Crítica | Terra em Transe

estrelas 4,5

Todos somos simpáticos, desde que ninguém nos ameace

Jornalista Paulo Martins, em Terra em Transe.

A política é um negócio sujo em Eldorado. O país fictício tem governantes corruptos no poder, partidários e aliados assassinos, fracos e extremistas — à direita e à esquerda — o que não facilita em nada a vida do povo, que não sabe para qual lado seguir; é facilmente enganado por palavras de consolo e de “estou anotando tudo, tudinho!” e festeja a chegada de um líder populista como se esta fosse a resposta para todos os problemas imediatos pelos quais passam: a falta de terra, a falta de emprego, a falta de comida.

A trama de Terra em Transe é uma alegoria política, um texto que faz uso de elementos históricos muito próprios do Brasil e da América Latina como um todo, especialmente porque não se nega a mostrar as diferenças sociais, a larga oferta de posturas político-ideológicas, o embate quase infantil entre povo e poder, o uso da força militar ou do assassinato político. Através de todos esses fatos observados no Terceiro Mundo, Glauber Rocha nos mostra a crônica de uma ascensão ao poder e sua subsequente derrocada.

Paulo Martins, o jornalista que assume a narração e o tom de quase letargia impresso ao roteiro, é o personagem de maior destaque do longa. É através dele que vemos os lados opostos da moeda, o conservadorismo de Diaz, o populismo ineficiente de Vieira. Com o sonho de ser poeta e falar sobre temas políticos, Martins é, na verdade, um observador desgraçado dos fatos que ele julgava ter algum controle sobre. Seu ego e talvez fé extrema nas mudanças sociais o fizeram apoiar e trair, difamar e promover campanhas políticas e representantes que um dia desprezara.

Fazendo uso de uma estética experimental muito particular, Glauber Rocha intensifica a sensação de transe no próprio público, que observa ente tiros de metralhadoras, música e Villa Lobos, valsas famosas, óperas e jazz a entrega de simpatizantes governistas à farra e aos comícios, tudo filmado de uma perspectiva que faz todos os atos em cena parecerem grandes novidades, quando, na verdade, são a repetição de algo ou a revelação de uma situação que ocorria às escondidas a bastante tempo. Toda a esfera pública é posta no jogo, de quem é a que fabrica a notícia; do empresário ao grevista; do sindicalista aos arquétipos femininos vistos nessa dança pseudo-democrática: a santa revolucionária e a puta alienada.

E aqui, o povo não recebe a visão social e manipulada por promessas divinas como vimos em Deus e o Diabo na Terra do Sol. O contexto todo é ampliado para situações que beiram o constrangimento, porque mostram a facilidade de qualquer um obter apoio popular, independente do discurso que faça, e das situações que se forjem nos bastidores dos Palácios do Governo. A preocupação do povo com o estômago fala mais alto; o apreço a uma terra familiar de muitas décadas ganha mais importância do que o pensamento e a ação política. O povo em Terra em Transe não é apenas o faminto romeiro de Deus e o Diabo. Ele é o ajudante direto — mesmo sem saber — da roda social que o massacra e o faz protestar em vão ou se deixar levar facilmente por qualquer promessa.

Mas o longa exige uma atenção enorme do espectador. Como a narrativa é quase toda contada em flashback e esta em ordem alinear, não é difícil nos perdermos um pouco no início, confundirmos nomes ou a localização das personagens, seja em Alecrim, seja em Eldorado. Aos poucos, porém, entendemos a intenção do diretor e o filme é compreendido sem nenhum problema.

Contando com um monstruoso elenco (que infelizmente é prejudicado pela dublagem do filme), Terra em Transe consegue passar uma mensagem política forte e uma visão social que pode incomodar bastante gente. Lançado em meio à ditadura militar, a obra chegou a ser proibida e sofreu cortes e solicitações de mudança pela censura, além de ter sido chamada de fascista por Fernando Gabeira e outros intelectuais da época. Ao espectador crítico, porém, fica a sensação de ter ouvido um feroz grito de muitas vozes inquietas sobre uma situação viciante e sem data alguma para terminar, uma conclusão a que o próprio cineasta chegara em Berravento, mas no patamar essencialmente social. A questão de Terra em Transe ultrapassa a comunidade e investiga as regras do jogo que lhe dá origem.

Terra em Transe (Brasil, 1967)
Direção: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Elenco: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy, Glauce Rocha, Paulo Gracindo, Hugo Carvana, Danuza Leão, Joffre Soares, Modesto De Souza, Mário Lago, Flávio Migliaccio, Telma Reston, José Marinho, Francisco Milani, Paulo César Peréio
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.