Crítica | Tempero da Vida

Recheado de metáforas que envolvem ações humanas com temperos formidáveis para fornecimento do sabor ideal de um prato caprichado, Tempero da Vida é um filme que flerta com elementos da poesia para construir a sua narrativa e dar o devido desenvolvimento aos seus personagens. Cinematograficamente possui alguns deslizes estruturais, principalmente na construção do roteiro, mas no geral, a “mensagem” é transmitida: tal como “a música pode unir as pessoas”, a comida também.

Em Tempero da Vida, na verdade, a arte de cozinhar pode diminuir ou aumentar conflitos, pois tudo vai depender das intenções de quem realiza o prato em determinada situação. Tendo como suporte características do realismo mágico, o filme cita um dos maiores clássicos do subgênero “gastronomia e cinema”, além de trazer em alguns trechos, referências suaves aos mestres canônicos da linguagem cinematográfica, tais como Fellini e Woody Allen.

Dirigido e escrito por Tassos Boulmetis em 2003, a narrativa utiliza a gastronomia como elemento de expressão para conflitos dos personagens, imbuídos em um contexto histórico repleto de problemas geopolíticos: a acirrada disputa entre gregos e turcos, questão potencializada por conta da disputa pela Ilha de Chipre durante a década de 1950. Com um roteiro que flerta com os hábitos mediterrâneos até na condução dos acontecimentos (aperitivo, primeiro e segundo prato e sobremesa), Tempero da Vida aposta no adensado território da memória para tecer as idas e vindas, no percurso do protagonista, Fanis (George Corraface), criado em Istambul. Atualmente astrônomo e interessado em culinária, ele viveu há 30 anos com o seu avô, onde aprendeu muitas coisas que carregou para a vida.

Por conta da morte do idoso, ele toma coragem de voltar ao local que, no passado, foi palco para a expulsão dos seus pais, realizada pelos turcos. Nestas lembranças, Fanis resgata os ensinamentos do avô no que tange aos valores da vida, as imbricadas questões políticas do mundo naquela época, além de tratar de temas como diplomacia e amor, tudo isso, no sótão de seu estabelecimento de vendas de temperos, num agitado mercado de rua.  “A pimenta é o sol, a vida, o sal, pois dá gosto à vida” e “a canela é Vênus, a mulher, doce e amarga”: através de metáforas bem elaboradas sobre relacionamentos humanos e temperos, o roteiro fornece ao espectador a ideia e que sabores diferentes, quando combinados, propiciam experiências diversas.

Ao voltar, Fanis precisará dar conta destas metáforas que gravitam em torno da sua memória, pois ainda há uma questão amorosa e mal resolvida no passado que vem à tona para coloca-lo nos meandros da reflexão. Ele, um homem de quarenta anos que, apesar de viver no contexto urbano e assimilar dos modos de vida que regem a contemporaneidade, se mostrar igualmente dividido entre passado e presente, pois em algumas atitudes, demonstra que é há mais ressonâncias sobre os ensinamentos do seu avô em seu momento presente do que ele possa imaginar.

Sal, pimenta, canela e outros elementos que dão o sabor ideal para determinados pratos que amamos tanto são metaforicamente justapostos em alguns trechos da narrativa para servir de reflexão para os comportamentos dos personagens dentro de seus respectivos territórios de atuação. O uso adequado de um tempero pode unir duas pessoas ou mais, no entanto, a depender da intenção, pode estabelecer uma crise sem precedentes.

De maneira bastante delicada, a produção nos mostra que na realidade os personagens que transitam na narrativa são parte de dois povos que possuem mais semelhanças que diferenças, mas que não conseguem olhar para si próprios. Com 108 minutos de duração, Tempero da Vida é uma coprodução entre Grécia e Turquia, obra indicada aos apaixonados por poesia e cinema, além da majestosa arte de cozinhar.

Tempero da Vida (Politiki Kouzina/Grécia, 2003)
Direção: Tassos Boulmetis
Roteiro: Tassos Boulmetis
Elenco: Basak Köklükaya, Georges Corraface, Ieroklis Michaelidis, Markos Osse, Renia Louizidou, Stelios Mainas, Tamer Karadagli, Tassos Bandis
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.