Crítica | “The Endless River” – Pink Floyd

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estrelas 3

Há meses atrás um anúncio movia o mundo da música. O Pink Floyd voltaria a lançar um álbum, e esse viria a ser o último, definitivamente. The Endless River, um álbum aparentemente feito de seções de composições para The Division Bell, pode ser considerado um dos discos mais aguardados e comentados dos últimos anos. Segundo Nick Mason e David Gilmour – os únicos integrantes da banda, já que Roger Waters está fora desde 1987 – é uma homenagem ao tecladista e co-fundador, Richard Wright, que faleceu em 2008 (ou seria pra promover e preparar a galera para o álbum solo e turnê que Gilmour pretende lançar ano que vem?). The Endless River é uma carta de adeus desnecessária, visto que o álbum anterior se despedia muito bem. Em um disco quase todo instrumental, com excessão da faixa Louder Than Words, o disco soa como poderia ser esperado: uma sobra, cheio de canções ambiente que passam longe do alto nível costumeiro da banda inglesa.

Primeiro, preciso confessar que mudei de ideia sobre a crítica após escutar o álbum pela segunda vez. The Endless River precisa ser escutado no momento certo e, de preferência, mais de uma vez. Do contrário, a sensação vai ser a mesma que a maioria dos fãs estão dizendo do trabalho: algo sonolento e tedioso. De certo modo, eles não estão errados. The Endless River é uma peça falha e estranha dentro da discografia da banda. Um grande erro é já começar muito mal, suas três primeiras faixas (Things Left Unsaid, It’s What We Do e Ebb And Flow) são pouco criativas, abusam de sintetizadores e acabam soando como uma tentativa falha de aproveitar o antigo material.

No entanto, o disco sabe se manter regular e tem seus pontos altos. Gilmour sabe se destacar como guitarrista, não é a toa que pode ser chamado, sim, de um dos melhores da história, não somente por técnica, mas pelo senso de criação e melodia. A sequência Allons-y (1), Autumn ’68, Allons-y (2) é seu auge no disco, principalmente as duas faixas whovians que permitem uma grande viagem intergalática na guitarra de David (a segunda parte daria uma ótima abertura de Doctor Who!). Enquanto isso, a verdadeira homenagem a Wright vem no “outono de 68” que marca a passagem das duas partes de Allons-y. Talvez seja o único momento que realmente justifica esse papo de prestar um tributo a Wright e não querer desperdiçar seu trabalho. Sua aparição tocando uma espécie de orgão é extremamente tocante, principalmente unida a guitarra de Gilmour. O mesmo acontece em The Lost Art of Conversation, onde o belo teclado se funde ao som da chuva. Ambas mereciam entrar em The Division Bell.

Outro lado positivo do disco é quando se mostra nostálgico e lembra alguns bons momentos da banda. Seja com o saxofone de Anisina que lembra Us And Them do The Dark Side Of The Moon, ou Talking’ Hawkin – faixa que possui um sampler de Stephen Hawking falando – que poderia estar no The Division Bell como uma introdução de Keep Talking. No final, aparece Louder Than Words,  que tenta levar a sério seu título, sendo a única faixa cantada. Ainda que a introdução mostre boas lembranças de Hey You, não está nem um pouco perto dos hits antigos da banda e só ganha pela nostalgia.

The Endless River não é toda essa decepção que alguns comentam, mas é um dos trabalhos mais fracos e desnecessários da banda. Um lançamento de uma edição de comemoração de 20 anos do The Division Bell com um lado específico apenas para esse trabalho seria muito melhor recebido e evitaria tanta pressão por cima da banda. O maior mérito do disco é conseguir soar como um álbum de verdade (não como uma colcha de retalhos), ainda que soe como uma sobra de algo. É triste ver a banda encerrar a carreira com algo mediano, mas ver Pink Floyd de volta no topo das paradas também é algo recompensante.

The Endless River
Artista: Pink Floyd
País: Inglaterra
Lançamento: 10 de novembro de 2014
Gravadora: Columbia Records
Estilo: Rock Progressivo, Instrumental

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.