Crítica | Terror na Água 3D

estrelas 0,5

Quando o filme é ruim não há aparato tecnológico ou brinde que resolva. A saída para muitos empresários envolvidos na indústria cinematográfica, em alguns casos, é encher os espectadores de parafernálias (copos, baldes de pipoca, bonequinhos ou camisetas) ou oferecer a narrativa em 3D para maior imersão do público. A tentativa em Terror na Água 3D não funcionou. O filme veio sem os brindes, apostou no 3D e se deu mal: praticamente nada deu certo nesta tentativa de turbinar o subgênero “filmes de tubarões”.

Na trama a jovem Sarah (Sara Paxton) retorna para a sua casa de veraneio após um extenso hiato. A moça decide levar junto um grupo de amigos que compõe a rede de estereótipos comuns nos filmes de eliminação violenta de personagens: a sexualmente ativa, o negro desavisado, o caipira valentão etc. Nada contra os clichês, mas eles sequer servem para a condução do enredo.

Ao chegar à cidade, Sara reencontra o seu ex-namorado, um rapaz valente e não satisfeito com o término da relação. A recepção hostil desanima a moça, mas os amigos tratam de coloca-la na “vibe”, afinal, a casa no lago Crosby é arquitetonicamente perfeita e promete muita diversão. O único problema é que a comunicação com o local é ruim, algo que mais adiante vai trazer desvantagens para os jovens, colocados diante de uma situação arriscada.

O que prometia ser diversão se estabelece como um pesadelo. Alguém sofre um acidente ao praticar wake board e perde o braço. Logo, somos apresentados aos algozes da situação: o braço decepado foi devorado por um dos tubarões que invadiu o lago. O leitor pode se perguntar? Um lago? Sim, a resposta é essa: um lago. Diante de feras marinhas na neve, em tornados e na areia, tubarões no lago são os menores problemas do roteiro deste filme.

Inicialmente cogita-se a vinda destes seres por conta de um furacão, mas adiante saberemos que algumas pessoas de olho em estratégias de alpinismo financeiro levaram seis espécies destas criaturas para o lago, espalhando a morte e o horror para os frequentadores.

Depois de dirigir os eficientes Premonição 2 e Celular – Um Grito de Socorro, David R. Ellis fracassou com toda força nesta aventura de tubarões sem sangue, vísceras, tampouco suspense. Os violoncelos de John Williams ganham uma versão mirrada, pouco funcional e até constrangedora. Rodado na Lousiana, o filme traz várias espécies de tubarões para assustar os personagens: tubarão-tigre, tubarão-branco, tubarão-mako, tubarão-martelo e tubarão-touro. Tem para todos os tipos e gostos.

A impressão que se tem é que os tubarões voam e conseguem ser mais rápidos que as lanchas na mais alta velocidade. A montagem, oportunista, trata de inserir algumas tentativas de sustos que não funcionam, além de dominar muito mal a linguagem do videoclipe. Ansioso por fazer graça, o roteiro assinado por Will Hayes e Jesse Studenberg investe num cachorrinho salva-vidas como alívio cômico, mas eles esquecem que o filme não precisa disso, pois a narrativa em si já é uma piada. Por sinal, muito mal contada e sem graça.

Se você já assistiu De Volta Para o Futuro, deve recordar. Lembra-se do tubarão que sai do seu suporte original e avança na tela? Pois então: a previsão realizada nos anos 1980 foi alcançada nos anos 2000, mas os resultados são catastróficos. Não demorou muito para que a fera mais temível dos mares ganhasse a sua versão em terceira dimensão. A desculpa para o uso do 3D é aumentar a profundidade de campo. Em Terror na Água 3D tal aparato não funciona, pois nas cenas de ataque a câmera se afasta e o que podemos acompanhar é um vermelho desbotado na água, numa tentativa da produção em alcançar a censura PG-13.

Sem alcançar a adequação para o público adulto, tampouco ser leve o suficiente para adolescentes, Terror na Água 3D é um dos maiores equívocos desde Tubarão 4 – A Vingança. Insosso, bobo e dirigido sem eficiência, serve para demonstrar que o subgênero, diferente do slasher, não conseguiu ser tão versátil, tendo apenas dois, ou no máximo, três momentos de genialidade: Tubarão, Do Fundo do Mar e talvez o divertido Isca. Só: o resto é excesso e material descartável, frutos de uma indústria que vive de da “persistência da memória”.

Terror na Água 3D – (Shark Night 3D) – EUA, 2011. 
Direção: David R. Ellis
Roteiro: Will Hayes e Jesse Studenberg.
Elenco: Sara Paxton, Dustin Milligan, Chris Carmack, Katharine McPhee, Joel David Moore, Donal Logue, Joshua Leonard, Sinqua Walls, Alyssa Diaz, Chris Zylka, Jimmy Lee Jr., Damon Lipari, Christine Bently.
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.