Crítica | Terra de Minas (2015)

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estrelas 4,5

Após a rendição da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, alguns países atribuíram missões perigosas aos prisioneiros nazistas capturados. Um dos casos que agora vem à luz é o a Dinamarca, em 1945, que engajou dois mil militares — boa parte deles em torno dos 16 anos de idade, em campo já há meses, graças a ordens cada vez mais insanas de Hitler e seu alto escalão no semestre final da Guerra — em uma missão para “limpar a costa oeste da Dinamarca” das cerca de dois milhões de minas colocadas ali pelos nazistas.

O roteiro do filme é bastante criterioso ao apresentar os personagens. A introdução do Sargento Carl Rasmussen (Roland Møller, em excelente atuação), por exemplo, é uma das mais marcantes e infelizmente uma linha de “primeira impressão” que irá impactar negativamente no terço final da fita, dada a mudança de comportamento do militar. Nesse ponto, a relação do público se dividirá. Penso que todos sentirão o peso da decisão abrupta do roteirista e também diretor Martin Zandvliet, mas diante de todo o restante, haverá diferenças de peso nesse aspecto e claro, na avaliação final do longa.

Particularmente, tenho uma relação de pura imersão em filmes com a temática de desarmar bombas. Um dos momentos mais tensos do cinema da década passada, para mim, aconteceu na sessão de Guerra ao Terror (2008) e aqui em Terra de Minas senti quase a mesma coisa. A diferença é que neste filme germano-dinamarquês há uma dose imensa de poesia e lirismo, de relações das mais diversas categorias (moral e ideologicamente complexas, o que torna o filme bem difícil de digerir, se levarmos em consideração a troca de papéis entre “oprimidos” e “opressores”) e fuga de certos caminhos ao abordar bandidos e mocinhos, algo que a obra de Kathryn Bigelow não propunha fazer.

A fotógrafa Camilla Hjelm cria uma interessante dinâmica de observação e acompanhamento dos personagens, mudando a nossa perspectiva dos momentos de desarmamento de bombas para planos mais abertos e fotografados com mais luz ao mostrar a interação ente os jovens e os delicados momentos em que o ambiente natural, apesar de ameaçador — e apesar de a morte fazer parte da vida desses garotos o tempo inteiro — oferece algum nível de acolhimento. Curioso é que quase na mesma medida, vemos contrastes de comportamento na interação entre os soldados e também deles com o ambiente ao redor. Para esses momentos cruéis existem alguns detalhes fotográficos presentes, normalmente identificados por um leve filtro, sombra ou maior contraste de cor nas cenas.

Como era de se esperar, a direção precisou orquestrar com muito cuidado os momentos de silêncio e ação para não tornar o filme uma “crueldade em belo espaço”. A montagem tem uma fluidez constante e exceto nos cortes entre os blocos de “partida para a ação” que temos no começo e em uma parte das instruções, lições ou cenas de crueldade contra os jovens alemães, cria uma excelente figuração para a obra, abrindo espaço visual coerente — e bem dirigido — para duas das partes técnicas mais necessárias em obras desse porte: a edição e a mixagem de som.

Filmes como o já citado Guerra o Terror ou dramas de guerra mais profundos a lancinantes como O Filho de Saul (2015) têm em comum a criação da atmosfera história e geográfica também através do som. Detalhes de vozes em meio a barulhos da natureza, sons de objetos, passos, explosões, tudo isso em uma cadência capaz de nos colocar sob forte tensão, esperando uma explosão a qualquer momento ou utilizando de artifícios sonoros adicionais para sustentar algo que a imagem às vezes oculta ou mostra parcialmente. O jogo não é fácil e é sempre gratificante ver quando um filme apresenta esse trabalho em grande estilo.

Terra de Minas é uma obra tensa e bela. O roteiro tem tropeços na evolução ou certo exagero na representação de alguns personagens, posturas que acabam sim influenciando a narrativa — como disse antes, o peso que isso terá para cada espectador, deve variar –, mas considerando o denso fator humano em questão e a discussão não apenas moral, mas histórica e ideológica sobre “crimes de guerra”, sustenta com facilidade o outro lado do enredo, escancarando mais uma vez o horror da guerra e a pergunta do por quê a chamada civilização ainda segue com isso.

Terra de Minas (Under sandet) — Dinamarca, Alemanha, 2015
Direção: Martin Zandvliet
Roteiro: Martin Zandvliet
Elenco: Roland Møller, Louis Hofmann, Joel Basman, Mikkel Boe Følsgaard, Laura Bro, Zoe Zandvliet, Mads Riisom, Oskar Bökelmann, Emil Belton, Oskar Belton, Leon Seidel, Karl Alexander Seidel, Maximilian Beck, August Carter, Tim Bülow
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.