Crítica | The Discovery

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estrelas 3

Desde que nos entendemos por ser humano, parte de um todo, e único por si só, ou então, adquirimos a menor das ideias sobre a vida e suas concepções, algumas perguntas surgem acerca de nossos objetivos. Perguntas existenciais, quase clássicas, tão antigas quanto a sociedade moderna. Quem nós somos? De onde viemos? Para onde iremos? The Discovery tem seu foco argumentativo sobre a última, e mais polêmica das dúvidas humanas. Pois, tendo em mente que o nascimento da consciência de um ser é, em seus próprios termos, espontâneo, a morte é, na maioria dos casos, um ritual predestinado, perturbador e constantemente ativo em nossas mentes. Vivemos toda uma história, com diversos questionamentos, problemas, amores e tristezas para então sermos simplesmente jogados em um buraco na terra e sermos completamente esquecido pelos eternos anos que se passarem?

A premissa do novo filme original da Netflix leva-nos a sermos indagados sobre o que aconteceria se o mundo descobrisse da existência “científica” de algo após a morte.  A trama então nos joga para um mundo, onde que essa “Descoberta” feita por Thomas Harbor (Robert Redford), fomenta uma onda epidêmica de suicídios em massa. O protagonista da jornada, no entanto, é Will (Jason Segel), filho de Harbor, e que no segundo aniversário da descoberta viaja para o lugar onde seu irmão e seu pai moram – e onde os dois conduzem experimentos secretos. Essa viagem, porém, irá conduzir Will a conhecer Isla (Rooney Mara), uma misteriosa mulher que o levará a entender as mais diferentes formas de se ver a vida.

A começar pela bela fotografia, de Sturla Brandth Grøvlen, que quase desbotada, se relaciona muito bem com o argumento do filme, utilizando uma paleta de cor predominantemente azulada, o que vai de encontro com a personificação alegórica do mar. A criação do mundo, fora o culto originado da “Descoberta” que não surpassa-se de um frívolo cenário, é bem feita. Há algumas soluções inventivas, como a da máquina que aparentemente mostra em imagens a vida após a morte, que são interessantes. É assustador pensar-nos como será a vida após a morte, tal como é mostrado o modo como supostamente vivenciaríamos o além, retratado pela exibição feita durante vários experimentos. O filme acaba caminhando, em momentos pontuais, para um gênero próximo ao thriller, envolto de bastante suspense e mistério, explorado pela boa mixagem de som e o já citado histérico e desconfortável visual.

O ritmo, contudo, é bastante lento, tornando o filme rapidamente enfadonho, sem nada substancialmente para ser mostrado. Apesar da excepcional premissa, The Discovery não consegue manter a sensação instigante inicial. Os caminhos que o longa toma não são de acordo com a proposta inicial, acabando assim por quebrar de modo abrupto o interesse do público. Era de esperar-se que um filme como este, que aborda a vida, a morte, e o além, fosse ir para um caminho filosófico, fazendo o espectador refletir sobre sua jornada e trazendo pensamentos e dúvidas pertinentes a uma saga desse tamanho.

Aqui temos uma obra predominante de ficção científica com fortes traços românticos, mas com pouco apelo dramático. A exposição é uma constante, que por falta de uma expressão mais adequada, funciona simplesmente para “tirar a graça” daquela hipótese fantástica – e perturbadora. Em filmes como este seria interessante a utilização da sutil sugestão de modo a conduzir espectador para dentro da essência narrativa de forma orgânica. A explicação detalhada do que está acontecendo, acaba por, além de ressaltar problemas na construção da ideia sobre a possível vida após a morte (criando dúvidas e perguntas desnecessárias e inconclusivas), deixar claro a fragilidade dos diálogos, que não obstante, interfere nas excelentes relações humanas que são criadas pelo excelente elenco.

Em um de seus papéis mais dramáticos, Jason Segel explora de forma eficaz as diferentes nuances que o seu personagem pede. Sua relação com seu pai é extremamente problemática, devido às lacunas deixadas pelo passado. Por outro lado, sua relação com Toby (Jesse Plemons), seu irmão, é mais fluida, mas não isenta de barreiras. Do mesmo modo que o experiente Robert Redford transmite muito bem os arrependimentos absortos em uma pseudo frieza calculada, Plemons é igualmente competente ao transpor nas telas um bem construído contraste com a forma como seu irmão lidou com o passado trágico.

Todavia o romance entre Isla e Will, maior foco do filme, não consegue convencer. Esse é um dos trabalhos mais fracos da atriz que mesmo assim consegue utilizar de alguns recursos interpretativos positivos. Infelizmente, eles não são suficientes para que Mara sustente o peso da personagem. A atriz, mesmo carregando diversas camadas de background, não consegue transmitir a empatia necessária para que a construção da afeição de Will e ela seja crível. Felizmente, em seu segundo ato, o filme passa por algumas reviravoltas interessantes, sendo que, pela grande dimensão de caminhos abertos que o roteiro poderia caminhar em sua conclusão, acaba sendo acidentalmente um pouco imprevisível – e talvez singelo.

O infortúnio está que a conclusão remete diretamente ao pobre desenvolvimento da relação entre Isla e Will. Se tal fosse moldada melhor, o final teria uma carga emocional mais impactante. Não tendo, a resolução salienta a fraca construção da personagem Lacey (Riley Keough), que assim como Isla possui características interessantes, porém superficialmente exploradas. Mesmo abordando diversas questões, o roteiro que além do diretor, tem Justin Lader como um de seus autores, não faz questão em se aprofundar em nenhuma delas e não permite-se colocar mensagens entrelinhas. Há algumas citações que ameaçam induzir questionamentos produtivos, mas, que no final não passam de meros artifícios narrativos desonestos.

Lembrando bastante o filme Linha Mortal, The Discovery consegue, apesar da premissa instigante, sobressair-se apenas no que condiz ao tratamento dado à família Harbor, aos conceitos visuais criados, ao bom trabalho de cinematografia e a alguns pequenos pontos da narrativa. No todo, é um trabalho de convenções, mal ritmado e que fracassa em retratar a relação do casal principal como empaticamente relevante, sendo assim, quase fracassando em seu terceiro ato, embora este seja evasivamente dúbio. Sem a necessidade deste algo estar ligado com qualquer religião ou crendice. Sem a necessidade de sabermos o que de fato é este algo. Apenas a necessidade de termos a certeza de que há algo.

The Discovery — EUA/Reino Unido, 2017
Direção: Charlie McDowell
Roteiro: Justin Lader, Charlie McDowell
Elenco: Jason Segel, Rooney Mara, Jesse Plemons, Riley Keough, Robert Redford, Ron Canada, Mary Steenburgen
Duração: 102 min

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?