Crítica | Tex: A Marca da Serpente (1990)

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Terceira história da série de publicações gigantes de Tex, a “Albo Speciale – Texone“, iniciada em 1988 com Tex, o Grande!A Marca da Serpente traz um grande salto de qualidade no roteiro e nos dá o prazer de ver mais uma vez a arte de Aurelio Galleppini, na época, com 73 anos de idade.

Durante a maior parte desta saga, temos Tex e Kit Carson sozinhos, chamados para investigar uma péssima situação que uma divisão da cavalaria americana na zona de fronteira entre o Arizona e o México se meteu, uma situação que desde o início tem um aspecto místico, embora não haja, no acontecimento em si, algo que indique isso. É apenas a sensação de mergulho em um mundo de segredos e mistérios que o texto de Claudio Nizzi nos coloca de imediato. O ataque das serpentes, a heroica escapada de um casaco-azul (sim, a situação é cheia de conveniências mas não prejudica a história) e a atenção imediata que isso cobra dos miliares da fronteira são passadas para Tex e Kit no Forte Huachuca, um mês depois da interessantíssima introdução.

É muito importante notar o quanto Nizzi explora a ação dos rangers com um olhar jamais alheio aos entraves políticos, como a cautela e até certa ironia do autor ao mostrar a entrada deles em território mexicano para investigar uma região de serra dominada por serpentes. Um convento isolado e misteriosos rurales também são citados e é com alegria que vemos a mistura dos ingredientes do western clássico com caraterísticas particulares da fronteira dos Estados Unidos com o México. Se estivéssemos na década de 1910, poderíamos até classificar a história como um Zapata Western, mas mesmo não podendo (porque aí estaríamos cometendo um anacronismo com a concepção do título), é impossível não ver algumas caraterísticas centrais desse subgênero do faroeste presentes no enredo, que além de se passar majoritariamente em território mexicano, tem todo o cuidado possível para englobar a cultura local à narrativa.

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Um pouco de cautela não faz mal a ninguém…

Exceto por um pequeno momento na parte final da trama, quando Tex, Carson, Jack Tigre e Kit Willer deviam se esconder dos Iaquis que faziam guarda às ruínas do monastério (onde se entocava Lutero e o fanático cientista Sebastian, na derradeira parte de sua busca de décadas para encontrar a Pedra Filosofal), a relação entre arte e roteiro mantêm-se coerente com o espaço geográfico e com a jornada exigida pela própria história. O “pequeno momento” do qual falo refere-se a um pedido de Tex para que escondam dois Iaquis nocauteados “em uma mata próxima”. O próprio trabalho visual de Galleppini não sustenta esse pedido, sendo a presença excessiva de verde naquela ocasião (a pequena mata que surge do nada) um furo que chega a ser engraçado e, mesmo não diminuindo a qualidade da história, não passa despercebida.

Outro ponto interessante a ser destacado em relação à arte é que após a passagem subterrânea que o quarteto enfrenta, buscando encontrar o velho Sebastian que fugira com o raro livro, um tratado secular sobre alquimia, os desenhos passam a ter uma finalização muito mais marcada por traços sem o cuidado de alternância entre contornos finos e grossos dependendo da situação de perigo que os personagens estão passando. O cansaço de Galleppini se faz sentir principalmente aí, mas em nenhum momento temos diante de nós uma arte ruim. Longe disso. Levanto a questão aqui apenas como um dado de percepção para a mudança na arte-final, especialmente se levarmos em consideração o grande rigor que o artista empregou em toda a saga (afinal, não estamos falando de um gibizinho mensal, mas de uma história ágil com mais de 200 páginas).

Nizzi traz aqui excelentes momentos de humor vindos de Tex e uma sequência muito boa (ecoando de longe Martin Mystère) envolvendo El Morisco, um velho amigo de Tex que ajuda os rangers a entender o que significa a marca da serpente e colocando a dupla na definitiva pista para caçar os bandidos. O elemento místico que citei no início da crítica é exaltado pela arte de Galep toda vez que mostra o laboratório de Sebastian com grande imponência. Isso ajuda a terminar a história com a mais orgânica das resoluções, tirando o peso da “justiça dos homens” e deixando que o imprevisível acaso tome conta da situação, obviamente coroada por Tex. Meu único peso no peito, no final da história, foi ver os livros do monastério serem destruídos. Já o tratado perigosíssimo sobre alquimia, o destino foi mais que necessário. Não se deve confiar em coisas desse tipo à solta pelo mundo do Velho Oeste e suas cercanias.

Tex: A Marca da Serpente (Il Segno Del Serpente) — Itália, junho de 1990
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Edição Gigante em Cores #3 (Mythos, 2014), Tex Gigante #21 (Mythos, 2008), Editora Globo (1993 e 1998)
Roteiro: Claudio Nizzi
Arte: Aurelio Galleppini
234 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.