Crítica | Terceira Pessoa

estrelas 2,5

Depois de ganhar a crítica, o mundo e o Oscar de Melhor Filme com Crash, em 2004, que contava com um elenco estelar e diferentes histórias que se cruzavam, o diretor canadense Paul Haggis surge com Terceira Pessoa, que tem a intenção, aparentemente, de seguir os mesmos moldes da obra que lhe rendeu o Oscar. Afinal, que fã de Crash não teria, no mínimo, seu interesse despertado por este novo projeto, que é, num primeiro momento, tão parecido com o filme de 2004?

É importante ressaltar que é, realmente, apenas em um primeiro contato que Crash e Terceira Pessoa se assemelham. Rapidamente, seja por intenção do diretor Paul Haggis ou não, entendemos que se tratam de obras bem diferentes, apesar da estrutura similar. A mais gritante das diferenças é que Crash tem um comentário social e um compromisso com a realidade dos quais Terceira Pessoa passa longe. São obras de gêneros bastante opostos.

Acompanhamos o desenrolar de histórias em Paris, Nova York e Roma. O elenco – se não melhor, no mínimo tão bom quanto o de Crash – se divide entre essas localidades, cada uma com sua premissa que parece retirada de uma novela das nove de Gilberto Braga ou Aguinaldo Silva. Os personagens de Liam Neeson e Olivia Wilde dividem um apartamento em Paris, onde discutem sua misteriosa, complicada e, na maioria das vezes, imatura relação. Mila Kunis dá vida a uma sofrida novaiorquina que, junto com sua advogada, interpretada por Maria Bello, tenta conseguir a custódia de seu filho, que vive com o pai, interpretado por James Franco. Mas é a história de Adrien Brody e Moran Atias que mais beira o absurdo e o novelesco: ele, um homem aparentemente rico e de boa vida, conhece uma cigana em um bar sujo de Roma, que está precisando de dinheiro para conseguir reencontrar a filha, que obviamente, se encontra em poder de um homem tatuado e muito malvado. Tudo o que se desenrola a partir da primeira fala entre os dois beira o caricato e não convence.

Mesmo com um elenco fantástico, a direção de Paul Haggis parece errar a mão durante praticamente toda a obra, deixando a maioria dos seus personagens incômodos e nada empáticos. O escritor Michael e Anna (Liam Neeson e Olivia Wilde) têm um relacionamento apático e irritante, no qual agem como dois adolescentes imaturos, que gostam de implicar um com o outro para conseguir atenção. A relação de Scott e Monika (Adrien Brody e Moran Atias) é inverossímil e passeia por clichês envolvendo golpes, dinheiro e aquele amor à primeira vista digno de um livro de Nicholas Sparks. A história que envolve Julia e Rick (Mila Kunis e James Franco), que é subutilizada propositalmente, é a que mais desperta a empatia do espectador – mesmo que seja através do “coitadismo”.

É então que, perto do fim do filme, Haggis nos revela uma engenhosa surpresa guardada em sua manga. A ideia faz sentido e explica muita coisa, porém, é mal executada e resulta em ainda mais exagero. São tantos traumas, de tantos lados, que o espectador acaba não conseguindo se deixar tocar por nenhum. Não dá para se emocionar com Terceira Pessoa, nem um pouquinho. Sendo assim, a “até que bem-vinda” e interessante reviravolta não é suficiente para declararmos que Terceira Pessoa vale a pena. Prefiro pensar que, talvez nas mãos de outro diretor, o filme funcionaria bem mais.

Em determinada cena, Michael (Liam Neeson) ouve a opinião do seu editor sobre seu trabalho. Ele diz que seu primeiro livro era sensacional, audacioso e corajoso; o segundo, nem tanto; o terceiro e o quarto, nada memoráveis; e que seu atual projeto não passa de meros “personagens aleatórios para desculpar sua própria vida”. Além de ser uma dica sobre a trama de Terceira Pessoa, a fala do editor não deixa de representar uma bela de uma ironia, já que quem assina o roteiro é o próprio diretor Paul Haggis.

Terceira Pessoa (Third Person, 2013)
Direção: Paul Haggis
Roteiro: Paul Haggis
Elenco: Liam Neeson, Olivia Wilde, Adrien Brody, Moran Atias, Mila Kunis, James Franco, Maria Bello, Kim Basinger.
Duração: 137 min.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira