Crítica | The Cloverfield Paradox

Contém clickbait.

O anúncio de The Cloverfield Paradox, muito provavelmente, é um dos mais inesperados de todos os tempos, não por sua imprevisibilidade no que tange o formato de distribuição, mas em decorrência de seu primeiro trailer vir seguido de seu lançamento em streaming, pela Netflix. O Super Bowl certamente é o evento certo para carregar um acontecimento desse, sendo que boa parte das pessoas o assistindo apenas teria que pegar o controle remoto para embarcar de vez na ficção científica prometida, prelúdio dos filmes anteriores. A mudança de gêneros é extremamente perceptível, e isso é algo frutífero, visto que a franquia não será conhecida, portanto, como redundante em termos de sequências. O filme original de 2008 era baseado nas histórias de catástrofe, um sub-gênero particular de suas próprias convenções, adotando um formato found-footage interessantíssimo para dar molde à narrativa. Já o longa-metragem Rua Cloverfield, 10, munido de mistério devido a falta de informações sobre o que se tratava a obra propriamente dita, além de seu fabuloso trailer, trouxe um ótimo suspense que escorrega em seu final, o qual tentou ser mais grandiloquente do que o filme em si era. The Cloverfield Paradox, por sua vez, é, como prenunciado por esse anúncio bombástico, um produto que nem seus distribuidores acreditaram que ia dar certo, forçando-o por caminhos inéditos, a fim de angariar alguma atenção do público.

Afinal, estamos lidando com os acontecimentos antecedentes à liberação de monstros por cidades, não é mesmo? Qual será a explicação para aquele caos todo? Uau, tem paradoxo no nome do filme. Será que vou sair com a minha cabeça explodida em pedaços? The Cloverfield Paradox decepciona a todos nós, meros mortais em busca de um boa passatempo, fazendo questão de anunciar a “razão” por trás de todos os seus esquemas, logo nos seus 15 minutos iniciais. A premissa, nos conduzindo através de uma estação espacial, entende um acelerador de partículas Shepard como a chave para a restauração do equilíbrio na Terra. É de se esperar que o objeto não funcione, mas a consequência de eventos poderia ter dado margem a uma ficção científica de horror, no estilo de Alien, O Oitavo Passageiro, e não a um longa-metragem óbvio. Pior do que óbvio, desinteressante. Não é por menos que The Cloverfield Paradox encontra seus melhores momentos na metade do filme, quando se arrisca a apresentar mistérios mais substanciais. A criação de questões intrigantes, porém, é uma atitude fácil. O caminho para a resposta e a resposta de fato é que demandam a nossa avaliação crítica. No caso, muitas situações ficam sem explicações claras. Longe de mim querer que tudo seja esmiuçado, mas, frente a uma ficção científica, intencionada a ser a causa de todas as problemáticas posteriores, as respostas inventadas são minimamente frustantes. Isso quando temos respostas.

Fora essas implicações importantes para a mitologia geral de Cloverfield, temos alguns acertos mais funcionais, que nos envolvem, primeiramente, dentro da separação de Hamilton (Gugu Mbatha-Raw) de seu marido, Michael (Roger Davies), destinada a uma missão longeva fora da órbita terrestre. Dentre as omissões por parte do filme, peso e carga dramática bem manipulada pelo diretor Julius Onah são as mais evidentes, mas a artista, nesse caso, sustenta muito bem os dilemas de sua protagonista, transparecendo seus pesares, suas dores e seus arrependimentos, com considerável naturalidade e honestidade. Já Roger Davies recebe muito mais atenção do que precisava, não pela incapacidade interpretativa do ator, muito menos pelo desinteresse nosso em saber o que se passava com ele, mas por falta da mão na direção e no roteiro em não se permitir cair em questões já apresentadas anteriormente na franquia. O foco é mal desenvolvido, tentando, desonestamente, ser mais significativo para a construção de personagens do que é, quebrando, ainda por cima, o ritmo do longa-metragem. Ademais, a presença da personagem Mina Jensen (Elizabeth Debicki) revela-se como decepcionante, ilógica em termos motivacionais, apesar de sua introdução ser excepcional. No que tange os demais membros da equipe, o alemão Schmidt (Daniel Brühl) é o que recebe mais atenção, com o ator segurando bem a barra, apesar de sua figura ser menos interessante do que apontava ser inicialmente – outra decepção.

Por fim, a obra também se sai relativamente melhor na direção do que no roteiro, não por inventividade por parte de Julius Onah, mas por operatividade, visto que todos os truques manjados do gênero estão lá. Questionável, todavia, continua a ser o formato de streaming, não por ser ilógico dentro dos padrões mercadológicos, mas por tirar qualquer tipo de imersão nossa em relação às cenas emaranhadas de efeitos especiais, que parecem ter sido apressados na confecção, como a derradeira. O longa-metragem, fora da órbita, usufruiria de cenas recheadas de adrenalina, com um bom design de som e efeitos especiais, desaproveitados sem isso. O trabalho é indistinto, com um roteiro cheio de reviravoltas irracionais, contemplado por uma ilógica inerente à premissa boba. O caminho certo era esse mesmo; fazer filmes de gênero dentro de uma franquia com portas abertas para qualquer tipo de abordagem, algo que até a explicação mal-acabada de todas permitiria que continuasse existindo. Sendo assim, a Netflix consagra-se como um poço para produtos de baixa qualidade pouco esforçados em serem produtos melhores. Gastando milhões na compra de The Cloverfield Paradox, claramente não havia outra solução para que tal aquisição não se tornasse um desastre multidimensional. A busca por estratégias de marketing diferentes tem, enfim, a plena intenção de que esse filme não se prove para a Netflix a catástrofe, financeiramente, que ele provou ser para nós em termos cinematográficos.

  • Curiosidade: É notável a presença de um brasileiro no grupo, interpretado por um ator não-brasileiro, John Ortiz – custava enfiar o Rodrigo Santoro para fazer mais essa? -, e com um nome estranho. Nem para ser Costa. Inventam de nomeá-lo Acosta.

The Cloverfield Paradox – EUA, 2018
Direção: Julius Onah
Roteiro: Oren Uziel
Elenco: Gugu Mbatha-Raw, David Oyelowo, Daniel Brühl, John Ortiz, Chris O’Dowd, Aksel Hennie, Zhang Ziyi, Elizabeth Debicki, Roger Davies, Clover Nee, Donal Logue, Simon Pegg, Greg Grunberg
Duração: 102 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.