Crítica | The Brink – 1ª Temporada

estrelas 3

Séries de veia política são normalmente áridas e de difícil aceitação pelo público em geral. A longevidade vista em West Wing, por exemplo, é coisa rara na televisão e o sucesso instantâneo da versão americana de House of Cards produzida pelo Netflix é fenômeno mais esparso ainda. Mas, quando bem feitas, como nos dois casos citados, o resultado realmente pode não só educativo, como absolutamente inebriante.

Sátiras políticas vão por um terreno ainda mais pantanoso. É difícil lembrar de exemplos realmente bem construídos fora da esfera de influência das incríveis produções britânicas como The Thick of It. No entanto, a HBO já vem testando esse pântano e achando tração desde que colocou no ar em 2012 a bem-sucedida Veep, escrita não coincidentemente por Armando Iannucci, criador de The Thick of It, com Julia Louis-Dreyfus (a eterna Elaine, de Seinfeld) no papel principal.

The Brink é, assim, a mais nova aposta da HBO nesse sub-gênero e, para todos os efeitos, uma jogada ainda mais arriscada. Trabalhando com um elenco bem estabelecido no cinema, encabeçado por Tim Robbins e Jack Black (e contando com Carla Gugino e John Larroquette em papéis menores), os criadores – e irmãos – Roberto (produtor de Weeds) e Kim Benabib enveredam por uma linha bem mais escrachada, tentando arrancar risadas com situações limite dentro de um mundo no limite.

E, estranhamente, em grande parte os irmãos conseguem um resultado competente, talvez por inverterem a lógica do que o espectador espera, com um Jack Black em um papel mais para o lado “sério” e Tim Robbins na direção oposta. Ao subverter as expectativas, a série cria curiosidade e segura o espectador no meio de uma amalucada história que é muito mais próxima da realidade do que podemos imaginar.

Como o título em inglês deixa a entrever, a série lida com questões geopolíticas que deixam o mundo à beira de uma guerra nuclear (the brink of war). O Secretário de Estado dos EUA, Walter Larson (Robbins) é um mulherengo incorrigível que, porém, genuinamente quer evitar – custe o que custar – a destruição do mundo quando um ditador enlouquecido toma o poder no Paquistão. Ele parece ser a única voz da razão no meio de generais e de seu inimigo pessoal, o Secretário de Defesa Pierce Gray (Geoff Pierson), que só pensam em lançar mísseis nucleares ao lidar com qualquer ameaça e que se aproveitam da maleabilidade do presidente americano Julian Navarro (Esai Morales).

Larson joga sujo com ajuda de sua fidelíssima e cúmplice assistente Kendra Peterson (Maribeth Monroe) e recebe a inesperada ajuda de Alex Talbot (Black) funcionário de baixo escalão na Embaixada Americana em Islamabad, no Paquistão, que, para obter ganhos próprios, acaba inadvertidamente envolvendo-se em questões muito mais amplas junto com seu relutante “motorista” Rafiq Massoud (Aasif Mandvi, que também escreveu roteiro para a série). No terceiro vértice do triângulo que marca a série, temos o piloto de caça Zeke “Z-Pack” Tilson (Pablo Schreiber) e seu co-piloto e amigo Glenn “Jammer” Taylor (Eric Ladin).

Em outras palavras, a série é dividida em três núcleos, cada um com uma dupla de personagens, mas todos envolvidos na história macro, ainda que haja espaço para lidar com seus respectivos lados pessoais. E, talvez mais interessante do que a aterrorizante história envolvendo ditadores ensandecidos, presidentes manipuláveis e secretários e primeiros-ministros cujo primeiro reflexo diante de crises é apertar o botão da bomba nuclear, sejam justamente essas histórias pessoais que dão estofo a cada um dos personagens e refletem suas vidas públicas. Larson é um jogador, um mulherengo e um mentiroso que vive um casamento “aberto” com a ambiciosa Joanne (Gugino). Talbot é um egoísta inútil, racista e completamente desapegado do mundo ao seu redor. Finalmente, Z-Pack é um traficante de drogas que trapaceia sua esposa (que é a fornecedora das drogas).

O que os Benabib fazem talvez nem seja melhor classificado como sátira política, pois parece mais série de suspense e terror. Rimos das situações, mas talvez sejam risadas de nervoso. Rimos do absurdo, mas talvez porque, lá no fundo, saibamos que não é tão absurdo assim. Rimos do improvável, mas sabendo que é muito mais provável que queiramos ou aceitemos imaginar.

No entanto, apesar de ser capaz de abrir os olhos, The Brink tem problemas. O mais claro deles é trafegar de maneira inconsistente entre a sátira rasgada e o drama mais pesado. É, sem dúvida alguma, um equilíbrio difícil de atingir e, enquanto os Benabib carregam nas cores hilárias na primeira metade da temporada de 10 episódios, eles perdem um pouco a veia cômica na segunda metade e passam a focar muito mais no político, repetindo gags quando eles precisam desanuviar o ambiente.

Além disso, toda a linha narrativa envolvendo Z-Pack e Jammer soa forçada. Ainda que o primeiro e o último momentos com os dois na temporada sejam circulares e importantes para a narrativa, todo o resto é filler para manter sua relevância em destaque e isso acaba diminuindo e diluindo o impacto das boas piadas que, vale dizer, ficam mais destacadamente ao encargo de Tim Robbins e seu ultrajante – mas irresistível – Walter Larson. Sem dúvida alguma, os Benabib e demais roteiristas não souberam equilibrar a presença de seus núcleos na série e tinham, verdadeiramente, apenas um personagem completo, Larson, que comanda a temporada. Jack Black tem também seus momentos como Talbot, mas seu personagem não tem a mobilidade de Larson, sendo necessárias repetições artificiais de situações já vistas.

A direção geral da série – são sete diretores diferentes, um deles o próprio Robbins – é apenas ok, sem tentativas de chamar muita atenção para si. São tomadas normalmente de câmera única, em planos simples, com apenas alguns momentos mais elaborados como as sequências no Situation Room do presidente americano quando Larson está presente. Mas, para uma série de comédia, os poucos momentos em que os efeitos especiais tornam-se necessários, a produção não desaponta e entrega algo bastante aceitável para os parâmetros artísticos normalmente vistos por aí. São explosões convincentes, embates aéreos bem estruturados e o uso inteligente do chroma-key, tudo, claro, considerando-se que essa não é uma série com ação em sua mira.

The Brink não chega a ser um novo Veep e está longe de um The Thick of It, mas há potencial. Se os Benabib conseguirem distribuir melhor seus diálogos por seus núcleos de personagens, a próxima temporada pode ficar mais equilibrada, ainda que seja importante manter Tim Robbins como o foco diante do divertido trabalho do ator encarnando o Secretário de Estado americano.

The Brink – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Criadores: Roberto Benabib, Kim Benabib
Direção: Jay Roach, Tim Robbins, Jon Poll, Michael Lehmann, J. Michael Muro, Scott Winant, Adam Bernstein
Roteiro: Roberto Benabib, Kim Benabib, Dave Holstein, Jack Kukoda, Sam Forman, Aasif Mandvi, Wes Jones
Elenco: Jack Black, Tim Robbins, Pablo Schreiber, Aasif Mandvi, Maribeth Monroe, Eric Ladin, Geoff Pierson, Esai Morales, Carla Gugino, John Larroquette
Duração: 30 min. por episódio (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.