Crítica | “The Baby Huey Story: The Living Legend” – Baby Huey

estrelas 5,0

O universo da música, assim como o das demais artes, é recheado de histórias com um certo sabor agridoce. Qualquer um saberia citar alguns artistas que ficaram marcados pela carreira extremamente curta, mas memorável para aqueles que se mostraram atenciosos a ouvir. Amy Winehouse, Jeff Buckley, Jim Croce, Kurt Cobain… uma lista enorme que não convém terminar aqui. Um desses exemplos é a lenda Baby Huey junto à sua banda de apoio, The Baby Sitters. Há apenas um registro do grupo na história. Não precisou de mais do que isso para inseri-los no hall das lendas do soul.

James Radey nasceu em Richmond, Indiana (EUA), mas ganhou repercussão quando se mudou para Chicago e passou a trabalhar com algumas bandas locais. Radey possuía um distúrbio hormonal que desgastava sua saúde e fazia ganhar uma quantidade absurda de peso. Ainda assim, levou seu problema na esportiva e adotou o nome artístico Baby Huey (um personagem de desenho animado marcado por sua aparência gorda). O artista infelizmente também desenvolveu um vício por heroína, o que piorou sua saúde e o levou a sofrer um ataque cardíaco e falecer em 1970. O disco veio postumamente, no ano seguinte, com o título The Baby Huey Story: The Living Legend, produzido por Curtis Mayfield. Se, por um lado, na época não atraiu atenção do mainstream, hoje é considerado um clássico gigantesco do soul americano.

Baby Huey era dotado de uma voz monstruosa, um timbre forte que tomava proporções assustadoras em notas agudas. Sua performance no cover de A Change Is Going To Come de Sam Cooke é arrepiante, entregando alguns dos agudos mais inacreditáveis que este que vos escreve já escutou. Isso sem contar sua interpretação sincera, triste, que toma tons trágicos em meio à tempestade de metais incorporada pela banda. Se trata de algo que todo fã de música deveria escutar. Suas performances no disco viriam a influenciar até mesmo o hip-hop. O que ele entrega em Hard Times (que depois viria a ser gravada pelo grupo The Roots), por exemplo, é espetacular, maximizando uma letra essencialmente simples com a ajuda de um arranjo épico. Um aspecto interessante é como a obra mescla diferentes gêneros da música negra (funk, soul, jazz) com a psicodelia daquela década, como fica claro em Running, uma faixa tipicamente marcada pela pegada rockeira psicodélica.

Seria injustiça não mencionar a banda Baby Sitters como grandes titãs ao lado de Radey. Algumas faixas instrumentais são especialmente dedicadas a mostrar a competência fantástica do grupo. Há em California Dreaming um compilado de elementos extraordinários de jazz fusion, psicodelia e rock progressivo, Mama Get Yourself Together possui um groove incendiante através de sua linha de baixo e sua bateria de técnica absurda e, por fim, o magistral encerramento de One Dragon Two Dragon, uma viagem sonora sem ticket de volta.

Alguns lembrarão Tim Maia, artista este que também estava começando por volta daqueles anos (1970/1971), tendo uma semelhança que vai desde algumas interpretações até a aparência dos cantores e capas dos discos de ambos. Este ano o único registro de estúdio de Baby Huey completa 45 anos, um mergulho profundo na sonoridade arrebatadora de um músico que merecia ficar conosco por mais tempo. Melhor me corrigir. Ele ainda está. Afinal, toda sua essência talvez esteja nessa obra, algo que, tenha certeza, pode ser chamada de eterna.

Aumenta!:  A Change Is Going To Come
Diminui!:

The Baby Huey Story: The Living Legend
Artista: Baby Huey & The Baby Sitters
País: Estados Unidos
Lançamento: Fevereiro de 1971
Gravadora: Curtom
Estilo: Soul, Jazz, Funk

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.