Crítica | “The Desired Effect” – Brandon Flowers

estrelas 5,0

Brandon Flowers, vocalista da conhecida banda americana The Killers, revelou em uma entrevista que quando decidiu gravar seu primeiro álbum solo, Flamingo, a gravadora lhe bombardeou com estudos, relatórios e estatísticas que provariam o quão desastrosa seria essa empreitada. Flowers revelou que, com isso, se sentiu um pouco desencorajado, mas que possui uma “quantidade estranha de auto-confiança que ele mesmo não sabe de onde vem”. Flamingo, então, nasceu em 2010 e teve uma receptividade morna por parte da crítica.

Cinco anos depois, The Desired Effect surge acompanhado de músicos de destaque como Neil Tennant do Pet Shop Boys, Danielle Haim, Joey Waronker (que trabalha com Beck) e Carlos Alomar (guitarrista que trabalhou na maioria dos álbuns de David Bowie), juntamente com produtores que já trabalharam em álbuns de artistas como Arctic Monkeys, Smashing Pumpkins, Vampire Weekend, HAIM e a própria banda de Flowers, The Killers. Esse supertime inspiradíssimo nos entrega um álbum que pode ser considerado, no mínimo, surpreendente.

A apoteótica canção Dreams Come True abre o trabalho e quando a voz marcante de Brandon Flowers toca nossos ouvidos, a sensação imediata é de que coisas grandes virão adiante. Com seus coros e instrumentais estonteantes, a grandiosa faixa de abertura tem a função de ser abre alas para a experiência musical que será The Desired Effect, e faz isso muito bem. Logo nessa primeira faixa, é facilmente perceptível a felicidade e a liberdade criativa de Flowers em relação ao projeto.

As nove músicas que se seguem são todas extremamente inspiradas, bem trabalhadas, com base num pop retrô típico dos anos 80 e da era new wave, e demonstram a influência de artistas como David Bowie e Mick Jagger no vocalista. Brandon usa e abusa de sua voz – que casa perfeitamente com o pop –, de backing vocals muito competentes e até do famigerado auto tune, sem jamais soar exagerado ou comprometer a qualidade e coesão musical do álbum. É impressionante como o vocalista imprime personalidade e escancara identidade em suas canções… Can’t Deny My Love é uma aula de como fazer pop de qualidade; é uma música poderosa que hipnotiza, mas que ao mesmo tempo, é daquelas que fazem a gente se esgoelar no show, cantando seu potente refrão a plenos pulmões. Mais uma vez, a facilidade com que a voz de Flowers casa com a batida eletrônica – coisa que já podia ser facilmente percebida com diversas músicas da The Killers – impressiona. O cantor está a vontade da primeira à última nota e a sensação de que The Desired Effect é um projeto que ele entrega de corpo e alma, de realização pessoal mesmo, é evidente.

Outros destaques ficam por conta da diferente I Still Want You, uma das canções que mais demonstram essa sonoridade retrô; a incrível balada I Can Change, que parece saída diretamente de um disco oitentista e que embalaria facilmente uma discoteca; a excelente Lonely Town, na qual os vocais fazem um uso interessante do auto tune, além de destacar um backing vocal delicioso, que alcança notas altíssimas ao fundo… É tudo muito bem encaixado e produzido, resultando num deleite para os ouvidos.

The Desired Effect (“O efeito desejado”) faz jus ao nome: Brandon Flowers consegue nos passar, da primeira à última canção, a vontade que tinha de realizar esse projeto, assim como demonstrar que está muito à vontade em fazer pop e que sim, tem talento de sobra para tocar uma carreira solo se a The Killers chegar ao fim. Agora, a crítica especializada se rendeu.

Aumenta! I Can Change
Diminui!
Minha canção favorita do álbum: Can’t Deny My Love

The Desired Effect
Artista: Brandon Flowers
País: Estados Unidos
Lançamento: 15 de maio de 2015
Gravadora: Island e Virgin EMI
Estilo: Pop, synthpop, new wave, alternativo

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira