Crítica | The Crown – 2ª Temporada

  • Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Com sua segunda temporada, The Crown parece mesmo sedimentar-se como uma das melhores séries históricas da televisão, quiçá até mesmo uma das melhores séries dramáticas já feitas. Tenho plena consciência de que a afirmação pode ser prematura, mas, a julgar pelo material até agora disponibilizado, creio que, quando o projeto encabeçado pelo tarimbado Peter Morgan completar suas projetadas seis temporadas, cada uma cobrindo 10 anos do reinado da Rainha Elizabeth II, teremos um retrato minucioso e intimista da Coroa Britânica em fascinantes detalhes históricos.

Sem mexer em time que está ganhando, Morgan continua a trabalhar de forma episódica, talvez até mais fortemente nesta temporada do que na anterior. Sem Winston Churchill (o fenomenal trabalho de John Lithgow não será esquecido, ainda que faça falta) para servir como a visão de governo sobre a Coroa, há muito mais foco no seio da família real, permitindo que Lilibet ganhe algum descanso da objetiva da câmera, com diversos episódios focando em seu redor e como o comportamento dos membros de sua família e das mais diversas autoridades afeta a Coroa e pessoalmente a rainha.

Assim, um grande espaço é dado a Matt Smith como o Duke de Edimburgo, marido de Elizabeth e também a Vanessa Kirby como a princesa Margaret, irmã da rainha e ambos ocupam perfeitamente suas funções alargadas, com especial destaque a Smith, já perfeitamente adequado ao seu desconfortável papel de enfeite real. É assim, aliás, que a série começa, com os três episódios iniciais enquadrados no presente (da série, no caso a segunda metade dos anos 50 nesse começo), com um conflito entre o casal real que é explicado em flashbacks detalhando a viagem de cinco meses de Philip pelas colônias britânicas mais remotas a pedido de sua esposa.

Elegantemente, com o uso da figura de Mike Parker (Daniel Ings), melhor amigo e secretário pessoal de Philip, os roteiros da trinca inicial de episódios lidam com o delicado tema da infidelidade. Há um enorme cuidado em não atacar o duque diretamente, ainda que o texto não deixe espaço para dúvidas e nem tente distanciá-lo da culpabilidade. Há uma crítica forte, mas há, também, a constatação da inquietação no âmago de Philip, algo que já havia ficado sobejamente claro na primeira temporada, mas que ganha contornos ainda mais dolorosos aqui. Apesar de compreender sua posição na hierarquia da família real, apesar de ter dado a impressão de ter se acostumado com isso, a grande verdade é que o Duque de Edimburgo simplesmente não consegue aceitar ser tratado – não pela rainha que fico claro! – como um fantoche, como um ser sem importância alguma no cenário da Coroa além de ser o “marido da regente”.

Se olharmos além desse conflito, podemos interpretar essa abordagem como uma excelente e ferina crítica à posição da mulher na sociedade. Afinal, quantos filmes, quantas séries, quantos vezes vivenciamos no dia-a-dia exatamente a situação de Philip, só que ao contrário, com a mulher tomando um lugar à sombra de seu marido? É uma fascinante proposição que funciona perfeitamente das duas maneiras: como um atestado do peso da Coroa que massacra qualquer um que esteja a seu redor e, também, como um recado do tipo “olha o que muitas mulheres sentem em seu dia-a-dia”. De forma a espelhar esse começo, o mesmo assunto macro tratado nos episódios iniciais volta, então, no episódio 10, trazendo uma circularidade perfeitamente satisfatória para a temporada.

A natureza episódica da série continua com um episódio 4 focado quase que integralmente em Margaret e sua solidão profunda depois que sua união com Peter Townsend (Ben Miles) foi negada na temporada anterior. Entregando-se à esbórnia – ou o mais próximo disso que uma princesa pode fazer – ela não vê saída para sua situação até que conhece o charmoso fotógrafo Antony Armstrong-Jones (Matthew Goode). É nesse episódio que Vanessa Kirby consegue ter espaço para desabrochar de verdade na personagem, com uma performance arrebatadora em sua sinceridade e melancolia que deságua nos eventos abordados com frieza no episódio 8, que faz par com o 4.

O episódio seguinte lida com o famoso escândalo proporcionado por Lorde Altrincham (John Heffernan), que usa seu jornal para criticar a realeza. A questão é que ele é alguém “de dentro” do círculo monárquico criticando o símbolo máximo da monarquia, depois que Elizabeth faz um terrível discurso na fábrica da Jaguar. Mas Altrincham não é um crítico “por criticar”. Seu olhar sobre o peso da tradição para a Coroa e o quanto isso a distanciou da realidade é algo que põe em xeque a função da monarquia constitucional, ainda que ele de forma alguma queria a mudança de regime. De certa maneira, Altrincham dá voz ao que sentimos sobre uma instituição belíssima, mas incrivelmente anacrônica como essa.

Falando do anacronismo da monarquia, o episódio 6 nos dá um vislumbre do arrependimento do ex-rei e agora Duke de Windsor, David (Alex Jennings, mais uma vez incrível em seu papel). Usando como catalisador a tentativa de obtenção da benção da rainha para ele sair do exílio e trabalhar para o governo britânico, o ousado roteiro nos leva a flashbacks para os estertores da Segunda Guerra Mundial em que documentos nazistas são recuperados pelos americanos, mas enterrados pelo então rei e irmão de David, em uma sequência em que vemos novamente Jared Harris e John Lithgow em seus memoráveis papeis. É fascinante – e assustador – ver como o passado da Coroa britânica resvala – mais até que isso – com o regime ditatorial de Adolf Hitler, temática essa novamente abordada, mas desta vez em relação a Philip, no episódio 9, que lida com o envio do príncipe Charles (o jovem e promissor Julian Baring) para a espartana escola Gordonstoun, bem diferente dos privilégios intrínseco a Eton, para onde sua mãe quer enviá-lo. Vemos não só mais a interação nazista com o passado da coroa, como o delineamento de quem seria Charles no futuro.

Talvez, porém, o ponto alto desta já estupenda temporada seja o episódio 8, lidando com a famosa visita do casal Kennedy à Londres, depois que Jackie (Jodi Balfour) encanta o presidente francês, abafando o próprio JFK, surpreendentemente vivido pelo eterno Dexter, Michael C. Hall. Trata-se de um episódio que coloca Jackie como alvo da admiração geral da população britânica e da inveja de Elizabeth, inveja essa que logo se torna também carinho e admiração, mas que uma reviravolta muda completamente a opinião  da rainha. Esses eventos a catapultam para um suicídio político em que ela tenta pessoalmente reverter a crise em Gana, com seu presidente Kwame Nkrumah entregando o país aos soviéticos. É um episódio que toca certeiramente nas teclas da manipulação política e, principalmente, da emoção, permitindo que Claire Foy mastigue completamente o cenário com sua atuação que, se já merecia todos os prêmios antes, aqui mostra que ela não tem par em sua geração.

Aliás, falando em Foy, não poderia deixar de abordar a forma como ela trabalha sua personagem na segunda temporada. Se, antes, o que víamos era uma jovem tentando suportar o peso de sua coroa, agora ela simplesmente é a rainha Elizabeth como a conhecemos de filmagens e fotos em nosso distante dia-a-dia. A forma como ela anda e usa suas mãos e braços é assustadoramente próximo da verdadeira rainha, em um trabalho de atuação que faz realmente cair o queixo. E o mesmo vale para suas expressõe faciais. Mesmo que a personagem em si tenha menos destaque nesta temporada do que na anterior, algo que vejo positivamente, vale dizer, o que ela consegue alcançar é realmente emocionante. Sem poder manifestar os sentimentos de Elizabeth claramente, Foy trabalha com sutilezas, com pequenos movimentos de boca, olhos e movimentos mínimos de cabeça. Isso fica evidente não só no episódio 8, como também em cada revelação importante, seja sobre a infidelidade de Philip, seja sobre o passado ligado com o nazismo de seu tio. Palmas de pé para a atriz, pois ela merece.

Eu poderia escrever muito mais sobre The Crown. O design de produção (as sequências na Alemanha pré-guerra valem especial destaque), a trilha sonora, os figurinos, a montagem, absolutamente tudo funciona à perfeição aqui, como tive oportunidade de abordar de maneira até superlativa na crítica anterior. É um privilégio poder mergulhar nesse misterioso mundo da monarquia moderna britânica com tantos detalhes a ponto de nos fazer sentir que conhecemos cada personagem. Peter Morgan faz o trabalho de sua vida aqui e que, espero, continue com o mesmo nível de qualidade agora que o elenco principal mudará para a terceira temporada, já que o showrunner quis evitar o uso de maquiagem envelhecedora no elenco, decisão que considero tão acertada quanto perigosa e ousada. Vida longa à Rainha!

The Crown – 2ª Temporada (EUA/Reino Unido – 08 de dezembro de 2017)
Criação: Peter Morgan
Direção: Philip Martin, Benjamin Caron, Philippa Lowthorpe, Stephen Daldry
Roteiro: Peter Morgan, Amy Jenkins, Tom Edge
Elenco: Claire Foy, Matt Smith, Vanessa Kirby, Victoria Hamilton, Alex Jennings, Daniel Ings, Lia Williams, Greg Wise, Anton Lesser, Matthew Goode, Gemma Whelan, John Heffernan, Paul Sparks, Michael C. Hall, Jodi Batour, Burghard Klaussner, Finn Elliot, Julian Baring, Pip Torrens, Harry Hadden-Paton, Jared Harris, John Lithgow, Danny Sapani
Duração: 60 aprox. (cada episódio – 10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.