Crítica | Tenebre

Tenebre

estrelas 3,5

Depois de alguns anos afastados do gênero, eis que Dario Argento retornou com força total. Era 1982 e a Itália já havia feito bastante coisa dentro do giallo, tipo de narrativa que havia começado a ser explorada à exaustão nos Estados Unidos, com a alcunha de slasher movie. Em Tenebre, a violência é explorada de forma artesanal, com esguichos de sangue que colorem a tela, para o delírio dos que são fascinados por narrativas carregadas de violência.

No filme, Peter Neal (Anthony Franciosa) é um escritor de suspense que viaja até Roma para promover o seu último livro, Tenebrae. O que ele não esperava era que um assassino espalha o horror na cidade, atacando as suas vítimas tal como os crimes narrados em seu romance. A associação com o escritor se torna mais estreita quando o psicopata decide enviar uma navalha e alguns recadinhos cheios de enigmas.

Assim, Neal se vê envolvido numa trama rocambolesca de horror e sangue. Ele começa a ajudar os detetives Germani (Giuliano Gemma) e Altiere (Carola Stagnaro), tendo ainda auxílio da sua secretária (e amante) Anne (Daria Nicolodi). A mensagem subliminar do enredo? Uma obra de ficção pode influenciar um maníaco a aflorar a sua psicose assassina. Será? Há estudos e muitas polêmicas contemporâneas, inclusive, que discutem a questão.

Por falar em enredo, há muitos tópicos para pensar a construção das estratégias dramatúrgicas deste filme. Dario Argento não é um diretor de atores, por isso, mesmo com um roteiro fabuloso, as atuações medianas/ruins do roteiro cheio de reviravoltas que mais atrapalham do que ajudam fazem da produção um filme de vigor plástico: Argento é ótimo na composição das suas imagens, diferente do desempenho das atrizes, mulheres belíssimas, mas horrendas no que tange aos aspectos da performance.

A associação com o diretor de fotografia Luciano Tovoli e o diretor de arte Giuseppe Bassan transformaram Tenebre numa obra de arte: o uso constante do branco colabora com a entrada do vermelho e do azul em cena, associados aos enquadramentos criativos e iluminação sublime. A trilha sonora reveste o filme de um tom esquizofrênico, cheia de sintetizadores, principalmente quando analisada em parceria com a montagem audaciosa de Franco Fraticelli.

Em suma, o que temos nesta obra de arte é o derramamento de violência típico do gênero e uma forte presença de agressão ao universo feminino, uma das maiores das polêmicas envolvendo o cineasta, gênio da narrativa que apresenta uma relação fetichista com as mulheres ao longo da sua carreira. Argento é um dos representantes das origens do giallo. Em sua trilogia dos animais, feixe que engloba O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas sobre Veludo Cinza, ele calcificou as características do giallo, para mais adiante, envolver-se com o sobrenatural em Suspiria e A Mansão do Inferno.

Influenciado pelo mestre Mario Bava, Tenebre é considerado um clássico do gênero, apesar dos deslizes do roteiro, cheia de pistas soltas e falhas. A produção tem em seus créditos Lamberto Bava, filho do mestre anteriormente citado, numa fase de depuração da sua carreira, o que culminaria em filmes de terror algum tempo depois, desta vez, sob a direção.

Na época Dario Argento recebeu ameaças de morte por parte de um fã obsessivo. Utilizou a produção do filme como um dos caminhos terapêuticos para dissolver a tensão diante das circunstâncias, por isso, não é de se estranhar quando a crítica da época apontava o personagem Peter Neal como alter-ego do cineasta. Há alguns anos, Dario Argento dirigiu o telefilme To Piace Hitchcock e Jennifer, elogiado capítulo da série Mestres do Horror.

Tenebre (Tenebrae) – Itália, 1982
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento
Elenco: Anthony Franciosa, Giuliano Gemma, Christian Borromeo, Mirella D’Angelo, Veronica Lario, Ania Pieroni, Eva Robin’s, John Steiner, John Saxon, Daria Nicolodi, Giuliano Gemma, Isabella Amadeo
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.