Crítica | Ted

estrelas 3

Seth MacFarlane, que construiu uma boa carreira na TV após sua série Family Guy (Uma Família da Pesada, aqui no Brasil), estreia nos cinemas com o longa-metragem Ted (2012), uma espécie de extensão de suas criações hilárias e bizarras contextualizadas num roteiro passável e que só se faz notar devido a piadas pontuais, porém, certeiras, durante a projeção.

Com um roteiro escrito pelo próprio MacFarlane e mais dois parceiros, Ted se apresenta como uma comédia de momentos muito inteligentes, desfilando citações e gracejos com elementos da cultura pop e do cinema. A história, por si só, já é embebida no imaginário afetivo do espectador, partindo de um ponto narrativo semelhante aos contos de Natal e evoluindo para uma história adulta e politicamente incorreta.

John Bennett (Mark Wahlberg) nunca foi um garoto popular. Sempre sozinho, desejava ser aceito nos grupos da escola e da rua, mas acabava afastado com hostilidade pelos outros garotos. Após um pedido feito na noite de Natal, o jovem Bennett tem os seus problemas solucionados pelo Papai Noel (ou pelas forças da Estrela Cadente): ao acordar, percebe que seu ursinho de pelúcia está falando e quer ser seu amigo para sempre. Amigo de trovoada. Essa relação dura ininterruptamente até os 35 anos de John, quando sua namorada e seu trabalho passam a lhe cobrar mais do que ele — um homem adulto que tem medo de trovão — pode oferecer.

Ao abordar a tão notável Síndrome de Peter Pan da sociedade moderna, os roteiristas logram um resultado interessante, trazendo o lúdico da infância adaptado ao vulgar da idade adulta. Mas não pensem que o filme pontifica sobre questões profundas envolvendo o amadurecimento do protagonista. Isso existe, mas está implícito. O que mais se destaca na obra são as aventuras e desventures do ursinho Ted e seu melhor amigo John. Fazendo jus ao título — que nos deixa claro quem é o destaque da película –, MacFarlane cria e dirige um personagem curioso, especialmente pelo ótimo trabalho de motion capture que dá ao mascote incríveis expressões corporais. Nenhum ator do elenco consegue bater o ursinho em atuação.

Mas nem tudo são flores. A despeito das referências à sua própria série e a Star WarsFlash GordonAliens e 007 Contra Octopussy, MacFarlane não se importa em sangrar chavões cômicos e piadas fail em tela. O paradoxo é visível. Há momentos de muita criatividade nas citações e nas falas do desbocado Ted, mas por outro lado, a história que costura a existência do ursinho é tão tediosamente clichê que chega a ser constrangedora. Em dado momento, parece que estamos assistindo um Garfield metamorfoseado e com classificação indicativa mais alta. Ao mesmo tempo que diverte, Ted cansa o espectador. Com tantos altos e baixos, entendemos que não é possível elegermos um bom roteiro apenas por meia dúzia de situações impagáveis.

Minha franca surpresa no filme se deu em dois momentos diferentes. O primeiro deles, na sequência de Flash Gordon. O segundo, na participação de Norah Jones em uma ponta. A artista também canta a música de abertura, Everybody Needs a Best Friend, e uma outra, num show dentro do filme, Come Away With Me. E claro, eu não poderia deixar de destacar a sequência que culmina na entoação medrosa de Thunder Song. Ver Ted correndo para a cama de John quando ouve um trovão é algo impagável, certamente uma das cenas memoráveis do filme.

O elenco parece seguir no piloto automático e apenas Norah Jones e Ted apresentam soltura e naturalidade em suas interpretações. Mila Kunis está linda, como sempre, mas segue uma tábua dramática, sem alteração ou destaque algum. Mark Wahlberg consegue construir um personagem interessante, mas acaba caindo no jogo do exagero ingênuo para dar vida a eterno crianção de 35 anos, John Bennett. Joel McHale, o Jeff Winger de Community e o ator de Hollywood que é sósia de Michel Teló, faz um Rex extremamente chato e caricato. O filme passaria muitíssimo bem sem sua presença. Por fim, Giovanni Ribisi, que faz um personagem que poderia ser bom não fosse a história paralela e mal escrita em que aparece como ponto de ruptura.

Ted é uma comédia escrachada e recheada de citações musicais, cinematográficas e televisivas. É possível rir e até se emocionar (dependendo da moleza do seu coração) durante a projeção, mas no frigir dos ovos, o filme não deixa de ser mais uma comédia de conceito espirituoso colado a um plano de fundo usado e abusado. Mas que ela diverte, ah, diverte.

  • Crítica escrita no lançamento do filme, em 2012.

Ted (EUA, 2012)
Direção: Seth MacFarlane
Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild
Elenco: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane, Joel McHale, Giovanni Ribisi, Patrick Warburton, Matt Walsh, Jessica Barth, Aedin Mincks, Bill Smitrovich, Patrick Stewart, Norah Jones, Sam J. Jones, Tom Skerritt
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.