Crítica | Tentáculos (1977)

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Os filmes de animais assassinos enfileirados pelo jawsploitation não foram necessariamente ligados apenas aos tubarões. Piranhas e polvos geneticamente modificados também fizeram parte da receita que engrossou o caldo do subgênero. Tentáculos, lançado alguns anos após o sucesso de Tubarão, segue a mesma linha narrativa e, diferente das diversas imitações ordinárias que surgiram, consegue ser divertido e atraente. Ao longo de seus 90 minutos, o filme é consciente dos absurdos de seu argumento, sem a preocupação de se levar á sério demais.

Dirigida por Ovidio G. Assonitis (cineasta italiano que já havia brincado com o clássico O Exorcista em seu risível Espírito Maligno), a aventura sobre o polvo assassino foi escrita por Steven W. Carabatsos, roteirista que traz em seu enredo algumas similaridades com O Monstro do Mar Revolto, de 1955, filme de terror de baixo orçamento com um polvo feito de massinha. Para Tentáculos, ele instala a planta baixa dramática de Tubarão: um animal assassino, a administração pública que deseja esconder o problema, tendo em vista não causar impactos na seara do turismo, um herói que luta até o fim para resolver o problema e o terceiro ato com o embate entre humanos e monstro.

O local da vez é o balneário Ocean Beach. Estranhos acontecimentos tem assustado a população. Banhistas desaparecidos, embarcações atacadas misteriosamente e esqueletos que surgem como única sobre do ataque de algo ainda desconhecido. Instigado com os acontecimentos, o jornalista Ned Turner (John Huston) segue numa investigação apurada para saber como achar uma resolução para os problemas. Em sua pesquisa, Turner chega a possível conclusão: as obras para um duto realizadas pelo empresário Sr. Whitehead (Henry Fonda).

Diante da situação exposta, os problemas continuam. Mais pessoas aparecem mortas e tudo indica que a Trojan Construction, ao realizar o duto submarino, causou a mutação do polvo gigantesco que sai de sua caverna e devora humanos incautos, num ataque peculiar que suga a sua carne até deixar apenas os ossos para os investigadores resgatarem. Turner precisa conscientizar a todos, mas na era do capitalismo, mais vale arriscar, não é mesmo? Um torneio de verão acaba de maneira trágica, assim como banhistas insistentes e outros desavisados.

Com direção de fotografia de Roberto D’Etorre Piazzoli, Tentáculos oferta ao espectador algumas belas imagens marinhas, mas o polvo assassino, alvo da nossa curiosidade, aparece muito pouco, devidamente exposto e escondido, num jogo de imagens realizado pela edição de Angelo Curi. O mais peculiar dos elementos técnicos é a condução sonora, pois a trilha segue um estranho ruído promovido por um sintetizador cada vez que um ataque está próximo de acontecer. Sem a destreza de um tubarão para os ataques, resta ao polvo poucas incursões, com mortes que no geral ocorrem no molde off screen.

Apesar das suas limitações, Tentáculos foi um enorme sucesso de bilheteria. Em 1998, Treat Williams e Famke Janssen enfrentaram um monstro gigantesco de nome semelhante, mas a versão de Stephen Sommers não possui o mesmo mote do filme de 1979, com efeitos especiais gerados duas décadas depois, mas que são menos interessantes que os truques de edição da versão mais antiga. Vergonha é pouco.

Tentáculos — (Tentacoli) Itália, EUA, 1977.
Direção: Ovidio G. Assonitis
Roteiro: Steven W. Carabatsos, Tito Carpi, Jerome Max
Elenco: John Huston, Henry Fonda, Bo Hopkins, Shelley Winters, Delia Boccardo, Alan Boyd, Cesare Danova, Claude Akins
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.