Crítica | Terminator: The Burning Earth

estrelas 2,5

A hoje extinta NOW Comics conseguiu uma licença em 1988 para publicar histórias baseadas em O Exterminador do Futuro e assim o fez até o começo de 1990. O filme ainda não era uma franquia propriamente dita e James Cameron ainda estava no começo do desenvolvimento de O Julgamento Final, que seria lançado em 1991. O segundo roteirista do título, Ron Fortier, recebeu a notícia da expiração da licença até com um certo alívio, já que, em suas próprias palavras, ele não gostava do trabalho do artista que fazia par com ele.

No entanto, no mesmo ano, a NOW voltou a Fortier informando que, na verdade, eles ainda tinham o direito de publicar cinco edições no universo do Exterminador do Futuro e encarregaram o roteirista de uma história que, de certa forma, “fechasse” a narrativa. A promessa que fizeram era que Fortier trabalharia com outro artista, um desconhecido jovem de 19 anos chamado Alexander Ross, estreante nos quadrinhos. E, foi assim que, então, ainda em tenra idade, um mito da Nona Arte surgiu: Alex Ross. Hoje, mais do que sedimentado no mercado e raramente trabalhando com arte interna, apenas com capas que cria em profusão, Ross foi o responsável pela arte de inesquecíveis obras como Marvels, O Reino do Amanhã e Justiça.

Em 1990, Ross agarrou com todas as forças a oportunidade de trabalhar em quadrinhos, desejo seu desde bem mais jovem, mesmo não tendo nenhuma ligação em particular com o filme de James Cameron. Ele tinha confiança que poderia converter seus trabalhos artísticos em quadrinhos, pintando páginas e mais páginas de roteiro com grande facilidade. Mas, como ele mesmo confessa no posfácio de The Burning Earth, a realidade foi muito diferente do que sua arrogância – típica da idade – lhe permitia enxergar. Ele bem que tentou imprimir seu estilo detalhista e fotorrealista em um arte pintada com vários quadros por página, mas a velocidade necessária era muito maior do que ele conseguiu se auto-impor. Com isso, vê-se muito claramente que a minissérie, de apenas cinco números, oscila bastante em qualidade artística, ainda que o resultado final seja muito satisfatório, com alguns momentos que deixam entrever todo o potencial então não realizado desse grande artista.

mosaico burning earth

As capas originais de The Burning Earth #1 a 5 por Alex Ross e do encadernado de 2006, com o exterminador em chamas, pelo mesmo artista.

Há, por exemplo, no primeiro número da minissérie, um detalhamento muito grande de cada elemento que compõe os quadros, com rostos bem definidos e o sensacional uso de luz e cor que seria marca registrada do artista. Mas não demora e Ross inverte a lógica de seu trabalho, focando em fundos escurecidos, sem muito detalhamento do ambiente, de maneira que possa economizar tempo focando mais no primeiro plano. Por vezes ele volta à forma total, mas por pouco tempo, só quando o roteiro realmente assim exige. De toda forma, The Burning Earth parece ter sido um ótimo aprendizado para Ross, que, com isso, conseguiu ao longo dos três anos seguintes não só estabelecer-se no mercado (sua primeira arte pintada de super-heróis foi a capa de Superman: Doomsday & Beyond, de 1993, com Marvels sendo seu primeiro trabalho completo de interior, logo em 1994) como solidificar sua posição de artista quase que universalmente adorado pelos fãs de quadrinhos.

Mas, voltando a The Burning Earth, o grande problema da minissérie, na verdade, não é a arte de Ross. Ela funciona em grande parte e é perfeitamente possível ver, ali, um adolescente tentando fazer seu melhor.  A questão que mais incomoda, infelizmente, é o roteiro de Ron Fortier, que peca muito ao não só inventar um futuro que não parece ser aquele futuro estabelecido pelo filme de James Cameron, como, também, ao simplificar demais a história. É bem verdade que Fortier não tinha muito com que trabalhar, pois John Connor, o líder a resistência, era muito mais um mito em O Exterminador do Futuro do que uma pessoa real. Mas Fortier escolheu justamente focar nesse personagem, apelidando-o de Bear (Urso) e localizando a ação 40 anos após o início da luta contra as máquinas. De certa forma, esse futuro nega o filme em que se baseia, pois não há menção a viagem no tempo ou mesmo a Kyle Reese. E Connor/Bear, muito mais do que um estrategista militar que ensinou os humanos a lutar contra as máquinas, é um soldado com um pouco mais de inteligência que os demais. Há um evidente descompasso entre o que aprendemos no filme original e vemos na minissérie.

De toda forma, esquecendo por um momento a mitologia, a história tenta se sustentar em torna de uma simples premissa: John Connor e um batalhão de guerreiros decidem atacar Skynet em seu quartel general, localizado no interior da Thunder Mountain, na antiga base do N.O.R.A.D. Dividindo seus guerreiros em dois grupos, ele lidera um deles até o topo da montanha para invadir a base enquanto outro grupo ataca a fonte da energia elétrica que Skynet precisa para “sobreviver”. De outro lado, a Skynet parte para a “ignorância” e resolve iniciar uma campanha de detonação de bombas nucleares para exterminar os humanos restantes.

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Um pouco dos primórdios da arte de Alex Ross: (1) ataque de Hunter Killers e tanques; (2) John Connor envelhecido e de barba; (3) Aurora, a exterminadora modelo T-808 e (4) o ataque à Thunder Mountain.

Reparem no quanto é incongruente a narrativa. Quarenta anos já se passaram desde o início da guerra e só nesse momento, sem nenhuma razão específica para o “atraso”, Connor decide atacar o quartel general da Skynet. E, da mesma forma, só depois desse tempo todo é que a Skynet decide fazer uso de armas nucelares para acabar com os últimos focos da humanidade. Esses aspectos, por si só, já exigem um grau tão grande de suspensão da descrença que torna a história boba e frágil em suas bases. Se somarmos a isso o quanto a narrativa fere a mitologia estabelecida à época, a coisa piora ainda mais.

Mesmo os modelos diferentes de exterminadores, um mais primitivo e outro – feminino – mais moderno e letal, o T-808, perdem um pouco de sua presença ameaçadora e função narrativa. Eles estão lá muito mais para criar um ambiente reconhecível aos leitores do que por qualquer outra razão. Especialmente em relação ao T-808, batizado de Aurora e que ganha grande destaque em determinado ponto da história (quem sabe não foi essa a inspiração para o modelo T-X de O Exterminador do Futuro 3?), parece que Fortier mudou de ideia sobre usá-lo e meio que “apaga” seus vestígios de um ponto em diante, simplificando ainda mais a história.

Terminator: The Burning Earth vale muito mais pelo valor histórico por ser a primeira obra em quadrinhos publicada de Alex Ross do que por qualquer outra coisa. A arte, apesar de escurecida por razões práticas, cumpre sua função narrativa mesmo considerando os diversos altos e baixos, mas o roteiro acaba falhando e ficando muito aquém do que poderia ter sido.

Terminator: The Burning Earth (EUA, 1990)
Contendo: Terminator: The Burning Earth #1 a 5
Roteiro: Ron Fortier
Arte e capas: Alex Ross
Letras: Patrick Williams, Joseph Allen
Editora (nos EUA): NOW Comics (depois relançado pela Dark Horse Comics)
Lançamento (nos EUA): março a julho de 1990
Editora (no Brasil): não publicado no Brasil
Páginas: 133 (encadernado americano, com artes extras e prefácios e posfácios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.