Crítica | The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years

Oh, I need your love babe
Guess you know it’s true
Hope you need my love babe
Just like I need you

Como transformar a banda mais popular de todos os tempos em protagonista de um documentário voltado exclusivamente aos seus anos de turnê, para muitos, não tão interessantes quanto os que viriam a seguir, focados em descobertas musicais extremamente mais ricas? Aquela década de 60, olhada sob os olhos que conseguiam direcionar-se apenas para os quatro garotos trajados em ternos, afinal, já fora vista e revista inúmeras vezes por jornalistas, pesquisadores e cineastas. O conteúdo de The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years não traz nada que um fã do grupo musical, familiar a todos os álbuns de sua discografia, ciente de todas as minúcias desta época envolvendo a banda, não sabia. Todavia, mais do que uma mera associação cronológica do que aconteceu em cada dia, de cada mês, de cada um daqueles anos, o interesse dos realizadores é, pelo formato documentário, fazer o espectador imergir em um mundo de décadas atrás, não apenas tornando-o passível de saber a importância dos Beatles, banda de rock britânica em atividade até 1970, mas levando-o a compreender fortemente as sensações, os gostos e cheiros, dos anos que, na história da cultura popular, também foram protagonizadas pelos reis do iê-iê-iê; os anos que englobam os mais de duzentos shows estrelados pelos jovens que, dos Estados Unidos ao Japão, seriam imensamente amados – e, em certos casos, odiados – pelo globo inteiro.

Em Eight Days a Week, música, presente no álbum Beatles For Sale, que, em termos de composição, nada tem a ver com a jornada de trabalho do grupo musical, mas, como de costume para a época em que foi composta, com algum amor juvenil, é uma escolha sábia para o título da produção, por abrir espaço para variadas vertentes óticas voltadas aos meninos britânicos. O amor que dura oito dias da semana, o trabalho que dura oito dias da semana, a fama que dura oito dias da semana. The Beatles foram o assunto dos anos 60. Com Ron Howard na direção da obra, o roteiro de Mark Monroe, embora sem qualquer revelação quentíssima sobre a trajetória do grupo musical, transforma-se em um dos mais profundos estudos sobre os quatro garotos e, consequentemente, sobre a década em que mudaram o mundo. A narrativa, em um primeiro plano, conta a história revelada justamente pelo título do documentário: de um grupo encantado pela fama a uma grupo cansado dela, não mais interessado em ser familiar a atmosfera das turnês. Dessa forma, a maneira como Ron Howard apresenta esse arco de personagens é das mais sábias, sem, em momento algum, propor julgamentos às figuras de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, muito menos às fãs, aos produtores musicais, aos jornalistas, ou a qualquer um dos outros nomes relacionados ao alvoroço da beatlemania.

A mudança de perspectiva trazida por Ron Howard redefine os anos de turnê, exaltando-os como muito mais interessantes e relevantes para a sociedade mundial. A exemplo pessoal, dos meus livros de história do colégio, apenas um grupo musical era comentado, justamente aquele formado pelos garotos que, na época, tinham os cabelos mais subversivos do universo. O “quanto os Beatles foram” é maior do que “o que os Beatles foram” para o mundo. Entre um dos casos citados pelo filme, os Beatles como transgressores da moral, em decorrência do polêmico e conhecidíssimo comentário de John Lennon sobre a fama de sua banda se comparada com a de Jesus Cristo, revela um Estados Unidos que, ora ou outra, revemos nas televisões, apesar de que, sob uma visão completamente diferente, etiquetada pelos costumes britânicos, a relevância da fala era digna apenas da quinta página de um jornal. Mas, muito além disso, a percepção trazida pela entrevista que o grupo concedeu, buscando se desculpar por qualquer ofensa, é a de um John Lennon extremamente desnorteado, confuso. A exímia costura, muito mais que a básica de um outro ponto para o outro, permite que o valor contido nas imagens digam muito mais do que, aparentemente, elas diriam, caso qualquer pessoa pesquisasse o evento nas páginas da internet. A auto-indulgência, naquele caso, é perturbadora, completamente diferente dos Beatles de antes, com respostas rápidas, extremamente cômicos e joviais.

As escolhas dos materiais apresentados – as entrevistas, imagens de arquivo, filmagens de shows, icônicos ou não, áudios triviais, conversas íntimas e primeiros testes de músicas que um dia viriam a ser imensamente cultuadas – são das mais certeiras possíveis; tudo posto a dedo na obra. Por isso, a duração do longa-metragem, para um documentário, é até curta, em decorrência de um conteúdo sem interesse em ser o mais vasto possível relacionado aos Beatles, mas ansioso pela qualidade apresentada em termos próprios. O nível de entrelaçamento é o destaque de The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years. Por um outro lado, a coesão narrativa, indo muito além de uma visão retilínea dos acontecimentos, de causa e consequência, também é abordada pela absurda montagem de Paul Crowder. Ao intencionar as imagens de arquivo como possíveis contadoras de histórias, o montador vai naturalizando-as como espécies de cenas em câmera extremamente lenta, panos de fundo a áudios e entrevistas que são amarradas perfeitamente bem ao que é apresentado imageticamente. O espectador é convidado a imaginar lucidamente situações que não possuem nenhuma representação em vídeo. Além disso, as jogadas de aproximações em certos rostos, feições particulares, recortes de fotografias que, possivelmente, estariam atreladas a qualquer outro contexto, como são paralelas a afirmações que navegam por determinado barco argumentativo, também é parte desse trabalho coesivo, imergindo o espectador nesse outro mundo de modo assombroso, decorrente de um entendimento magistral da linguagem cinematográfica.

Para um efeito de entendimento da importância do que é apresentado em tela, se pegarmos os trechos do primeiro filme estrelado pela banda, o clássico A Hard Day’s Night, e o compararmos com as entrevistas e os áudios reais apresentados neste longa-metragem, encontramos uma veracidade absurda de quem cada um daquelas quatro garotos era, bastante autênticos. Quando surgem as primeiras cenas deste filme no documentário, a música homônima, bastante energética, é que embala as imagens. Por outro lado, em Help!, segunda obra estrelada pelos Beatles, o tédio referido pelos representantes do grupo, sem aquela empolgação de estarem desbravando territórios inéditos, é introduzido muito antes de qualquer afirmação ser feita por parte dos garotos, apenas pelo valor das cenas exibidas, vindas do material fonte; a canção é completamente diferente da música, presente no álbum homônimoA Hard Day’s Night, monótona, além dos personagens, no segmento em questão, demonstrarem considerável apatia. Ademais, entre tantas possíveis relações possíveis de serem estabelecidas, a citação ao envelhecimento e amadurecimento precoce dos membros também é aliada com a primeiríssima cena deles com bigodes, algo que é, queira ou não, fortemente simbólico. De Please Please Me, primeiro álbum dos Beatles, a Sargeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band, cultuadíssimo lançamento da banda, tratado mundialmente como o melhor álbum do grupo, lançado já após a última turnê deles, The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years é um passeio maravilhoso, que evidencia transformações profundas, não apenas pontuando as suas meras existências.

Em outro plano, o interesse de Ron Howard, nesse desenvolvimento da história, também é de simpatizar os espectadores com as tais quatro figuras icônicas, sempre relembradas. O público torna-se uma espécie de Larry Kane na história, jornalista que acompanhou os Beatles em uma de suas turnês pelo Estados Unidos e que também retorna ao documentário por meio de entrevistas atuais. A dupla Lennon/McCartney, tanto os compositores musicais, quanto os amigos, é o centro desses holofotes especiais. A evolução na escrita, de I Want To Hold Your Hand, marco inicial da beatlemania nos Estados Unidos, a Girl, canção composta para o álbum Rubber Soul, extremamente contrastante com os que haviam vindo anteriormente, é contemplada perfeitamente bem pelo roteiro, assim como o interesse não apenas da dupla, como do quarteto inteiro, em inovar musicalmente. No campo da amizade, as similaridades entre um e o outro, garotos de Liverpool com o começo da relação datado de anos antes, também são pontuadas. Contudo, The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years não se esquece de George Harrison, integrante da banda com, indiscutivelmente, a melhor carreira solo pós-Beatles, e muito menos de Ringo Starr. No caso de Harrison, há de ser observada a atenção dada pelos documentaristas em apresentar o interesse do músico na cultura indiana e também na composição. Já no de Ringo, combinando a narrativa proposta com as imagens apresentadas, o filme mostra partes da gravação de um show em que Starr canta Boys, uma das poucas músicas do grupo com vocais do baterista, algo que, em alguns termos, pode ser visto como mera exceção a regra, mas que, nesse, é olhado como uma forma de união do quarteto.

Dessa forma, o semblante de The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years é mesmo de união, em um crescente uníssono que, enfim, acabaria sendo dissolvido, fora de cena, em capítulos que ainda viriam a ser narrados pela história. Tal dissolução não faz parte da narrativa de The Touring Years. Os realizadores, sabendo a história que querem contar, não erram ao pensar em um futuro dissonante com o que foi apresentado em tela, tentando englobar tudo de uma vez. Porém, dentre tantos assuntos interessantes abrangidos pelo filme, todos dialogando excepcionalmente bem uns com os outros, aquele que é mais realçado pela narrativa é justamente o mais controverso de todos: o amor do mundo pelos Beatles e o impacto social atrelado a isso. A beatlemania reverbera no peito do espectador de diferentes formas, principalmente com a entrevista concedida por Whoopi Goldberg, que traça uma relação do racismo existente nos Estados Unidos com o significado da presença dos Beatles, um amor compartilhado pelo mundo inteiro, independente de qualquer “barreira” imaginária. Quatro jovens que se negam a tocar em um ambiente segregado; a união também é uma característica nesse escopo. Ao falarmos dos anos 60, a segregação racial é um assunto importante, os assassinatos irrefreáveis, atingindo tanto presidentes quanto atrizes famosas, também são, assim como as guerras incompreensíveis, que dariam início a movimentos subversivos fortíssimos. No começo, no meio e no fim de tudo isso, The Beatles reside temporalmente e atemporalmente, podendo até não ser a melhor banda de todos os tempos – os defensores desse pensamento focam uma dissertação justamente nesses anos de turnê, nesses anos de iê-iê-iê – mas é, definitivamente, a maior e mais importante de todas.

Hold me, love me
Hold me, love me
I ain’t got nothin’ but love babe
Eight days a week

The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years — EUA, 2016
Direção:
 Ron Howard
Roteiro: Mark Monroe
Com: Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon, George Harrison, Larry Kane, Whoopi Goldberg, Elvis Costello, Eddie Izzard, Sigourney Weaver
Duração: 137 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.