Crítica | Teia do Venom: Ve’Nam

Quando pegou o título solo de Venom para escrever, Donny Cates fez o maior retcon até agora sobre a origem dos simbiontes logo no primeiro arco. E uma parte dessa história foi revelar que Eddie Brock não foi nem de longe o primeiro humano a fundir-se com um simbionte. Isso nós é contado por Rex Strickland, um soldado durante a Guerra do Vietnã que foi, juntamente com alguns colegas, o primeiro a ter essa “honra”, graças ao caolho mais querido dos quadrinhos (bem mais que o Ciclope), Nick Fury, mas o original, não a invencionice atual da Marvel Comics.

Ve’Nam, cujo título faz uma brincadeira infame com “Venom” e “Vietnam”, é um one-shot escrito por Cates justamente para expandir esse conceito, contando detalhes do que Rex sofreu em sua época. Não é uma leitura essencial para entender essa nova mitologia já que o referido arco contém explicações suficientes – talvez até demais! – sobre os antepassados do simbionte atual que caíram aqui na Terra por intermédio do dragão batizado de Grendel (sim, do poema épico Beowulf) que Nick Fury acha congelado na Escandinávia e, claro, não resiste em transformar a gosma simbiótica que o cerca em uma versão do Programa do Super-Soldado. Com isso, a equipe de Rex é montada e reunida a pedaços do simbionte, formando a tropa de elite monstruosa para trucidar vietcongues com mais prazer e eficiência do que Rambo. Mas é claro que tudo dá errado e Fury e um certo Carcaju canadense (que misteriosamente não usa as garras uma vez sequer) vão para o meio da mata caçar os bichos.

Pode ser uma reclamação boba, mas a presença de Logan na história me cansou a beleza. Ok, eu adoro o personagem, mas, mesmo considerando sua longevidade e sua utilidade maior do que canivete suíço ou Bombril, chega a ser ridículo como o sujeito é onipresente em todos os eventos do Universo Marvel. É até uma surpresa ele não ter participado (até agora) da fundação dos Vingadores pré-históricos da nova publicação do grupo. E o pior é que, aqui, ele parece subaproveitado, com sua presença se justificando talvez única e exclusivamente para tornar mais fácil o marketing da publicação, já que o Venom que mais conhecemos não aparece e a geração mais “verde” dos quadrinhos provavelmente estranhará um Nick Fury branco. Em outras palavras, Wolverine é um enfeite na narrativa, sem uma função bem definida.

(1) O simbionte original e (2) o dragão Grendel.

E a história como um todo, apesar de ser um spin-off de um ótimo arco de Cates na publicação principal, é por demais simples e básica, especialmente se considerarmos que sua escolha foi a de pular o início das atividades do destacamento de Rex, pulando imediatamente para os problemas, o que retira a construção e desenvolvimento dos personagens novos. É como ler um “capítulo do meio” corrido, sem muita substância, que existe mais como um caça-níquel puro do que algo que realmente acrescente às revelações que o autor faz em seu retcon.

A arte de Juanan Ramírez é, talvez, o maior destaque do one-shot, com traços fortes, de pegada própria em relação aos personagens conhecidos e mantendo o espírito da criação recente de Ryan Stegman na publicação solo de Venom. Mas, diferente de Stegman, ele não exagera na monstruosidade das criaturas, fazendo algo mais comedido e, de certa forma, realista, como uma história gótica de guerra. Além disso, o artista trabalha bem a fluidez dos quadros e das páginas, mantendo a coesão narrativa e jamais confundido o leitor, algo que fica um pouco mais fácil considerando que o roteiro de Cates camba para a simplicidade.

O detalhamento da história do primeiro hospedeiro humano dos simbiontes espaciais (ou seus antepassados, para ser mais específico) é, no frigir do ovos, uma narrativa expletiva, não muito mais do que um filler para ampliar o escopo do que Cates apresentou na publicação principal de Venom. Apesar de não se justificar, a história não desagrada e é de facílima digestão, mesmo que Wolverine seja um enfeite, Fury seja.. bem… Fury e a narrativa falhe em sequer desenvolver Rex Strickland para além do que o que já sabemos. É uma curiosidade esquecível, digamos assim.

Teia do Venom: Ve’Nam (Web of Venom: Ve’Nam, EUA – 2018)
Roteiro: Donny Cates
Arte: Juanan Ramírez
Cores: Felipe Sobreiro
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Devin Lewis, Nick Lowe
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 2018 (de capa), agosto de 2018 (de rua)
Páginas: 33

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.