Crítica | The Exorcist – 1ª Temporada

The Exorcist (Série)

estrelas 4

O exorcismo é um tema bastante explorado pela indústria cultural. No cinema é tão vasto quanto os filmes de vampiros, psicopatas mascarados e tubarões assassinos. Volta e meia o tema ressurge, geralmente abordado dentro de uma tentativa de inovação, mas todos gravitando em torno da melhor produção sobre o tema, O Exorcista, clássico de Willian Friedkin, adaptação da obra homônima de Willian Peter Blatty.

Ganhadora de diversos prêmios, a obra-prima do cinema circula até os dias atuais na memória coletiva e sempre será uma referência para os filmes sucessores. Poucos conseguiram alcançar a sua excelência, sendo talvez O Exorcismo de Emily Rose o melhor exemplar. Dominação, Livrai-nos do Mal, Stigmata, Possuído pelo Demônio e O Ritual são alguns exemplos de tentativas frustradas de abordar o tema. Não são totalmente ruins e descartáveis, mas ficam demasiadamente longe do clima de horror e excelência dramatúrgica de O Exorcista.

Com tanta pompa e moral no circuito de produção, demorou muito para os produtores dedicarem uma fatia de suas agendas para discutir um projeto e fazer surgir a versão televisiva da obra, ligada intrinsecamente com o romance, nos primeiros momentos, mas conectada também com o filme, através de revelações entre o seu meio-final. Devo dizer que quando anunciada, a série deixou muita gente preocupada, principalmente os ligados fervorosamente ao filme.

Quando um produto deste tipo é refilmado ou transformado em outro produto da indústria o cuidado precisa ser redobrado, pois os envolvidos estão mexendo com a “aura” de uma obra objeto de culto, algo que pode custar muito mais que cifras no bojo da “economia cinematográfica”. Pois tenho boas novas para os admiradores da franquia, do romance e do subgênero: The Exorcist é uma série extremamente bem sucedida em termos estéticos, dramáticos e uma grata surpresa para os que gostam de boas doses de terror, mesmo que os números da audiência tentem dizer o contrário.

A trama nos conta a história de uma família de tradição católica perseguida por uma entidade maligna. O caos começa a se estabelecer quando a matriarca, Ângela Rance (Geena Davis), começa a sentir atos comportamentais diferentes em sua filha mais nova, Katherine (Brianne Howey). O que ela não sabe é que a sua atenção deveria estar voltada para a mais nova.

Ao perceber que as coisas estão estranhas, a Sra. Rance  recorre ao padre Tomas Ortega (Alfonso Herrera), um homem confuso e inseguro em relação aos seus compromissos religiosos. Ele recorre ao padre Marcus Lang (Ben Daniels), uma pessoa experiente e que pode ser muito funcional para a resolução deste novo caso, haja vista a sua experiência.

A partir daí, vários acontecimentos estranhos acontecerão, todos girando em torno da trama central. É de se espantar que o showrunner da série tenha sido Jeremy Slater, do irregular Renascida do Inferno. Talvez isto seja uma prova de que é “errando que se aprende”, afinal, o resultado alcançado em The Exorcist surpreendeu. A primeira temporada (na verdade eu acho que deveria ter sido minissérie sem continuações) veio num pacote de dez episódios, todos interessantes, com alguns altos e baixos, obviamente, afinal, manter todos ligados na adrenalina durante cada minuto não ajuda muito na evolução dos personagens.

A ideia dos produtores era criar uma história diferente para cada temporada. Com dito anteriormente, o conselho é que criem outra série neste formato. Ligar os acontecimentos do livro e do filme ao material requer limitar os horizontes narrativos, pois a perda da qualidade é algo muito perigoso diante destas tentativas de esticar demais as fronteiras dramatúrgicas ofertadas pela história de uma família perseguida por forças demoníacas.

Conforme apontou Jeremy Slater, a abordagem da série é parecida com o que foi feito com Fargo, ou seja, “uma história com mesmo universo do filme original”. Para criar o clima ideal, os produtores convidaram padres de verdade para dar consultoria. Segundo o showrunner, “as histórias que eles contaram eram de arrepiar”, alegou, reforçando que “dormia de luzes acesas por algumas noites”. Em suas entrevistas ele sempre deixava clara a quantidade de pesquisas que foram feitas para elaboração do material, bem como a preocupação em estabelecer uma boa relação com o livro e o filme. “Se você entrasse na nossa sala de roteiristas, veria uma dúzia de manuais de artes das trevas e bruxaria, relatos de casos de exorcismo e de possessão demoníaca”.

No primeiro episódio (And Let Me Cry Come Unto Thee) a série já apresenta todo o seu potencial. Sabemos que uma família será atormentada pelo mal e que o exorcismo. A cenografia, a iluminação, a montagem e a trilha sonora marcante deixam prevalecer o clima de tensão. Ainda é cedo para ter certezas, mas o exorcismo de Georgetown parece ter alguma relação com os personagens que nos são apresentados. No episódio 02 (Lupus In Fabula), a filha mais velha, até então tratada como possuída pela mãe, mostra-se sã, diferente de Casey, aparentemente o verdadeiro problema. Fique atento: um episódio envolvendo água benta vai lhe causar algum desconforto, tenha certeza.

Mais adiante os pais não sabem o que fazer. No episódio 03 (Let Me In), a Igreja resolve não reconhecer que há algo errado com a garota, mas a dupla de padres, cientes dos problemas, não se deixa a convencer pelo veredicto da alta cúpula. É quando a garota possuída começa a agir da maneira mais desagradável possível, culminando na cena do metrô, tensa, bem dirigida. Percebemos, neste trecho, uma possível relação intertextual com Carrie – A Estranha, com pitadas de X-Men, salvas as devidas proporções. É neste mesmo episódio que uma legião ocultista, intitulada Gangue dos Órgãos, começará a agir e ganhar algum destaque, abrindo espaço para o episódio 04 (The Moveable Feast), momento em que os pais de fato se mostram impotentes diante dos acontecimentos, pois diferente do demônio exorcizado há 18 meses pelo padre Marcus, este se apresenta mais forte. No esquema da jornada do herói, este é o momento que de fato o padre “aceita ao chamado” e parte para a guerra contra as forças do mal.

Nos episódios 05 (Through My Most Grievous Fault) e 06 (Star of the Morning) teremos as revelações que nos mostrarão que todos fazem parte do esquema demoníaco estabelecido pelo demônio para aquela família e para aqueles que estão próximos de todo o drama concebido desde o primeiro episódio. O sumiço de Casey, o foco em sua busca e a Gangue dos Órgãos são os destaques. Paralelo aos acontecimentos da família central, descobrimos que a seita utiliza os órgãos para criar cinzas que serão utilizadas em rituais de invocação demoníaca. O roteiro também nos apresenta a fraqueza do padre Marcus diante de Jéssica, a Eva pecaminosa da vida do religioso, além de nos brindar com a personagem a andar pelas paredes e com o corpo invertido, num feixe de referências aos momentos mais inquietantes da versão cinematográfica. É um bem calculado momento de transição para The Exorcist.

No episódio 07 (Father of Lies) os núcleos dramáticos ganham mais um patamar na evolução. “O pecado atrai problemas” e isso o padre Tomas sentirá na pele, caso continue os encontros furtivos com Jessica. A chegada do papa, organizada por uma conspiração demoníaca, eleva os níveis de tensão e deixam a série ainda mais instigante. No episódio 08 (The Griefbearers) teremos uma revelação aterradora, um dos pontos mais altos da temporada. Uma torção de pescoço nos remete ao clássico. O exorcismo parece não surtir efeito, mas com a presença de Ângela e da sua experiência, coisas diferentes começam a acontecer e talvez haja alguma solução para tanto horror. Para os fãs, um deleite: ela faz uma viagem temporal e é levada até o primeiro contato com a famigerada tábua Ouija e com o Capitão Howdy. É neste momento que temos a certeza de estar diante do mesmo demônio do passado.

Em seus dois últimos episódios, a série aquece o clima e deixa todos de cabelo em pé. Em 162 (episodio 09), Pazuzu apresenta o seu espetáculo e mostra que não está para brincadeira. É quando o demônio sai do corpo de Casey e busca integração em outro membro da família. Anteriormente, uma visita oriunda do universo fílmico leva um fim trágico, mas coisas terríveis ainda estão para acontecer. A visita do papa se aproxima e o clima de tensão ganha proporções absurdas, culminando no morno episódio 10 (Three Rooms). A agitação dá espaço para a metáfora e para a reflexão, com um membro familiar no processo de integração (espécie de possessão permanente) vacilante, pois não havia se entregado totalmente aos planos de Pazuzu. Destaque para a dinâmica dos compartimentos mentais, inteligente, sagaz e bem montada.

No que tange aos aspectos estéticos, a série The Exorcist foi muito bem elaborada. Toda a construção visual ganha o reforço da boa direção e dos desempenhos dos atores. Geena Davis, a eterna “Thelma”, amiga da “Louise”, consegue dar conta do seu papel, equilibrada, assim como todo o elenco coadjuvante. Para ser 100%, acredito que algumas subtramas talvez pudessem ter sido arrematadas com maior coesão ao final, mas creio que haja interesse em dar continuidade ao material, nem que seja através de um telefilme.

Basta esperar para ver se a FOX vai liberar a produção de episódios para uma segunda temporada. Como dito anteriormente, acredito que o ideal era criar uma minissérie fechada com determinada quantidade de episódios, referenciando os personagens do filme. Trazer a família para um novo drama na próxima temporada talvez seja forçar demais a barra. É preciso aguardar, haja vista o hype do tema para o próximo ano que já abre com um filme de possessão demoníaca na primeira semana de estreias cinematográficas.

The Exorcist – 1ª Temporada / EUA, 2016
Showrunner:  Jeremy Slater
Direção: Vários
Roteiro: Vários, baseado nos personagens de William Peter Blaty
Elenco: Alfonso Herrera, Ben Daniels, Hannah Kasulka, Brianne Howey, Kurt Egyiawan, Alan Ruck, Geena Davis, Camille Guaty, Francis Guinan, Matthew Velasquez, Melissa Russell
Duração: 42 min (cada episódio – 10 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.