Crítica | Terra Selvagem

“Eu gostaria de te dizer que isso diminui, mas não diminui.”

Em muitos aspectos, o discurso transmitido em Terra Selvagem é dolorosamente poderoso. O drama, do diretor e também roteirista Taylor Sheridan, é incisivo na apresentação de uma mensagem crua, realista, e por mais difícil que pareça, até “esperançosa”. Dependendo da sua familiaridade com a situação na qual Cory Lambert (Jeremy Renner) e Martin Hanson (Gil Birmingham) enfrentam dia após dia, depois de perderem suas filhas, Terra Selvagem poderá ser uma espécie de catarse, ainda sem prover a libertação da dor que muitos anseiam, e que provavelmente, como apontado pelo protagonista da obra, nunca virá. O mistério dá margem ao thriller que sustenta o longa em termos narrativos. Por tal, invoca uma mensagem de denúncia social contra os inúmeros casos de violência contra a mulher. Natalie Hanson (Kelsey Chow) é mais uma guerreira morta. A começar, o próprio começo de Terra Selvagem já nos prontifica a tratar Natalie como uma lutadora, ao correr milhas e milhas em busca de sua própria sobrevivência. Uma corrida que mulheres, infelizmente, têm de enfrentar cotidianamente dentro de uma sociedade deveras machista e doentia – uma violência perpetrada no longa na forma dos predadores a serem caçados por Cory.

O entendimento do que aconteceu com a garota é o que movimentará a trama; o que levará Sheridan a estudar, especialmente, a perda sofrida por figuras paternas. A imensurável lacuna que o protagonista carrega em seu peito é abordada com extrema eficácia por Jeremy Renner. O som do silêncio é um companheiro de profissão e, depois da perda, um companheiro para a vida. Quando o personagem decide finalmente abrir a boca e falar, expor todas as suas angústias, a performance de Renner revela um homem como tantos outros, danificado eternamente. Um homem no qual Martin Hanson – Gil Birmingham em ótima participação – terá de se identificar para tolerar os dias que virão, e quem sabe, reacender uma luz para sua própria vida. Todas as palavras que saem da boca de Cory denotam uma verdade arrasadora, uma honestidade fria, cheia de arrependimentos. O personagem de Renner, contudo, também é cheio de compaixão para transmitir, como é exemplificado na amizade dele com Martin, que emerge assim que o pai de Natalie abre a porta de sua casa, em um choro a ser consolado – e a ser vingado, dentro de uma terra selvagem, na existência de poucas leis humanas.

Tendo o enfoque nas mensagens e no conteúdo de Terra Selvagem, Sheridan desvia um pouco a atenção do espectador da superfície narrativa da obra. Nela, Jane Banner (Elizabeth Olsen) é sua principal veia condutora, contudo, bastante deslocada do entorno, o que realmente importa. A busca pela verdade acaba não sendo tão interessante quanto a fornecida por outras obras do gênero. A resposta para as perguntas, que indiscutivelmente muitos pais e mães ainda não têm, acaba decepcionando, sem ser abordada da maneira mais instigante. Ao retratar o que acontecera com Natalie no dia de sua morte, Sheridan adentra em um íntimo desnecessário, como se nós estivéssemos invadindo uma cena a qual não deveríamos presenciar como meros observadores. O sentimento de impotência que surge não é exatamente propício para um longa no qual os personagens já sofreram martírio “suficiente”, e a mensagem já foi transmitida perfeitamente pelas interpretações. A cena é boa, desconfortante, mas é uma informação que, além de problemática, foi abruptamente jogada na tela, sem preocupação do roteiro em mostrar caminhos a ela realmente engajantes e responsáveis.

Todavia, embora Sheridan não se manifeste em entrar afundo no sentimento materno à perda de filhas, o diretor acerta nas aparições de Annie Hanson (Althea Sam), mãe de Natalie, que exprime identificações opostas as de seu marido de como o vazio é lidado. Concluindo, o “olho por olho, dente por dente” é, enfim, realçado na conclusão. No mais, Terra Selvagem caracteriza-se por ser uma desafiadora e inquietante visita de Taylor Sheridan à dor da perda. A atmosférica trilha sonora e a branca paisagem, tão bela quanto desconvidativa, do cenário nevado contribuem ainda mais para tornar o longa um acerto do cineasta, em caminho para se provar tão bom diretor quanto é roteirista, vide Sicario: Terra de Ninguém e A Qualquer Custo. Sem ser um mistério criminal de primeira classe, a obra não consegue tornar as respostas dadas em seu término verdadeiramente instintivas ao público. Seu alicerce real, que a permite ser tão impactante, está na história de sobrevivência que conta; na capacidade de se manter em pé mesmo sem a existência de mais nenhum chão para se pisar. Lobos não são tão assustadores quanto, mas por pior que pareça, é possível se enfrentar ambos.

Terra Selvagem (Wind River) — EUA, 2017
Direção:
Taylor Sheridan
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Gil Birmingham, Jon Bernthal, Julia Jones, Kelsey Chow, Graham Greene, Martin Sensmeier, Tyler Laracca, Gerald Tokala Clifford, James Jordan, Eric Lange, Ian Bohen, Hugh Dillon, Matthew Del Negro, Teo Briones, Althea Sam
Duração: 111 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.