Crítica | Terra Sem Pão

É muito difícil escrever sobre Terra Sem Pão sem algum tipo de contextualização. Qualquer pessoa que simplesmente assistir a esse “documentário” de Luis Buñuel, sem uma preparação, vai torcer o nariz ou tirar conclusões erradas, mesmo considerando sua curtíssima duração, meros 27 minutos. Essa desorientação foi o que senti quando assisti ao filme pela primeira vez há anos, mas tudo mudou mais recentemente, quando estava me preparando para o Especial Luis Buñuel.

No entanto, mesmo com a contextualização, definir e criticar Terra Sem Pão não é tarefa fácil.

A primeira coisa que se deve ter em mente é que seu diretor e roteirista é Luis Buñuel, o cineasta que trouxe de verdade o surrealismo para o cinema com Um Cão Andaluz e chocou a direita e a Igreja Católica com A Idade do Ouro, duas pequenas pérolas que desafiam descrições. Terra Sem Pão foi o terceiro filme de Buñuel e seu único “documentário”, ou seja, toda sua carga surrealista foi transportada para seu primeiro trabalho em sua terra natal, a Espanha.

Os leitores mais atentos repararão que, toda vez usei a palavra “documentário”, nos parágrafos anteriores, usei aspas. É que Terra Sem Pão, ou Las Hurdes no original, não é exatamente um documentário. Muitos o classificam como o primeiro mockumentary, que significa uma espécie de “documentário falso”, exatamente o que é, por exemplo, o excepcional This is Spinal Tap, de Rob Reiner. No entanto, Terra Sem Pão não é exatamente falso ao nos apresentar, muito brevemente, as agruras dos habitantes da região batizada de Las Hurdes, no extremo norte da província de Cáceres, na Espanha, uma vez que foi baseado no estudo etnográfico de Maurice Legendre intitulado Las Jurdes: étude de géographie humaine, de 1927.

A pobreza extrema da região é fato quase uma lenda, havendo relatos dessas condições terríveis desde que todo o local perdeu sua população com o fim da invasão árabe na Espanha, ainda no século VIII. Mas Buñuel, apesar de ele próprio ser de família rica, sabia que Las Hurdes ainda carecida de cuidado pelo governo central e acabou utilizando o filme para criticar a herança da ditadura de Rivera, que ainda se podia sentir em 1933, ano do documentário.

E ele conseguiu. Com louvores até, ao menos nesse tocante.

O “documentário surrealista” – por falta de expressão que melhor classifique Terra Sem Pão – foi bancado por Ramón Acin Aquilué, um anarquista espanhol que viu e se impressionou com o trabalho de Buñuel na França e que, em um bar em Zaragoza, disse a Buñuel que, se ganhasse na loteria, bancaria um filme do diretor. E ele ganhou. E cumpriu a promessa.

A obra conta com uma narrativa fria em francês (inserida posteriormente, pois o filme, originalmente, não a continha e Buñuel fazia a narração ao vivo durante as projeções), que não toma partido em relação ao que está sendo mostrado. E o que é mostrado é absolutamente terrível. Miséria absoluta, mortes de crianças, homens e mulheres deformados e com problemas mentais em virtude de relações incestuosas e um sem-número de doenças e situações que fariam qualquer um desligar o vídeo em questão de minutos.

No entanto, conta a lenda – e a lenda, nesse caso, é verdadeira – que, apesar de Buñuel ter filmado efetivamente na região e com seus habitantes, as situações vividas foram tratadas artificialmente, ou seja, todos estão, de uma forma ou de outra, atuando para o cineasta. A miséria é verdadeira, as imagens são verdadeiras, mas há toda uma encenação, incluindo as mortes verdadeiras de dois animais pela equipe de filmagem: um burro foi lambuzado em mel para que abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. Sim, isso mesmo que vocês leram e as imagens estão todas lá nesse “documentário”.

No final das contas, a transposição do trabalho surrealista de Buñuel da ficção para o documentário (ou algo que se assemelhe a um) não funciona muito bem. Se conseguirmos ultrapassar a morbidez de várias das imagens, talvez consigamos nos prender à narrativa, mas, se isso ocorrer – como foi no meu caso – será pela absoluta peculiaridade do que é Terra Sem Pão. E essas peculiaridades são ainda mais ressaltadas e esquisitas, ao verificarmos os aspectos comentados acima, que trazem estofo, mas não necessariamente justificam as bizarrices que testemunhamos.

Banido da Espanha franquista, Terra Sem Pão também não foi tão bem recebido no resto do mundo, sendo uma estranha obra que consegue se destacar por sua estranheza na já pouco usual – só para não repetir “estranha” – filmografia do mestre aragonês. Merece ser vista pelos cinéfilos de plantão e por aqueles que tiverem sua curiosidade atiçada pelo que escrevi.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.