Crítica | Os Vingadores #59 e 60 [Primeira Aparição: Jaqueta Amarela]

estrelas 2

A Marvel nunca soube muito bem o que fazer com Hank Pym. Desde que o personagem surgiu como civil em Tales to Astonish #27, de 1962, em uma história fechada, passando a ser reaproveitado como identidade secreta para a persona super-heroística do Homem-Formiga em Tales to Astonish #35, também de 1962, ele mudou outras duas vezes de identidade. Tornou-se o Gigante em Tales to Astonish #49, de 1963, e, depois, manteve os poderes, mas mudou de nome (e uniforme) para Golias em The Avengers #28, de 1968. Nesse mesmo ano, Pym mudou novamente (e não seria a última), dessa vez para talvez sua mais interessante versão heroica, mas justamente por não ser tão heroica assim.

Trata-se do pouco conhecido (para quem não lê quadrinhos, claro) Jaqueta Amarela, tradução literal de Yellowjacket que nada mais é do que o nome comum da vespa na América do Norte. Com os mesmos poderes do Homem-Formiga somados às rajadas da Vespa (Janet Van Dyne) e do poder de voo, graças a asas no formato de “ombreiras”, esse super-herói surgiu misteriosamente no mini-arco de dois números composto por The Avengers #59 e 60.

Roy Thomas, seu criador, faz muito mistério com a introdução do novo personagem. Nós o vemos, logo na primeira página, lidando com ladrões de casacos de pele que são derrotados facilmente pelo Jaqueta Amarela, que faz questão de esbravejar que é um novo herói e de se mostrar para a polícia. Com isso, J.J. Jameson o coloca na primeira página do jornal, criando uma reputação automática para o personagem. No entanto, em seguida, o Jaqueta Amarela aparece do nada na Mansão dos Vingadores, rende Jarvis e, de forma petulante, diz que veio para ser o mais novo membro do grupo. Os heróis presentes – Pantera Negra, Gavião Arqueiro, Vespa e Visão – aguardavam Hank Pym, então o Golias, para uma reunião e, com a chegada do Jaqueta Amarela, eles se espantam, especialmente quando o novo herói diz que liquidou com o Golias em uma mal-ajambrada história que fica literalmente sem consequência prática. Afinal, se alguém diz que matou seu colega, você não vai simplesmente aceitar a história sem ao menos tentar localizá-lo, prendendo o responsável por um tempo ao menos.

O primeiro número termina com o Jaqueta Amarela sequestrando a Vespa e levando-a para uma base secreta em uma árvore chamada Hornet’s Nest (algo como Vespeiro) e ele força um beijo que acaba sendo correspondido. Ato contínuo, os Vingadores, seguindo o sinal da Vespa, encontram os dois saindo da prefeitura e recebendo, com surpresa, o anúncio de que eles se casariam.

mosaico jaqueta amarela

Essa história inicial é extremamente corrida e muito mal concatenada, com todo o mistério em volta do Jaqueta Amarela meio que se dissolvendo com a revelação do casamento ao final. Claramente Janet sabe de alguma coisa que os Vingadores – e os leitores – não sabem e é mais do que evidente que ela não se casaria com alguém que ela literalmente conheceu no mesmo dia. O Jaqueta só pode ser Hank Pym. Mas como?

Essa revelação vem no número seguinte, que lida inteiramente com a cerimônia de casamento dos dois na Mansão dos Vingadores (é engraçado notar que só as mulheres vestem roupas civis, enquanto que os homens mantêm seus uniformes de super-herói, inclusive com máscaras quando a identidade secreta de muitos é conhecida por todos). Como quase todo casamento de super-herói, eles são interrompidos por vilões e Roy Thomas escolhe um dos mais patéticos grupos para essa missão: o Mestre do Picadeiro e o Circo do Crime. No meio da celeuma, que é resolvida rapidamente (pois não dá para levar a série um grupo de vilões circense), o Jaqueta Amarela tem um ataque de nervos e começa a aumentar seu tamanho, revelando que ele é, na verdade, Golias (com direito a uniforme embaixo de uniforme) e tudo, então, acaba bem.

Apesar da quase infantilidade da estrutura do roteiro que cria um mistério interessante e o resolve quase que imediatamente, há questões psicológicas interessantes e que são pouco abordadas. A “transformação” de Golias em Jaqueta Amarela, por mais impossível que ela possa ser (Thomas nos pede para acreditar que Pym criou o uniforme e a base secreta do Jaqueta em algumas horas), simboliza uma mudança de personalidade em Pym. De um pacato cientista que reluta em se envolver amorosamente de verdade com Janet, ele se transforma em um homem impetuoso, falastrão e que não hesita em casar com a mulher que ama. Por outro lado, Janet, que não demora e descobre que o Jaqueta é o amor de sua vida, se aproveita do surto psicótico de Pym para casar com ele. Teria sido extremamente interessante ver Roy Thomas trabalhar essa temática ao longo de vários números da publicação, no lugar de “queimar cartucho” e acelerar toda a narrativa. Não que as questões não sejam abordadas. Elas são, mas muito superficialmente e de maneira pouco satisfatória. São tantos elementos improváveis, que ferem a lógica interna da narrativa, que o leitor é obrigado a suspender sua descrença a um ponto inaceitável.

A arte de John Buscema não faz milagres com um roteiro tão fraco. Mas o artista se esforça em criar um uniforme diferente – apesar de espalhafatoso, mas todos são assim basicamente – para o Jaqueta Amarela que eu reputo ser uma de suas melhores criações. Logo em The Avengers #61, esse uniforme receberia leves upgrades, o maior deles sendo uma lente amarela sobre os olhos.  Mas, em linhas gerais, o que vemos no transcorrer do arco não é nada especial, talvez com exceção do momento em que a quarta parede é quebrada durante o casamento e o narrador diga que não precisa falar nada, já que a arte de Buscema fala por si própria e, com isso, vemos o domínio do artista sobre seu trabalho, desenhando uma splash page entulhada de heróis com uma excelente distribuição deles pela página, além de dar muita personalidade a cada um dos personagens apenas com gestos.

Mais tarde, Hank Pym como o Jaqueta Amarela seria o responsável por um dos momentos mais marcantes nos quadrinhos Marvel, quando ele bate em Janet, momento esse amplificado no universo Ultimate, com Janet sendo completamente espancada por Pym, o que resulta no Capitão América fazendo o mesmo com o pseudo-herói. Mas isso fica para outras críticas!

The Avengers #59 e 60 (EUA, dezembro de 1968 e janeiro de 1969)
Roteiro: Roy Thomas
Arte: John Buscema
Arte-final: George Klein (#59), Mickey Demeo (#60)
Letras: Sam Rosen
Editora: Marvel Comics
Páginas: 22 cada número

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.