Crítica | Terror em Amityville

O segundo filme da franquia Amityville é, na verdade, um prelúdio que conta a história que vemos rapidamente no prólogo de Horror em Amityville: o assassinato de uma família inteira na sinistra casa, por um de seus membros. Ou, pelo menos, a fita tenta ser um prelúdio, já que os eventos que transcorrem ao longo da projeção não se encaixam nem de longe – e mesmo com muita boa vontade – com o que é mostrado na primeira produção. Mas esse não é o problema de Terror em Amityville.

Seu problema maior e mais angustiante é deixar entrever que poderia haver uma razoavelmente boa história de possessão demoníaca por trás da mixórdia que efetivamente chegou nas telonas nessa co-produção americana e mexicana do italiano Dino de Laurentiis, capitaneada pelo também italiano – e medíocre – diretor Damiano Damiani e escrita pelo americano Tommy Lee Wallace que, oito anos depois, dirigiria e co-roteirizaria It: Uma Obra Prima do Medo. No lugar de se concentrar em uma história com potencial, o filme nos conta duas que não só são anti-climáticas como tentam satisfazer aos que esperavam mais um filme de casa mal-assombrada e também aos que queriam ver um filme de exorcismo que descaradamente bebesse do clássico de 1973.

Assim como no filme anterior (ou posterior, depende do ponto-de-vista), este começa com uma família mudando-se para a fatídica casa em 112 Ocean Avenue, Long Island, Nova York. As vítimas da vez são os Montelli: o pai Anthony (Burt Young vivendo uma versão mais sombria de seu Paulie, da franquia Rocky), a mãe Dolores (Rutanya Alda), o filho mais velho Sonny (Jack Magner), a filha mais velha Patricia (Diane Franklin) e os dois filhos menores Jan e Mark (vividos pelos irmãos na vida real Erika e Brent Katz). O que parece ser um evento feliz nos primeiros dois ou três minutos de projeção, degringola rapidamente para um pesadelo e não necessariamente em razão de algum elemento sobrenatural. A família, longe de ser bela e sorridente como parecia, na verdade é cheia de problemas sérios, com um marido e pai abusivo, uma relação incestuosa entre os irmãos adolescentes e um certo sadismo da menina mais jovem em relação ao irmão menor. Chega ao ponto de ser difícil relacionar-se com quem quer que seja ali dentro e esse é, de certa forma, o grande aspecto positivo do filme.

Afinal, nesse seio familiar corroído, havia uma história e é essa história que o roteiro parece prometer contar, mas que logo prefere partir para os sustos fáceis, com portas e janelas batendo, vozes sombrias falando com seus habitantes por meio de um Walkman que, aliás, na época em que se passa a história, não havia sido ainda lançado, câmeras no estilo Evil Dead, lufadas de ar misteriosas e um porão com uma porta secreta. O forte potencial que existia no esboço narrativo que os 15 minutos iniciais delineiam é esquecido e substituído de imediato por efeitos especiais baratos e um clímax que, surpreendentemente, chega rápido demais, facilmente demais, deixando o espectador na dúvida se o filme já acabou ou se ainda há algo mais a contar.

E há. Pelo menos em tese. Faltando ainda 40 minutos para o final, Wallace praticamente começa uma nova história, desta vez a do julgamento e exorcismo do jovem Sonny, possuído pela entidade residente no local. O protagonismo do filme, então, muda para o padre Adamsky (James Olson) em sua luta primeiro contra a Igreja, que, para variar, se faz de surda-muda, e, depois, contra o próprio Coisa Ruim (ou algum minion dele) em uma guinada no filme que o transforma em um festival de efeitos práticos até surpreendentemente interessantes e bem acabados, considerando o orçamento ainda mais baixo da continuação apesar do sucesso financeiro do primeiro filme.

Se, por um lado, o resultado dessa indecisão sobre que história contar acaba sendo duas histórias pela metade ou pelo menos mal desenvolvidas, por outro o sarrafo técnico foi elevado. Em Horror em Amityville, os efeitos práticos eram tenebrosos mesmo quando de natureza simples como portas explodindo e janelas quebrando. Em Terror em Amityville (custava a distribuidora nacional ter escolhido um título que confundisse um pouco menos o espectador?), vê-se muito claramente um cuidado maior que culmina com um ótimo trabalho de próteses em Sonny que não deixa nada a dever à obras da mesma época. Infelizmente, a moeda de troca é a perda da importância da casa em si como personagem, algo muito bem trabalhado no primeiro filme.

Apesar de não saber muito bem o que quer ser e acabando não sendo nada de mais, o prelúdio quase non sequitur do sucesso original prende a atenção do espectador nem que seja pela presença razoavelmente breve do “Paulie do Mal” e pelos avanços que faz para o lado sobrenatural com efeitos que merecem respeito. Uma pena que o potencial visto de relance aqui e ali nunca é realizado.

Terror em Amityville (Amityville II: The Possession, EUA/México – 1982)
Direção: Damiano Damiani
Roteiro: Tommy Lee Wallace (baseado no romance de Hans Holzer)
Elenco: James Olson, Burt Young, Rutanya Alda, Jack Magner, Andrew Prine, Diane Franklin, Moses Gunn, Ted Ross, Erika Katz, Brent Katz, Leonardo Cimino
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.