Crítica | Tesouro Verde – Turma da Mônica Jovem #43 e 44

estrelas 3,5

Consta que Mauricio de Souza e Osamu Tezuka foram grandes amigos. Em diversas publicações, e mesmo nas cartas editoriais ao final desses dois volumes de Tesouro Verde, é possível constatar a ligação artística e fraterna entre esses dois mestres. Como grande admirador de ambos, fiquei animado com a possibilidade de um crossover entre suas personagens, algo que possivelmente traria um novo fôlego para a Turma da Mônica Jovem (TMJ), revista pela qual não nutro muita simpatia.

Sabendo que se tratava de um projeto antigo de ambos os criadores, eu esperava que as edições da aventura Tesouro Verde fossem um verdadeiro evento, mas me deparei com uma história pouco interessante e sem ritmo narrativo satisfatório, principalmente por querer tornar a trama didática, descolada, ativista, moralista e intrigante, tudo ao mesmo tempo. Algumas aventuras da Turma da Mônica (TM) contavam com melhor organização de eventos, foco narrativo e trabalho com as personagens do que a maior parte das edições dessas atuais Turma da Mônica Jovem.

A história das revistas 43 e 44 se passa na Floresta Amazônica, e tem como participantes a clássica Turma na companhia de Franja, que agora trabalha em um Museu, e é enviado para conhecer o Projeto Onsa. Lá, conhece o Senhor Amoroso, que os guiará durante a visita. No volume 43, conhecemos o “príncipe” Safiri e o sempre incrível Astro Boy.

O que me incomodou bastante no roteiro de Petra Leão foi a tentativa de trabalhar a defesa da causa ambiental em uma intriga robótica cheia de pequenas e descartáveis subtramas, todas elas na clara intensão de aglutinar ingredientes para um arco que surpreenderia a todos em seu desfecho, coisa que não acontece. É de se perguntar por que a princesa Safiri, longe do Reino da Terra de Prata, do Duque Duralumínio e do Príncipe Plástico ainda se apresenta como um garoto. A armadilha poderia ser muito bem resolvida (é muita pretensão minha querer escrever o roteiro da história, mas como este é apenas um comentário sobre as edições, penso que posso me dar o luxo de fazê-lo) se Safiri já estivesse na Onsa. O Doutor Tenma e o Astro Boy já estavam lá, por que Safiri, a mais complexa das personagens, por sua “particularidade de gênero”, não poderia estar lá também?

A partir desse ponto, o leitor não familiarizado com as personagens de Tezuka deve ter ficado confuso com aquela personagem visivelmente feminina sendo apresentada e sustentada para quase todo mundo como um garoto. É por isso que o arco não se estabelece. Quando o macaquinho que só ataca meninos se afeiçoa a Safiri e lhe faz carinho, na última página da edição 43, o leitor praticamente já esperava por aquilo, e o evento só consegue ser “fofo”, mas não alcança o patamar de surpresa ou revelação bombástica que pretendia. E sem contar que Safiri é muitíssimo mal aproveitada na edição seguinte. Apesar de haver uma trama mais interessante com Kimba, o Leão Branco, na história, o fato de Safiri e Mônica estarem perdidas na floresta teve apenas um mínimo impacto e geração de suspense, que aos poucos se desgastou.

A história que melhor funciona é a de Astro Boy. Primeiro, porque ele contrasta com a faixa etária da Turma jovem, o que de alguma forma nos lembra as aventuras antigas no bairro do Limoeiro, e um misto de emoções surge a partir daí. Depois, porque o apelo dramático em torno do androide funciona perfeitamente, menos por ajuda do roteiro e mais pela arte, que o torna irresistível. Até a presença do Dr. Ochanomizu me deixou feliz, uma vez que a adoção de Astro não precisaria ser feita, ao final da aventura, pelo perdido Sr. Amoroso, ou, sabe-se lá, pelo Louco. E sobre esta última personagem, devo dizer que não há coisa mais insuportável do que a sua repetição do jargão “eu não sou louco”. Sinceramente não entendo como essas coisas passaram pela revisão do roteiro.

Há apenas um momento em que Petra Leão surpreende, e da maneira mais incrível e bem escrita possível: o início da edição 44, com a apresentação de Kimba. Eu juro que tomei um susto com a qualidade do texto, a perfeita representação artística, com alteração comedida entre os ângulos e planos escolhidos para os quadrinhos, e principalmente pela junção dos pontos dramáticos. O que vimos exposto na edição anterior aparece nesse início de continuação de forma natural, sem relações forçadas, como acaba acontecendo no desfecho da história. Reli esse início inúmeras vezes, e em todas elas, não pude deixar de esboçar um sorriso satisfeito. Essa introdução foi realmente digna da apresentação de um rei.

Na segunda parte da aventura, após as excelentes páginas iniciais, há um verdadeiro show de estranhezas. Mônica (uma adolescente magrela) consegue levantar uma tora de uma árvore e rodar uma onça pelo rabo. Observe o leitor que quando a mesma Mônica exibia sua força na TM, era plenamente compreensível, porque a proposta era a quebra da realidade através da hipérbole, a mesma coisa de mostrar a Magali comendo uma melancia inteira com a intenção de criar a imagem de que ela era uma comilona. Mas na TMJ a proposta é uma aproximação da Turma com o real, mesmo que as histórias sejam fictícias, como na série O Brilho de um Pulsar! (edições 6, 7 e 8). Nesse caso, é muito estranho vermos essa despropositada demonstração de força da Mônica numa aventura em que há um Exército de robôs e um androide amigo da Turma. A atitude simplesmente não combina com a forma adotada pela revista, em especial nessa edição, onde ela é apenas uma jovem comum, e portanto, deveria ter atributos de jovem comum, não uma superforça.

Apesar da importância do tema retratado nessas edições, não chegamos nem perto de uma aventura razoável. O roteiro atira para todos os lados e só nos apresente um momento bom em toda a série. A arte é interessante em alguns momentos, mas é perceptível que se curva às exigências do roteiro (e não poderia ser diferente), de modo que não ultrapassa a linha do mediano.

Mesmo não gostando da Turma da Mônica Jovem, procuro conferir as edições que trazem alguma relação com o mundo contemporâneo ou que me chame atenção por algum motivo, como um crossover com as personagens de Osamu Tezuka. Mas eu ainda estou para ler uma edição dessa revista que realmente me agrade. Enquanto isso não acontece, me divirto com as histórias da antiga Turma, que chega a impressionar muito mais do que na fase atual, mesmo falando de problemas ambientais e dividindo histórias com personagens do mestre japonês dos mangás.

Turma da Mônica Jovem #43 e 44 (Brasil, fevereiro e março de 2012)
Roteiro: Petra Leão
Arte: Denis Y. Oyafuso, José Aparecido Cavalcante, Lino Paes, Roberto M. Pereira
Arte-final: Diversos
128 páginas (cada número)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.