Crítica | The Deuce – 1ª Temporada

Há muito o que falar de The Deuce e talvez seja mais justo começar com seu pedigree. Em primeiro lugar, trata-se de uma produção da HBO, canal conhecido pelo esmero de seu material próprio que, em matéria de séries de TV, praticamente reinventou o conceito em 1997 com Oz e, dois anos depois, com Família Soprano. Em segundo lugar, mas de forma alguma menos importante, The Deuce é o mais novo fruto das mentes de David Simon e George Pelecanos.

Se esses nomes não trazem lembranças, talvez sua prole televisiva traga. Simon, ex-jornalista do caderno municipal do Baltimore Sun, usou suas experiências cobrindo o dia-a-dia de crime nas ruas da cidade para escrever o livro Homicide: A Year on the Killing Streets que abriu as portas para sua entrada na televisão como produtor e roteirista com a premiada série Homicide: Life on the Street, que durou sete temporadas. Antes mesmo de Homicide acabar, em 1997 ele trouxe à lume a minissérie The Corner, marcando seu primeiro trabalho para a HBO. Seu segundo trabalho para o canal, agora também como showrunner e em sua primeira parceria com George Pelecanos, autor de romances detetivescos, foi, nada menos do que aquela que pessoalmente considero uma das duas melhores séries de TV já feitas, The Wire, que teve cinco brilhantes temporadas. Generation Kill e Show me a Hero foram os trabalhos seguintes de Simon e Treme marcou a reunião dos dois pós-The Wire.

Em todas essas obras, algumas características se sobressaem. A mais evidente delas é o realismo absoluto, especialmente no que toca a manutenção das séries em um nível humano, denso, imediatamente relacionável. Esse aspecto leva à segunda característica: não são obras fáceis de se assistir. Mesmo The Wire, o ponto alto na carreira dos dois, nada completamente contra o nefasto hábito de se assistir séries em velocidades meteóricas. Realismo significa que vemos a vida como ela é e a vida não é feita de tiroteios heroicos em que o protagonista acima de qualquer suspeita é baleado três vezes e mesmo assim consegue derrotar os vilões, que sempre são monstros amorais. Realismo é “ruim”, pois nos aproxima de um dia-a-dia que, lá no fundo, não queremos ver e conhecer, mas que Simon e Pelecanos esfrega em nossas caras de maneira sutil e dolorosa, marcando-nos para sempre.

E The Deuce, criação dos dois, que também agem na qualidade de showrunners, não foge à essa regra. Na verdade, temos na mais nova série da HBO o potencial de estarmos diante de algo que, ao longo do tempo, poderá rivalizar The Wire como o ponto alto da carreira da dupla, aboletando-se lá em cima, no panteão de séries que simplesmente refazem conceitos e se tornam exemplos de evolução do meio.

Passada nos anos 70 em Manhattan, mais especificamente na região então conhecida como The Deuce, quadrilátero formado pela Rua 42 entre as Sétima e Oitava Avenidas, a série trafega no cenário local de prostituição de rua e no nascimento da indústria de filmes pornográficos. Para fotografar esse momento histórico e abordar seu drama, Simon e Pelecanos fazem uso de algumas linhas narrativas que tangenciam, mas não realmente – ao menos nesta primeira temporada – se interpenetram.

O motor da série fica em Vincent “Vince” Martino, o recém-separado dono de um pequeno bar apadrinhado pela máfia italiana e em Eileen “Candy” Merrell, prostituta sem cafetão que andas as ruas da cidade. O terceiro vértice narrativo, talvez levemente atrás dos outros dois, é a investigação jornalística empreendida por Sandra Washington sobre a vida das prostitutas e que logo evolui para algo mais.

No núcleo de Vincent, vivido por James Franco, o olhar é mais eclético e generalista para a empreitada mafiosa de tomar conta da noite da cidade, vagarosa, mas certeiramente colocando suas garras no lucrativo mercado de prostituição e produtos agregados, como os filmes semi-pornográficos (que não são completamente explícitos, já que a lei os proibia) que são exibidos em nickelodeons por todo local. Lá, vemos Vincent, seu irmão gêmeo viciado em jogo Frankie (também Franco) e seu cunhado empreiteiro Bobby Dwyer (Chris Bauer) cada vez mais enfronharem-se com a máfia representada por Rudy Pipilo (Michael Rispoli) e seu braço direito Tommy Longo (Daniel Sauli), com a jovem Abigail “Abby” Parker (Margarita Levieva), estudante e representante da aristocracia novayorkina largando a vida de privilégios e aproximando-se de Vince.

Candy, vivida por Maggie Gyllenhaal, é nosso olhar mais detido para a prostituição e o que ela exige da mulher, além de servir de veículo para os bastidores da indústria de filmes pornográficos e para o afrouxamento da jurisprudência que definia obscenidade nos EUA (uma fascinante discussão jurídica em que, porém, sabiamente, a série não se aprofunda). É por meio da personagem, que gradativamente vai ganhando mais proeminência, que entendemos os meandros dessa complicada vida pelas ruas, ganhando a vida com seu próprio corpo.

Sandra (Natalie Paul) representa o lado detetivesco da história, que lida mais diretamente com a corrupção policial na medida em que ela começa a entender as batidas que acontecem de tempos em tempos em meio às prostitutas e na medida em que ela alicia a ajuda do policial Chris Alston (Lawrence Gilliard Jr.), talvez o menos corrupto e mais humano da 14ª Delegacia de Polícia. Na verdade, a construção narrativa nesse pequeno núcleo seguem também duas linhas, uma com Sandra e outra com Alston e seu parceiro Danny Flanagan (Don Harvey), que convergem um pouco mais para frente.

É importante entender, porém que, quando digo que os núcleos são apenas tangenciais, nunca realmente se cruzando, não quero de forma alguma afirmar que são histórias soltas. No melhor estilo que os showrunners ajudaram a estabelecer, cada história é uma peça de um quebra-cabeças única ou um tijolo de Lego essencial para a construção do todo. Apenas a visão das três histórias principais é que permite uma visão completa do todo cuidadosamente costurado por Simon e Pelecano, que lida com bem mais do que apenas seu valor de face, mergulhando profundamente não só na corrupção policial e nos mercados da prostituição e filmes pornográficos.

E essa visão do todo só é realmente possível com o maravilhoso recheio que ocupa organicamente os espaços entre cada núcleo: o mundo amplo das prostitutas e seus cafetões que colorem a temporada com personagens inesquecíveis como as “mulheres de vida fácil” Thunder Thighs (Pernell Walker), Lori (Emily Meade), Darlene (Dominique Fishback), Ashley (Jamie Neumann) e seus “homens” C.C. (Gary Carr), Rodney (Method Man), Reggie Love (Tariq Trotter). Aqui é que os roteiros ganham força em um incrivelmente sutil trabalho de retratar a realidade de forma a nos manobrar para aceitarmos os cafetões como alívios cômico quando eles são, na verdade, exploradores de mulheres, por vezes extremamente violentos, em uma representação que nos obriga a refletir profundamente sobre cada uma das mulheres que são estudadas, em uma assustadora relação de dependência que nos atrai ao que vemos na mesma proporção que nos afasta daquele submundo. Como disse mais acima, Simon e Pelecanos pegam a realidade e a desnuda diante de nossos rostos, obrigando-nos a assistir com armadilhas fantásticas de roteiro que fisgam o público apesar dos assuntos pesados e desagradáveis que, brilhantemente, ecoam nos dias de hoje mais do que perfeitamente (basta, para isso, lembrar do diálogo de dois cafetões, em tarefa de recrutamento na Penn Station, sobre Nixon).

Mas, debaixo das camadas narrativas objetivas e urbanas – prostituição, máfia, bares, pornografia – existem as verdadeiras mensagens que Simon e Pelecanos querem sutilmente passar ao longo dos oito longo episódios da série, mensagens essas que ecoam também hoje em dia, por mais que Candy insista em dizer que “o mundo está mudando”. Quando olhamos de verdade para o show diante de nossos olhos, percebemos uma narrativa repleta de machismo, misoginia, homofobia, violência contra a mulher e racismo tratada completamente sem filtro, doa a quem doer, sem que a série curve-se ao politicamente correto. Ela nos leva à Nova York dos anos 70 em que negros policiais simplesmente não podiam almejar ser mais do que policiais de rua e isso dito com todas as palavras por seus superiores. Ou em que mulheres eram propriedades que só eram defendidas e protegidas quando caracterizadas como tais, mesmo que estejamos lidando com personagens fora do eixo cafetão-prostituta, como o próprio protagonista Vince, em sua relação com sua ex-esposa e também com Abby. E, da mesma forma, no cenário homossexual presente na narrativa – com o barman de Vince, Paul Hendrickson (Chris Coy), servindo de vetor – sentimos a opressão em volta daqueles que vivem uma vida que simplesmente precisava ser marginal, escondida e trancada a sete chaves. Agora conjuguem os verbos que usei acima no presente e vejam se não há um diálogo perfeito com o que nos deparamos nos dias de hoje. Olhamos para o passado para entender o que vivemos e não, The Deuce não se aplica só ao quadrilátero onde se passa a série, ou à cidade ou mesmo somente ao país. Vamos bem além que começaremos a usar de verdade aquilo que aprendemos de forma crua em oito episódios.

Com capítulos longos abordando matérias desagradáveis, a produção precisava esmerar-se na imersão visual completa do espectador. Para isso, o trabalho de direção de arte, aí incluídos os cenários, locações, maquiagem e figurinos, é absolutamente soberbo em sua reconstrução de uma Nova York decadente em que o que impera é o lixo, tanto da variedade descartável, quanto humana. Papéis no chão, lojas decantes, becos escuros e perigosos, carros caindo aos pedaços, letreiros coloridos desorganizados constroem a cidade como uma personagem com vida própria, em um retrato bem diferente da Nova York que vemos em Mad Men por exemplo, série de época que não se passa tanto tempo antes assim de The Deuce. Os figurinos extravagantes dos gigolôs e mínimos das prostitutas, o  brega-chique dos mafiosos e o tipo “dono da noite” de Vince, Frankie e Bobby emprestam um belíssimo grau de veracidade ao que vemos e ao mesmo tempo o que esperamos, brincando com estereótipos e mostrando-nos vida borbulhante na nojeira das ruas.

Falar do elenco é chover no molhado. Mas The Deuce tem uma característica rara para uma série de TV: dos personagens com mais presença de tela até aqueles que ganham exposição mínima, vê-se um elenco absolutamente perfeito em cada detalhe. James Franco e Maggie Gyllenhaal estão, sem dúvida, nos melhores papéis de suas respectivas carreiras e isso não quer dizer pouco pelo menos para Franco. Mas, se dos atores mais famosos já esperamos algo assim, é dos menos conhecidos que vêm as surpresas, com a enternecedora Dominique Fishback, a toda cheia de si Pernell Walker, o multifacetado Gary Carr e o divertidíssimo Michael Rispoli, somente para citar alguns. É como se os showrunners fossem regentes de uma orquestra de atores perfeitamente afinada apresentando sua obra máxima.

Sei que não parei de elogiar a série, mas é que realmente suas qualidades ofuscam seus pequenos problemas, se é que posso chamá-los verdadeiramente de problemas. O primeiro deles é a necessidade dramática de James Franco viver os gêmeos Vince e Frankie. Nada no roteiro exige que Vince tenha um irmão gêmeo ou mesmo um irmão, a não ser, lógico, uma espécie de representação viva do significado gramatical de deuce (“dois”, “duplo”), mesmo que por trás se tenha tentado mostrar que os dois são lados opostos de uma mesma moeda, algo para lá de clichê. Pareceu-me muito mais um desafio para o ator do que algo que seja organicamente inserido na narrativa. E, pior, os dois são absolutamente idênticos: mesmo cabelo, mesmo bigode, mesmo tipo de figurino. No começo, com Vince com um hematoma no rosto, a diferenciação é mais objetiva, mas, depois, confesso que me confundi algumas vezes sem entender exatamente o porquê dessa escolha. No entanto, por outro lado, esse caminho não é um empecilho à temporada de forma alguma, apenas um detalhe que, pessoalmente, achei que podia ter sido evitado.

O segundo aspecto é muito mais um aviso do que um defeito. Quem conhece os trabalhos anteriores especialmente de David Simon perceberão de cara que The Deuce é uma série de queima lenta, em que cada personagem e cada situação é calmamente desenvolvido. Não existe “ação” propriamente dita, já que o realismo impera e governa a série do começo ao fim. No entanto, diferente por exemplo de The Wire, em que cada temporada contava com um arco fechado específico, com um mega-arco perpassando toda a história, a primeira temporada de The Deuce quase parece, toda ela, um preparativo para a segunda temporada. O espectador fica esperando, por exemplo, que os episódios abordem a indústria de filmes pornográficos (que consta de todas as sinopses da série, vale dizer), mas essa questão, apesar de sempre presente, é trabalhada muito aos poucos, somente ganhando alguma ênfase da metade em diante. Ao final, quando chegamos ao último episódio, a temporada acelera e o roteiro cai em algumas armadilhas que também poderiam ter sido evitadas, como a inserção de uns três ou quatro novos personagens e a construção de uma outra linha narrativa que potencialmente será explorada mais adiante.

Mesmo com pequenos problemas – se os classificarmos assim, vale repetir – The Deuce é, em seu conjunto, um primor de série. Ainda é cedo para dizer se ela estabelecerá um novo parâmetro pelo qual séries futuras deverão ser medidas, mas que Simon e Pelecanos estão se esforçando para conseguir isso, ah, com certeza estão.

The Deuce – 1ª Temporada (EUA – 10 de setembro a 29 de outubro de 2017)
Criadores e showrunners: David Simon, George Pelecanos
Direção: Michelle MacLaren, Ernest Dickerson, James Franco, Alex Hall, Uta Briesewitz, Roxann Dawson
Roteiro: George Pelecanos, David Simon, Richard Price, Lisa Lutz, Will Ralston, Chris Yakaitis, Marc Henry Johnson, Megan Abbott
Elenco: James Franco, Maggie Gyllenhaal, Gbenga Akinnagbe, Chris Bauer, Gary Carr, Chris Coy, Dominique Fishback, Lawrence Gilliard Jr., Margarita Levieva, Emily Meade, Natalie Paul, Michael Rispoli, Pernell Walker, Method Man, Tariq Trotter, Daniel Sauli, David Krumholtz, Don Harvey, Mustafa Shakir, Anwan Glover
Duração: 480 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.