Crítica | The Companion Chronicles – 3ª Temporada

Temos aqui os textos para os 5 episódios finais da 3ª Temporada de The Companion Chronicles, a saber, The Prisoner’s Dilemma (3X08), Resistance (3X09), The Magician’s Oath (3X10), The Mahogany Murderers (3X11) e The Stealers from Saiph (3X12). Eles foram lançados pela Big Finish entre janeiro e junho de 2009 e apresentam aventuras com os companions do 2º (Ben, Polly e Jamie), 3º (Jo, Mike), 4º (Romana) e 7º (Ace e Zara) Doutores, além de uma aventura spin-off — piloto de uma futura série — com Jago e Litefoot, os carismáticos personagens do arco The Talons of Weng-Chiang.
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The Prisoner’s Dilemma

3X08
estrelas 3,5
the prisoners fo dilemma

Equipe: 7º Doutor, Ace, Zara
Espaço: Planetoide Erratoon
Tempo: 2275 (ação no presente)

No presente (2275 ), Ace está em um planetoide chamado Erratoon, um planeta-prisão com um tipo de organização e punição bastante peculiares: os prisioneiros possuem suas memórias apagadas e passam a viver “felizes”, alienados, mesmo que o ambiente à sua volta não seja nada convidativo ou capaz de gerar felicidade em alguém.

Ace já tinha tido suas memórias removidas antes, como podemos ver no livro Timewyrm: Genesys (John Peel, 1991), mas as condições em que isto acontece aqui em The Prisoner’s Dilemma são diferentes e não favorecem em nada a recuperação. O ponto de vista para a história é diverso daquele a que estamos acostumados na série The Companion Chronicles, pois se passa durante a série de livros Virgin New Adventures (1991 – 1997) que tinha por objetivo continuar as aventuras do 7º Doutor (inicialmente ao lado de Ace) após o último arco da série clássica, Survival.

Sem apoio ou perspectiva de ajuda do Time Lord, Ace tenta convencer aos robôs que operam o sistema da prisão a não apagar a memória dela, mas é claro, o pedido é apenas uma formalidade de desespero não é atendida. Nesse princípio, há o encontro com Zara, uma androide fascinada com o fato de estar experimentando “elementos vitais” pela primeira vez. A partir daí a história se constrói, trazendo uma lembrança do passado, quando Ace e o Doutor acompanham um casal até Erratoon, depois de terem sido acusados de roubar um anel do tempo no Trib Museum.

Nós só percebemos depois que toda essa sequência de eventos nos levará para a Chave do Tempo (lembram-se desta saga?) que descobrimos estar em algum lugar de Erratoon. A partir desse ponto, a história começa a se embolar na exposição dos fatos porque a alternância entre os tempos, a busca pela Chave, a situação dos prisioneiros, o desaparecimento do lago (um segmento da chave, disfarçado) e a tentativa de Ace em “se encontrar” acabam se confundido e forçando o espectador a criar pontes rápidas demais entre um ponto e outro. Não é comum na Big Finish haver esse tipo de problema na composição técnica entre os tempos narrativos, mas aqui, infelizmente, isso acontece.

A história não termina, propriamente dito. Ace narra momentos com o Doutor, mas ainda está com suas memórias perdida. Todavia, há uma abertura que permite a colocação dessa recuperação depois de um tempo. Claro que isso depende de cada espectador (alguns preferem não considerar essa história), mas sabendo trabalhar com particularidade de tempo de cada saga, não há problema nenhum. Tudo acaba se encaixando, em algum tempo.

The Prisoner’s Dilemma – The Companion Chronicles 3X08 (Reino Unido, janeiro de 2009)
Direção:
 Lisa Bowerman
Roteiro: Scott Handcock
Elenco: Sophie Aldred, Laura Doddington
Duração: 74 min.

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Resistance

3X09
estrelas 2,5
doctor who resistance

Equipe: 2º Doutor, Polly, Ben, Jamie
Espaço: França de Vichy
Tempo: Fevereiro de 1944

Diferente dos áudios das Companion Chronicles até agora, Resistance não traz um vilão alienígena em um cenário estranho para o Doutor e a tripulação da TARDIS. Toda a ação aqui se passa no penúltimo ano da Segunda Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazistas, e nos coloca diante de um problema moral no estilo “alterar o tempo para salvar um ente querido”, aqui referindo-se especificamente ao tio de Polly.

A história tem um bom início e esquematiza de maneira bastante orgânica a dupla veia narrativa; uma, partindo do “piloto perdido”, e outra, de Polly mais velha, que se lembra dessa aventura com o Doutor ao lado de Jamie e Ben, com um pequeno pesar na voz e na forma como nos apresenta a saga, já que ela vai se encontrar com alguém que esperava ser uma coisa, mas que se revelará outra.

Temos aqui muitas informações sobre a família de Polly, seu passado, seu jovem tio herói de guerra e um drama que parece bem mais da era do Primeiro Doutor do que do Segundo. Trata-se de uma história de convencimento, de oposição entre a opinião da Resistência Francesa e os Colaboracionistas, ideias que afetam o quarteto aqui separado e com peso diferente nas duas histórias, o que não ajuda o espectador a se aproximar mais do que é contado. Há alguma tensão no final, mas isso se perde em meio às reviravoltas entre os narradores e a reintrodução de Ben e Jamie novamente na trama, após conseguirem escapar dos nazistas.

O final da história coloca o Doutor como um conselheiro e observador que sabe guardar silêncio e até conhecimento de determinadas coisas para trazê-las à tona no momento certo. Fala-se de “mudar o passado” mas o roteiro nos faz ver os benefícios de “mudar o futuro”. É uma boa saída para uma produção razoável, com um roteiro frágil naquilo que toma como foco principal e, claro, para uma História nesse momento da humanidade.

Resistance – The Companion Chronicles 3X09 (Reino Unido, março de 2009)
Direção:
 Lisa Bowerman
Roteiro: Steve Lyons
Elenco: Anneke Wills, John Sackville
Duração: ?? min.

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The Magician’s Oath

3X10
estrelas 4

doctor who the magicians oath

Equipe: 3º Doutor, Jo, Mike
Espaço: Londres
Tempo: UNIT — Ano 5

Como é bom ver Mike Yates de volta! Eu sempre defendi que ele teve um “final injusto” na série (coloquei entre parênteses porque o ator Richard Franklin estava mesmo deixando o elenco da série e pediu para que sua saída fosse ‘bem chocante’) e que a Big Finish foi maravilhosa ao trazê-lo de volta em diferentes tipos de aventuras.

Esta aqui, particularmente, carrega um ar de melancolia e solidão que é bem o que eu imaginava de Mike na velhice, especialmente ao falar de seu tempo na UNIT e nas aventuras vividas ao lado do Doutor.

The Magician’s Oath se passa após o arco The Daemons e coloca em cena um vilão que é uma criatura-mestre do crime com o poder de controlar a matéria através do espaço. Exilada na terra e assumindo a profissão de mágico, a criatura se disfarçou em um avatar humano e assumiu o nome de Diamond Jack, que vivia em Londres fazendo inimagináveis truques. O problema é sua presença alterava as condições normais da atmosfera e fazia com que a temperatura baixasse muito. Isso vinha acontecendo já a alguns meses nesse Universo, basta lembrarmos que no arco The Claws of Axos ouvimos a reclamação sobre as “malucas condições do tempo“. Aqui, no entanto, a ação do mágico torna mais intensa a diminuição da temperatura a ponto de haver nevasca no verão e algumas pessoas morrerem congeladas no Hyde Park.

Essa deixa para a ação do Doutor é bem relacionada com a narrativa de Yates, que aborda temas paralelos de seu tempo na UNIT, como o fato de sair para investigar ao lado de Jo e como ele nutria sentimentos por ela — eis aí outro ponto pelo qual não dá para perdoar a BBC. Eles deveriam ter partido juntos, oras!

No final da trama, quando o vilão passa a ser vencido e a questão da memória vem para resolver essa percepção da realidade, a história se perde um pouco, pois passa para uma colocação solta do pessoal da UNIT (até do Doutor) nesse jogo, o que não acaba sendo algo ruim, mas é um empecilho para que vejamos a resolução de forma mais inteligente e instigante. De todo modo, é muito boa a ideia de termos um mágico-alien cuja presença muda as condições do tempo em uma grande cidade…

Esse momento do passado volta para Mike através de uma carta deixada por Jo, que enfim se lembrou de tudo, após tantos anos com sua memória apagada dos eventos que aconteceram aqui. Mesmo tropeçando na parte final, com o enfrentamento final com vilão, o bloco da narração de Mike é a cereja do bolo dessa aventura.

The Magician’s Oath – The Companion Chronicles 3X10 (Reino Unido, abril de 2009)
Direção:
 Nigel Fairs
Roteiro: Scott Handcock
Elenco: Richard Franklin, Michael Chance
Duração: 67 min.

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The Mahogany Murderers

3X11
estrelas 2,5

themahoganymurderers

Equipe: Jago & Litefoot
Espaço: Londres
Tempo: Anos 1890

Jago & Litefoot fizeram a sua primeira aparição em Doctor Who no arco The Talons of Weng-Chiang e caíram nas graças do público, tornando-se também bastante populares para os novos espectadores da série clássica. Suas aparições na Big Finish ao lado do 6º Doutor, que precederam este episódio, tiveram boas críticas e a empresa cogitou fazer uma aventura apenas com eles, talvez para testar se podiam, juntos, segurar uma história inteira e qual seria a reação dos whovians a ela. Assim nasceu The Mahogany Murderers, um episódio-piloto da BF para uma possível série estrelando Jago & Litefoot, que devido à excelente recepção, acabou mesmo acontecendo.

Os menos atentos à proposta podem achar estranho haver um teste da BF em uma série já estabelecida e de bastante sucesso como The Companion Chronicles, mas não podemos nos esquecer que a dupla de londrinos vitorianos já havia viajado ao lado do Doutor, então eram, sim, companions, mesmo que por pouco tempo. Devido a isso, o formato do episódio é diferente, pois não tem uma ação direta ligando-os ao Time Lord, apenas uma citação breve da relação que tiveram desde o primeiro encontro e como aprenderam a lidar com o fantástico e o desconhecido.

Aqui, ambos estão afastados por um certo período de tempo, talvez meses. De cara, temos uma oposição curiosa entre a condição financeira e classe social que afastavam o patologista George Litefoot do showman, dono de um teatro, Henry Gordon Jago. Ambos muito ocupados com seus trabalhos, deixaram passar o tempo, até que se juntaram novamente para conversar sobre algo que tinham passado recentemente.

O enredo é divertido e mostra uma velha camaradagem entre eles. As faixas temporais que se ajustam de maneira nada óbvia também são interessantes. Demora um pouco para que o ouvinte conecte uma ponta a outra, mas ao fazer, a história se torna mais gostosa de se acompanhar. O problema em todo esse trajeto vem com as interrupções de um e outro personagem e a forma como eles se lembram da aventura com o Dr. Tulp e seus experimentos com “perfeitos manequins humanos de madeira“.

O roteiro de Andy Lane nos faz rir em muitos momentos, além de vender facilmente a relação entre os dois amigos. Não fossem as interrupções, teríamos um problema a menos e talvez recebêssemos melhor a intricada união entre as camadas temporais, em que momento da história um encontra o outro e como esse encontro se liga com o problema principal e a atual conversa deles, em um pub. Por essas duas grandes barrigas, a história acaba estacionando apenas no meio do caminho da qualidade, mas a produção, o humor e o “fator bizarrice” associado a eles e seu universo nos encantam e não há dúvidas de que servem como impulso para que acompanhemos a série solo. Mesmo acertando pouco, a diretora Lisa Bowerman conseguiu entregar um produto interessante, capaz de prender o leitor. No fim das contas, tudo o que se quis, foi conseguido, embora não do melhor modo.

The Mahogany Murderers – The Companion Chronicles 3X11 (Reino Unido, maio de 2009)
Direção:
 Lisa Bowerman
Roteiro: Andy Lane
Elenco: Christopher Benjamin, Trevor Baxter, Lisa Bowerman
Duração: 70 min.

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The Stealers from Saiph

3X12
estrelas 3

thestealersfromsaiph

Equipe: 4º Doutor, Romana
Espaço: Antibes, França
Tempo: Verão de 1929

Parece que o final desta 3ª Temporada das Crônicas do Companions concentrou mudanças interessantes da Big Finish para a forma como apresentar os episódios. Primeiro, o teste (que se tornaria um Piloto) com a dupla Jago & Litefoot na Londres do século XIX, uma aventura sem Doutor. Depois, uma trama centrada unicamente em Mary Tamm, adotando três pontos de vista narrativos e simplesmente destruindo em todos eles, entregando uma das melhores atuações que tivemos na temporada.

Antibes, França, Verão de 1929. O 4º Doutor e Romana estão tirando uma pequena folga de suas aventuras após finalizarem a busca pela chave do tempo em The Armageddon Factor e, como sempre, as coisas parecem boas demais para ser verdade. Em pouco tempo, algo muito estranho estranho começa a acontecer. Eles não dão muita atenção para os sinais e depois pagam o preço por desprezarem os avisos meio insanos de alguém que de fato estava tentando apontar o perigo. Esta pessoa é Madame Arcana, que por várias vezes diz que “as estrelas não estão brilhando direito“. Suas tentativas de mostrar isso oficialmente ao Doutor — que estava ocupado demais com suas pinturas — falham miseravelmente.

O roteiro de Nigel Robinson segue uma boa linha de humor a partir do Complexo de Cassandra em torno de Madame Arcana. Isso funciona bem na primeira parte do episódio, mas depois se perde um pouco, especialmente quando o inimigo da vez, a forma Gestalt chamada Saiph, originária da Constelação de Órion, começa a agir de forma mais intensa, dominando algumas pessoas e mudando o seu comportamento temporariamente. O modelo de invasão é bom, porque foge ao estilo de megalomania que algumas história de DW encerra, o que é ótimo. Todavia, existem muitas coisas em jogo: uma caverna Neolítica (falsa), um influente e suspeito professor, uma mulher um pouco maluca e alguns coadjuvantes que servem de ligação entre esses protagonistas, o Doutor e Romana.

Como dito antes, a forma narrativa é um pouco diferente das que estamos acostumados nas CC, não tendo a coluna pessoal e confessional da companion de início. Para quem estava esperando uma maneira diferente de olhar as histórias, claro que isso é muito bom, principalmente porque Mary Tamm assume de maneira espectacular todas as linhas e todos os personagens que interpreta.

The Stealers from Saiph é uma história que mixa astronomia com invasão alienígena, um certo tom de horror na forma de pentagrama celeste que é reconhecido por Romana e o encontro final que ela e o Doutor tem com os Saiph. A resolução é amarga e nos deixa um pouco tristes. Eis uma das vantagens da Big Finish ter liberdade para fazer suas histórias sem intervenção ou obrigatoriedade de grandes alegrias ao final. Mesmo com um desenvolvimento dotado de algumas lombadas (os muitos afluentes narrativos relacionados aos Saiph), a história é um bom momento de desalento — sim, eu sei que é estranha essa frase, mas é exatamente isso — de Romana ao lado do Doutor.

The Stealers from Saiph – The Companion Chronicles 3X12 (Reino Unido, junho de 2009)
Direção:
 Lisa Bowerman
Roteiro: Nigel Robinson
Elenco: Mary Tamm
Duração: 70 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.