo o que tanto desprezam. Martin Scorsese enquadra os olhos de Travis no retrovisor dianteiro de seu táxi. Eles brilham de ódio, enquanto as luzes vermelhas das ruas de Nova York tingem o plano-detalhe. É importante não deixar de notar o trabalho do cineasta, junto a seu diretor de fotografia Michael Chapman, com a paleta de cores em Taxi Driver. Nova York surge sem nenhum glamour nem vestígios de romantismo. Ao contrário – a sujeira nas ruas, quase sempre lodacentas, representa a própria degradação dos homens. Se há romantismo no filme, certamente ele está apenas no olhar amargo e inconformado de Travis.

O longa-metragem é uma aula de cinema em muitos aspectos. A trilha sonora compõe o retrato de uma cidade decadente, saudosista de um passado que se degradou e que emula um charme que Scorsese, pelos olhos do protagonista, faz questão de demolir. Os letreiros luminosos de tantas boates e bares são insuficientes para iluminar as ruas escuras e esfumaçadas da cidade. Os bueiros insistem em fumegar seus vapores pestilentos. A direção de Scorsese é inteligente e, nos momentos mais cruciais que se passam dentro do táxi de Travis, opta por enquadrar o interlocutor do taxista sempre por meio do retrovisor. Deixa claro que tudo acontece sob o ponto de vista do personagem principal. O diretor parece nos informar que toda a realidade é moldável aos olhos de quem a vê. Em Taxi Driver, Scorsese já demonstra também a sensibilidade para deixar acontecerem improvisos antológicos. É exatamente isso que Robert De Niro faz na cena em que Travis conversa consigo mesmo enquanto puxa o revólver e pergunta para o espelho: “You talking to me?”.

Betsy (Cybill Shepherd), a executiva por quem o protagonista se apaixona, o define como uma contradição. Algo entre o real e a ficção. O conceito é exato. É possível nos conectarmos a Travis em sua insanidade, megalomania e na descida ao porão de sua existência. É possível compreender facilmente sua repulsa pela decadência que vê à sua volta, que o enodoa e o perturba.  Mas o personagem miserável, insone e noctívago parece só caber mesmo na ficção ou em algum recôndito devidamente domado de cada um de nós. Taxi Driver faz emergir a consciência de que a sociedade só se mantém em funcionamento, cheia de horror e contaminação, como um esgoto a céu aberto, se seus indivíduos negociarem com o real. À medida que o longa-metragem vai se desenvolvendo, uma coisa se torna clara: Travis não está disposto a negociar nada. Ele é a insuportabilidade do real no estado mais bruto, conduzida a uma cena final acachapante e que marca um dos momentos mais impressionantes e bem dirigidos de todos os tempos.

O personagem de De Niro resolve salvar uma jovem prostituta das mãos de seus cafetões. É aterrador o trabalho de Scorsese na cena do trágico tiroteio. Com uma fotografia pesada, quase nauseante, Travis Bickle ataca os homens que exploravam a jovem Iris (Jodie Foster) e o resultado é uma explosão de violência que se tornaria uma marca no cinema do norte-americano. O trabalho de câmera é dos mais inspirados que já se viu – com direito a um cutting on action que simula a propagação do som do disparo do revólver até o quarto da jovem prostituta e a uma decupagem final que refaz o caminho até a saída do prédio, mostrando o rastro de morte deixado por Travis. O trabalho sonoro da cena é também esplêndido, constituído apenas dos sons das armas e dos gritos que ecoam nos estreitos corredores. A edição e a mixagem de som, somadas à trilha sonora de Bernard Hermann, que ressurge apenas nos minutos finais de cena, garantem uma ambientação sonora verdadeiramente infernal. Travis Bickle vai ao coração do inferno nova-iorquino para derrotá-lo em suas entranhas. Ao menos, em seu delírio assassino.

O que mais impressiona em Taxi Driver, mais de quarenta anos após seu lançamento, é notar o fascínio inesgotável da obra entre quaisquer gerações. Em dias em que o amor à humanidade é uma declaração quase que obrigatória, é curioso pensar que um personagem tão avesso a isso, que personifica tanto mal-estar, consiga se comunicar tão bem com todos nós. Travis Bickle lembra, através da direção emotiva e cheia de ansiedade de Scorsese, que uma boa dose de repulsa entre os homens sempre será um ingrediente natural da vida. É algo para perturbar, de fato, os que esperam por um mundo perfeitamente feliz e harmonioso. O filme de Martin Scorsese pode ser muito bem guardado para elucidar nossos piores dias ou para nos salvar de nossas piores tolices.

Taxi Driver – EUA, 1976
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Paul Schrader
Elenco: Robert De Niro, Cybill Shepherd, Jodie Foster, Martin Scorsese, Harvey Keitel, Albert Brooks, Peter Boyle, Leonard Harris
Duração: 114 minutos.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.