Crítica | Thanos: Revelação Infinita

Depois de acabar sua célebre, mas não tão boa assim Trilogia do Infinito em 1993, Jim Starlin só voltaria a lidar com Thanos quase 10 anos depois, na minissérie Abismo Infinito, em 2002, engatando, entre 2003 e 2004, nos primeiros seis números da primeira série solo do Titã Louco. Depois, veio o silêncio por mais 10 anos. Não que sua criação de 1973 não tivesse sido usada em outras histórias por outros criadores ao longo dos anos, pois foi, como na péssima A Ascensão de Thanos, por Jason Aaron e, depois, na ótima saga Infinito, por Jonathan Hickman, entre 2013 e 2014.

Mas, no mesmo ano que Infinito acabava, Starlin voltaria ao aconchego de seu personagem-xodó em mais um projeto ambicioso que resultaria na segunda Trilogia do Infinito, trazendo de volta não só Thanos como, também, Adam Warlock. No entanto, no lugar de fazer um crossover como em sua saga bipartite original Vingadores vs Thanos ou como uma série de sagas propriamente ditas, como foi o caso da primeira Trilogia do Infinito, com direito até a tie-ins, Starlin e a Marvel Comics sabiamente elegeram o formato de graphic novels, aproveitando-se da então recém-relançada coleção de OGNs (Original Graphic Novels), iniciada por Vingadores: Guerra Sem Fim, que emulou o bem-sucedido modelo oitentista catapultado pelo próprio Starlin com a inesquecível A Morte do Capitão Marvel. Em outras palavras, são publicações únicas de 100 a 120 páginas dentro da continuidade, o que evita a bagunça na linha editorial normal, mas afeta-a da mesma forma.

A dúvida era se essa volta de Starlin a Thanos em mais uma história “do Infinito” valia a pena. No meu caso, meu desânimo com o trabalho do autor desde o final da primeira Trilogia do Infinito e que só foi amplificado por Abismo Infinito, fez com que Thanos: Revelação Infinita permanecesse por anos em minha prateleira de “ler um dia, talvez”. Mas, ao tirar o plástico da OGN para a confecção da presente crítica, deparei-me com um Jim Starlin renovado, renascido mesmo como Thanos e, claro, Adam Warlock, o super-herói que mais deve ter morrido no Universo Marvel. Em poucas palavras, Revelação Infinita é o que Desafio Infinito poderia ter sido, mas não foi: uma história cósmica verdadeiramente corajosa, abrangente e misteriosa, sem finais fáceis e sem soluções milagrosas.

No entanto, essa maravilha vem com um preço e ele, dependendo do leitor, talvez seja incongruente com minha afirmação laudatória acima. E o preço é o seguinte: Revelação Infinita, vista de forma estanque, ou seja, como uma história única com começo meio e fim, é um completo enigma. Pode ser minha limitação interpretativa, mas creio que afirmar “entendi tudo” ao final da leitura seja algo próximo do impossível. Starlin usa e abusa de sua aparente liberdade para criar uma história de difícil definição, mas que pode ser resumida assim: Thano sente-se um desequilíbrio no universo e vai atrás para entender o que está acontecendo. Nós, leitores, temos pelo menos o privilégio de recebermos uma confirmação prévia de que realmente há algo de diferente acontecendo no universo, já que a OGN abre com uma conversa críptica entre os mais poderosos seres cósmicos da Marvel: Tribunal Vivo, Infinito e Eternidade. Fica evidente, portanto, a ambição do trabalho de Starlin, algo que só vai se confirmando na medida em que a história progride, com literais viagens lisérgicas dignas de Steve Ditko em seu auge criativo com o Doutor Estranho e também ao excelente trabalho do próprio Starlin nos anos 70 com Adam Warlock e, a partir dos anos 80, com Dreadstar.

A busca de Thanos logo o faz procurar o Poço do Infinito, lá encontrando-se com a alma flutuante e sem forma de seu nêmesis, mas por vezes parceiro, Warlock que, mais uma vez, ressuscita. Mas há algo muito estranho na volta do messias dourado, aspecto que é trabalhado visualmente por Starlin, desde o comecinho da OGN, com alterações às vezes óbvias, outras vezes não tanto, nos uniformes dos personagens, fazendo-nos orbitar entre passado, presente e futuro e coçar a cabeça pensando no que raios está acontecendo. Mas a confusão é proposital e conecta-se com o conceito de multiverso e de sua criação e recriação, algo que acontece sem pudor, mais de uma vez, ao longo do texto, mostrando uma ousadia ímpar para uma história que é sim canônica. Mas, mesmo que não fosse, a viagem visual de Starlin, que capitaneia a arte mostrando que realmente está de volta completamente à forma, já valeria o esforço da leitura. Sim, há encontros com diversos personagens conhecidos, começando com a própria Morte, mas também passando pelos super-grupo cósmico auto-intitulado Aniquiladores, além dos Guardiões da Galáxia, mas tais encontros – e a pancadaria que se segue – só estão ali para divertir o leitor e Thanos também, já que nenhum deles é verdadeira ameaça para o Titã ou sua busca. O foco fica mesmo na dupla estranha formada por Thanos e Warlock e é nela que o leitor deve focar.

Talvez mais espetacular do que tudo isso é a capacidade de Starlin de lidar com as diversas “versões” de Thanos que popularam o Universo Marvel. Calma, não falo dos Thanos de vários universos diferentes, mas sim do mesmo Thanos da chmada Terra-616. O ponto é que, como Starlin não foi o único autor a abordar o personagem, diversas “novas” características foram sendo, com o tempo, acrescidas a ele, como sua vontade de conquista da Terra que vemos em Infinito ou o surpreendente final de A Ascensão de Thanos, dentre outros. De forma sensacionalmente metalinguística, Starlin aborda essas “inconsistências” e usando o próprio Thanos para levantar as dúvidas e tentar racionalizá-las dentro dos acontecimentos da OGN. Esse aspecto, aliás, torna a leitura de Revelação Infinita recomendável somente para aqueles que têm intimidade com a mitologia do Titã Louco, pois, caso contrário, muita coisa será perdida.

Revelação Infinita é uma surpresa enigmática do começo ao fim que, confesso, não sei se quero uma explicação detalhada. A viagem, aqui, é tão fora do comum para uma publicação mainstream, que tenho até receio de ler Relatividade Infinita e Final Infinito, que fecham a nova Trilogia do Infinito. Sei que acabarei fazendo isso, mas a experiência dessa OGN, suspeito, não será ultrapassada.

Thanos: Revelação Infinita (Thanos: The Infinity Revelation, EUA – 2014)
Autor: Jim Starlin
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Andy Smith
Cores: Rachelle Rosenberg
Letras: Joe Caramagna
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 06 de agosto de 2014
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: fevereiro de 2017
Páginas: 116

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.