Crítica | Teatro de Guerra

PLANO CRITICO TEATRO DE GUERRA MOSTRA SP

Lola Arias, já antes de cineasta, uma artista multifacetada, procura por meio de sua arte reestabelecer um diálogo. A artista que já trabalhou com artes plásticas, teatro e música, dessa vez arrisca no cinema uma mistura de todas suas manifestações artísticas para buscar um respiro afetuoso que ronda um capítulo tenebroso na história da Argentina. A Guerra das Malvinas foi um palco sangrento dividido entre argentinos e ingleses, que disputaram, mais do que um espaço de terra, uma ideologia. Aqueles que antes interpretavam soldados, Lola convidou para serem eles mesmos, reencenando de forma terapêutica e formando um elo entre todas as memórias vividas por ambos lados da guerra.

O palco desse teatro é formado por seis atores, três de cada lado da guerra das Malvinas (ou Falklands, como é chamado pela língua inglesa). A ideia vindoura de uma instalação encenada pela diretora tem como propósito apontar o dedo às feridas deixadas naqueles que viveram o conflito, cujas cicatrizes não são necessariamente físicas, mas na memória. Os atores são convidados à trocar experiências e pontos de vista, não de forma conflituosa, mas respeitosa. Olhar no olho de um antigo inimigo, cuja rivalidade não esteve nas mãos de nenhum dos dois.

O que há de mais tocante é a abertura que cada um dos envolvidos com o projeto tem em ouvir o outro. Tanto Argentina quanto Inglaterra apresentam seu lado da briga de forma com que o resultado do filme seja bastante imparcial, e a única constatação é o fardo que estes seis homens carregaram. Os atores agem de forma perdida, o formato documental tradicional resgatado é capaz de capturar momentos de beleza ímpares nos relatos de cada um dos homens.

Distancia-se do evento para elevar nossa emoção a um patamar racional: qual o invólucro do conflito? Seis homens que não se conhecem e agem de forma passional entre si, mas que três décadas atrás dividiam um campo de batalha e apontavam fuzis entre si. O papel de Lola é reunir e integrá-los, não reintegrar um pensamento conflituoso baseado na mentalidade entalhada que envolve a rivalidade entre argentinos e britânicos. Pode ser argumentado que levá-los ao cenário da guerra seria mais efetivo ao reencenar uma memória perdida entre tanta dor, mas o intuito de Lola era desacoplar esse enfrentamento e despir a alma de cada um deles em um palco distante daquele que haviam se enfrentado. É um teatro de afetos e não de ódio cujo intuito é operar uma comunhão naqueles que pouco sabiam, mas tinham muito em comum. Ambos lados viram homens morrerem, e argentinos e ingleses celebram pelas vidas poupadas.

Teatro da Guerra (Teatro de Guerra) — Argentina, 2018 
Direção: Lola Arias
Roteiro: Lola Arias
Elenco: Marcelo Vallejo, Lou Armour, Rubén Otero, David Jackson, Gabriel Sagastume, Sukrim Rai
Duração: 73 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.