Crítica | The Affair – 1ª Temporada

estrelas 5,0

O ser humano é, por natureza, movido por suas vontades. Seja almejando liberdade, estabilidade profissional ou a família dos sonhos, cada um, de seu modo particular, tem desejos e não mede esforços na busca por alcançá-los. O mais curioso de tudo é que, na constante tentativa chegar a tal satisfação, dentre os mais difíceis esforços a serem empreendidos, encontra-se o duro momento em que temos que sobrepor uma vontade à outra. Abdicar nunca é fácil, mas talvez valha a pena. Será?

Esse é só um  dos intermináveis dilemas suscitados pela fantástica produção do canal Showtime em 2014. Idealizada por Hagai Levi e Sarah Treem e aclamada pela crítica, The Affair surpreendeu a todos por, ainda em sua temporada de estreia, conquistar dois importantes prêmios do Globo de Ouro, o de melhor atriz e melhor série dramática. Não há como uma façanha como essa passar despercebida e, assim, cheguei a The Affair, a série que me arrebatou desde os primeiros minutos do episódio um, até os últimos e frenéticos instantes da temporada.

Num primeiro momento, antes de dar uma chance à oportunidade de conhecer a série por inteiro, é bastante possível e crível, inclusive, supor que a série se trata apenas de mais uma das muitas histórias de amores, paixões e traições. Em Montauk, interior de Long Island, acompanhamos o encontro entre Noah Solloway e Alisson Lockhart. Ele um escritor um tanto frustrado com a fraca resposta de público para o seu primeiro livro, pai de quatro filhos e casado com Helen que é filha de Bruce Butler, um célebre escritor. Alisson é uma garçonete local que, junto ao marido Cole, vive as dificuldades em superar a morte do único filho do casal: Gabriel. A relação começa quando Noah chega em Long Island, onde, junto à família,  passaria as férias de verão na casa de seu sogro. Um incidente o aproxima de Alisson e, assim, o romance começa.

A relação entre Noah e Alisson é central no desenvolvimento da série, mas é um doce engano deixar de perceber que esse mote é somente o plano de fundo para uma trama ainda maior que tende a ser desenvolvida. Com uma habilidade formidável, a primeira temporada de The Affair nos envolve tanto em seus conflitos de desenvolvimento que, quando chegamos ao fim da temporada, nos deparamos com um grande “e agora?”. Não é fácil perceber que, apesar de tão densos perfeitamente costurados, os dez episódios da primeira temporada foram apenas o ponto de ignição para uma trama que acabou de começar. É ainda mais difícil aceitar que teremos de esperar um ano para assistir à continuação da história.

The Affair reúne todos os elementos necessários para mostrar-se como uma boa série de drama. A fotografia é bastante funcional, assim como os movimentos de câmera são extremamente úteis para destacar momentos bastante demarcados ao longo de cada episódio. Temos um plot bom, mas o que nos fascina de fato é a maneira com a qual o roteiro é construído e conduzido.

Ainda que se aproxime de maneira tão forte das confusões e dos dilemas sociais, nada em The Affair parece ser verossímil. A opção por trazer duas construções narrativas acerca de um enredo comum não somente é inovadora, como também nos fisga, nos põe em dúvida e levanta questionamentos. Cada episódio da série é dividido em duas partes, dois olhos, dois lugares de fala. Por um lado, acompanhamos os eventos sob a perspectiva de Noah. Assim, conhecemos uma Alisson mais ousada, confiante e segura de si, de suas buscas e desejos. Sob a ótica de Alisson, os eventos transcorrem com uma melancolia constante. Ainda vivendo o luto de sua perda, a garçonete mostra ser uma mulher desmotivada, insegura e em busca de qualquer coisa que lhe dê alguma razão de existência.

Observar o desenvolvimento da trama sob esses dois lados é, no mínimo, envolvente. Vemos assim, um entrosamento bastante categórico entre o corpo de atores do elenco. A relações paralelas à trama central vão, pouco a pouco, ganhando força e, dessa forma, dando espaço a ótimas atuações como as de Maura Tierney e Joshua Jackson. Dominic West desempenha seu papel de maneira extremamente competente, mas, de um modo ou de outro, os holofotes acabam apontando para Ruth Wilson.

A genial opção de narrar que explora exaustivamente, mas na medida corretíssima, a atuação da talentosa Ruth Wilson, certifica que a atriz mereceu indubitavelmente o prêmio que recebeu. Acompanhar os diferentes nuances de Alisson, que é, sem dúvida alguma, o personagem mais complexo de toda a trama, passa a ser um deleite.

Assistir a The Affair foi, sem dúvida alguma, um dos maiores acertos. A série não decepciona em nada, levanta debates importantíssimos e, sobretudo, nos põe à prova. Como de costume, a Showtime não brinca em serviço e apresenta uma das mais bem resolvidas temporadas de 2014.

The Affair – 1ª Temporada (EUA, 2014)
Criadores: Hagai Levi e Sarah Treem.
Direção: Jeffery Reiner, Ryan Fleck, Carl Franklin, Mark Mylod
Roteiro: Hagai Levi, Sarah Treem e outros.
Elenco: Dominic West, Ruth Wilson, Mayra Tierney, Joshua Jackson, Julia Goldani Telles, Victor Williams.
Duração: 60 min/episódio.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.