Crítica | Terra 2 – Vol. 1: A Reunião (Novos 52)

estrelas 3

Devo deixar algo bem claro logo de cara: adoro histórias em quadrinhos de super-heróis que se passam em universos alternativos ao “padrão”. Adorava o Universo Ultimate da Marvel (sim, o verbo está no passado mesmo), li com enorme prazer Batman: Terra Um (e Superman: Terra Um me desapontou) e costumo ficar transfixado por revistas do tipo O que Aconteceria Se… e Elseworlds. Apesar de muitos fãs não aguentarem a enorme quantidade de universos no multiverso editorial, normalmente nado contra a correnteza nesse quesito.

Dito isso, claro, não poderia resistir à Terra 2, publicação mensal da DC Comics da segunda fase do projeto Novos 52. O volume um, intitulado apenas The Gathering (A Reunião) e que reúne os # 1 a 6 da série, faz jus ao seu nome, para o bem ou para o mal. O trabalho de James Robinson no roteiro é quase clichê: reimaginar os heróis que conhecemos e criar um evento para reuni-los.

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Esses três carinhas aí não sobrevivem nem ao primeiro número inteiro…

Mas Robinson vai um pouquinho além e cria dois eventos na verdade. O primeiro deles – e que abre a edição – lida com a Santíssima Trindade da DC, Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Eles são substancialmente os mesmos personagens que conhecemos, apenas com uniformes levemente alterados (o do Superman é especialmente interessante, pois acaba com a “armadura” que ele ganhou nos Novos 52, mas sua cueca continua por dentro da calça). Eles – e mais Robin (nesse mundo, a filha de Batman) e Supergirl – juntamente com um exército conjunto do mundo todo, enfrentam, há anos, a invasão de Apolokips, comandada por Steppenwolf (Darkseid não é mencionado, mas fica implícita sua existência). Os três lutam sua derradeira batalha, pois Batman (claro, sempre ele!) tem um arriscadíssimo plano para se livrar de uma vez por todas da ameaça alienígena. Não demora e tudo dá certo, mas com um detalhe: os três grandes heróis morrem de maneira bem estúpida (será?) e Robin e Supergirl desparecem, presumivelmente sendo teletransportadas para Apokolips.

Em um movimentado primeiro número (não volume), tudo isso acontece e mais! No final, somos apresentados a Alan Scott, o Lanterna Verde original, nessa realidade um apresentador de televisão que acaba de gravar um programa de aniversário da morte dos heróis da Terra e da vitória sobre Apokolips, que deixou nosso mundo semi-destruído, com sequelas visíveis. E também conhecemos Jay Garrick (o Flash original ou, como ficou conhecido no Brasil, Joel Ciclone – não dá para não rir…) um jovem que é largado por sua namorada e que dá de cara com ninguém menos do que Hermes (o deus grego) que avisa sobre um novo e mais terrível perigo ameaçando a Terra.

Acontece que todo esse promissor primeiro número dá lugar a algo terrivelmente previsível: histórias de origem. Não demora e Hermes, antes de morrer, passa seus poderes de velocidade para Garrick sem nem o charme da escolha por alguém que mereça como acontece com o Lanterna Verde mais famoso do universo DC normal, Hal Jordan. Aqui, Hermes cai em qualquer lugar e entrega seus poderes para o primeiro que passa e ainda somos obrigados a engolir que Garrick é a pessoa “certa”. Mas ok, vá lá.

No meio disso tudo, o herói mais idiota de toda a DC (ok, talvez esteja exagerando, mas que ele está no Botton 10, está…), Mr. Terrific, se materializa nesse universo da Terra 2. Ah, estamos falando do Mister Terrific do Universo DC normal, não o da Terra 2. E, no lugar onde ele chega, ele é recepcionado por Terry Sloan, um executivo provavelmente vilão – suas razões não ficam inteiramente claras – que é, no universo DC normal, a identidade original do primeiro Mister Terrific (que confusão!). Em atitude, Sloan parece ser o Lex Luthor desse universo que, claro, faz uma espécie de homenagem à Era de Ouro da DC, com personagens clássicos sendo, digamos, “revitalizados”.

O próximo na fila a ganhar destaque é Alan Scott que, em viagem de trem pela China e prestes a pedir Samuel em casamento, com direito a anel e tudo mais, sofre um terrível e fatal acidente em que só ele sobrevive. Uma entidade que parece ser a encarnação da própria Terra o salvou da morte certa, por considerar que “ele é a pessoa escolhida”. Escolhida para que? Claro que você já adivinhou: para se tornar o Lanterna Verde, o campeão da Terra que consegue canalizar seu poder por um anel, símbolo escolhido por Scott, por ser a própria aliança que ele teria entregue a Sam.

Convenhamos que, aqui, Robinson ousou bastante. E olha que nem estou falando do fato de Scott, nessa versão, ser gay, o que funcionou como um gigantesco chamariz para a publicação e que foi mencionado em jornais e em fóruns pela internet, com comentários de todos os lados. Particularmente, essa escolha da editora não faz muita diferença para o herói. Pouco importa, aqui, sua preferência sexual, pois, para mim, ela não foi mais do que mais uma jogada de marketing. O que importa – e é por isso que chamo a direção de Robinson de ousada – é a transformação do Lanterna Verde, herói cósmico por natureza, em um herói ligado de forma indelével ao planeta Terra. Ele não é um defensor do setor “sei-lá-o-quê” do universo, onde a Terra se encontra, mas sim um herói criado pela e para a Terra, tanto que, em determinado momento desse volume, quando ele voa para longe do planeta, ele perde sua força completamente. É uma virada substancial no conceito do que é o Lanterna Verde.

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Da esquerda para a direita: Mulher Gavião, Átomo, Lanterna Verde e Flash.

Além disso, ele se torna automaticamente uma espécie de Superman, pois não só é o herói mais poderoso, como um líder nato. É o que testemunhamos quando a força da morte, que nasce automaticamente em oposição ao nascimento do Lanterna Verde e é encarnado pela “versão Terra 2” de Solomon Grundy, passa a destruir tudo. O embate das duas forças opostas em Washington D.C. (pelo menos não foi em Nova Iorque…) juntamente com o novo Flash, a Mulher-Gavião (sim, ela também existe nesse universo) e uma versão militarizada do Átomo, coloca o Lanterna na liderança de uma pseudo-Liga ou, talvez, Sociedade da Justiça, grupo que é em tese formado, somente para ser desmontado pelo próprio Lanterna ao final.

No final das contas, Terra 2, volume 1 é muito melhor se olharmos suas partes. O evento cataclísmico do começo, que mata (???) os heróis originais e as duas origens são interessantes, ainda que não terrivelmente originais. O surgimento de Grundy é um pouco exagerado, pois ele gera uma destruição global absurda, mas até que funciona como elemento de união dos mais diversos recém-criados heróis. Mas o conjunto é, se visto em seu todo, mais do mesmo, só que com uniformes diferentes. Não fosse o destaque a Alan Scott e o foco em sua origem completamente diferente do que poderíamos esperar, estaríamos diante de uma obra descartável. Do jeito que ficou, ela é minimamente interessante, suficiente para gerar curiosidade sobre o próximo volume.

Em termos de arte, Nicola Scott e Eduardo Pansica seguem o estilo Jim Lee de desenhar. É tudo muito bonito, muito bem desenhado, mas, em última análise, se é para ver a arte de Jim Lee, prefiro que o próprio Lee desenhe. Talvez tenha sido uma tentativa de atrair leitores, sem uma arte muito diferente para não assustar aqueles que certamente acharam um ultraje a mudança nas origens dos seus heróis queridos e a mudança da orientação sexual de um deles (e, se você é um desses, por favor, procure ajuda, vai…).

Terra 2: A Reunião (Earth 2: The Gathering, EUA)
contendo Terra 2 #1 a 6, de maio a novembro de 2012
Roteiro: James Robinson
Arte: Nicola Scott, Eduardo Pansica
Editora (nos EUA): DC Comics
Editora (no Brasil): Panini
Páginas: 151

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.