Crítica | The Exorcist – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Ao veicular a crítica sobre a primeira temporada da série The Exorcist, em 2016, aleguei que o tema é polêmico e continua em alta em nossa indústria cultural constantemente envolvida com a “persistência da memória”. Com algumas publicações sobre o tema e lançamento de filmes que repetem, tendo alguns elementos diferenciais, a mesma fórmula do clássico O Exorcista, de 1973, reforcei que o exorcismo é um tema que parece não ter esgotamento, pelo menos por enquanto.

O contexto social que envolveu a chegada da segunda temporada traz as mesmas concepções. A relação com o livro de William Peter Blatty e o filme de William Friedkin está nas estruturas, mas com as polêmicas que sacodem o tema na vida real, a série de alguma maneira está se delineando como um programa independente das amarras dos clássicos que lhe servem como ponto de partida. Há mais liberdade, até porque o exorcismo está em alta. Recentemente o Vaticano solicitou que cada diocese ao redor do planeta possua ao menos um sacerdote capacitado para realizar a função. Na Itália, os representantes calculam vinte exorcismos ao dia, pois a Igreja Católica acredita que na atual sociedade, espaço de interações cada vez mais distante da fé, a presença das forças malignas estão ganhando muita força. Há também relatos de que a necessidade dos exorcistas de plantão se dá por conta da constante formação de seitas com rituais satânicos, proliferadas com as extensões dos relacionamentos nas redes sociais.

Com um pensamento que nos faz lembrar a Contrarreforma, o catolicismo está mais uma vez em ação em nossa sociedade, numa busca de resgate de seus valores. Para o cardeal arcebispo Odilo Scherer, “a prática dos exorcismos sempre existiu na Igreja e não se trata de novidade”, alegando ainda que é “uma prática consolidada pela Igreja” e que conforme dados do Vaticano, “a demanda tem aumentado em diversos países a cada ano”. A indústria cultural está bem atenta aos detalhes, pois séries, filmes e livros sobre o tema não deixam de ser ofertados ao público consumidor. A segunda temporada de The Exorcist é um exemplo.

Com doses um pouco maiores de violência, tendo em vista estabelecer um clima perturbador que justifique a nova empreitada, a trama da vez inicialmente segue duas linhas narrativas centrais: a saga dos padres Tomas (Alfonso Herrera) e Marcos (Ben Daniels), juntos mais uma vez contra as forças do mal e o paralelo em um “orfanato” de “crianças bem peculiares”, gerenciado por Andrew Kim (John Cho). No local vivem Shelby (Alex Barima), Caleb (Hunter Dillon), Truck (Cyrus Arnold) e Verity (Brianna Hildebrand). Eles vão precisar se comportar com a chegada de Rose (Li Jun Li), moça que vem para auxiliar, mas avaliar o andamento das coisas no local, visita que perceberá a presença constante das lembranças de Nicole (Alicia Witt), esposa de Kim que faleceu por circunstâncias misteriosas no passado e que terá detalhes da sua existência revelados de maneira parcimoniosa. Todas estas histórias vão se cruzar mais adiante. A linha tangente é a dupla Bennet (Kurt Egyiawan) e Mouse (Zuleikha Robinson) em ação, também em luta contra o mal, mas em circunstâncias e métodos, digamos, nada semelhantes aos padres Marcos e Tomas.

Há espaço também para um mistério envolvendo o poço da casa que abriga algumas crianças numa região isolada, a perseguição das forças do mal que buscam uma cisão entre os padres, além da constante ação dos contaminados do Vaticano, uma seita que utiliza a imagem imaculada da Igreja Católica para ganhar forças, através de uma agenda satânica, tendo em vista dominar o mundo.

A proposta de Jeremy Slater é dar continuidade à série, pois de acordo com relatos em entrevistas, há histórias suficientes para sete anos de The Exorcist. De acordo com as suas afirmações, “a ideia é que a cada ano tenhamos um caso diferente, com uma possessão em um ambiente familiar diferente”. E claro, sem deixar de referenciar casos anteriores, como esta segunda temporada faz muito bem, além de homenagear momentos do universo temático, como no caso do episódio final, ovacionado pelos fãs por recriar uma cena antológica de O Exorcista 3, com a enfermeira sendo atacada por uma figura de branco pelos corredores do hospital. Um trecho simples, mas perturbador.

No primeiro episódio (Janus), dirigido por Jason Ensler, a série apresenta a sua atmosfera sombria e demonstra que é bem provável a continuidade do clima de horror da temporada anterior. A história começa seis meses após os eventos que sacudiram as estruturas da família de Angela Rance (Geena Davis). Tomas e Marcos, mais uma vez juntos, continuam em contato com Bennet, trio que mesmo desfalcado, atua contra as forças do mal em pontos físicos diferentes. Repleta de pistas que nos levam a pensar milhões de coisas que de início não se encaixam, a abertura da segunda temporada traz as forças demoníacas testando a fé dos padres e tentando separá-los. Como história paralela, a narrativa nos apresenta a casa de Andrew Kim (John Cho), um homem que sofreu uma perda relativamente recente e que cuida amorosamente de cinco crianças em seu lar, uma espécie de abrigo. Com direção de Deran Sarafian, o segundo episódio (Safe as House), Tomas e Marcos, mais uma vez, estão em ensaio, ao praticar exorcismo em uma jovem que perdeu o filho no parto. Andrew vive intensamente o conflito da possível perda das crianças em seu lar, caso a moradia e os serviços prestados não sejam devidamente aprovados por uma avaliadora. O mal, constantemente, prega peças na dupla de padres, tentando coloca-los um contra o outro. Para criar o tom macabro, o nascimento de uma ovelha reforça que as coisas não andam normais na região. Em pouco tempo, o mal provavelmente tomará conta. É o clima ideal para o episódio três (Unclean), momento em que a série expande o seu universo, testa mais vezes a relação entre os padres, brinca com a fé e demonstra que a Igreja está bem organizada em seu eixo maligno. Sob a direção de Ti West, as discussões sobre a fragilidade da fé ganha bastante espaço, bem como a necessidade dos padres em manterem as diferenças de lado para conseguir alcançar o propósito maior: a erradicação das forças demoníacas.

No quarto episódio (One for Sorrow), comandado por So Yong Kim, a série estabelece um contato maior entre os personagens de núcleos distintos e começa a projetar a unificação das linhas narrativas. Um dos marcos é a chegada da intervenção religiosa na figura dos padres chegando na ilha onde a casa de Andrew está situada. Somos finalmente apresentados ao tema central da temporada: a possessão que aparentemente tomaria uma criança, mais uma vez, sinaliza que talvez um adulto seja o foco da nova maldição, principalmente por conta do plot twist com a pequena Grace, um recurso da mente perturbada de Andrew. Tudo isso é um prenúncio para o clima que surge no quinto episódio (There but for the Grace of God, Go I), comandado por Alex Garcia Lopez, momento em que Andrew desperta para o mal que circunda a sua casa. Marcos e Tomas seguem para o local, tendo em vista erradicar o mal que de acordo com as visões de um dos padres, ganha cada vez mais força no ambiente. Sabemos que há cinco décadas, um homem perdeu o controle, provavelmente vítima de possessão, o que o levou a matar várias crianças violentamente. Marcos sabe desta informação através da filha do assassino. Ela ainda reforça que este é um mal que assola aquele local há tempos, pois o objetivo da manifestação maligna é a destruição de lares familiares. Próximo ao final, o episódio ganha um ritmo desconcertante e a promessa de um desfecho trágico começa a se anunciar.

No sexto episódio (Darling Nikki), dirigido por Jason Ensler, a história começa a esmiuçar as consequências da virada do capítulo anterior. Marcos e Tomas finalmente tomam as rédeas da situação e começam a perceber o que de fato está acontecendo na casa. Sabemos que a manifestação maligna é uma presença da floresta, a mesma que tomou o homem que assassinou várias pessoas há 50 anos, além da revelação sobre quem te fato necessita de ajuda na história, isto é, Andre Kim, perseguido pelo mal, fragilizado psicologicamente e espiritualmente depois da perda de sua esposa, Nicole (Alicia Witt), mulher que faleceu em circunstâncias trágicas. No episódio 07 (Help Me), comandado por Steve. A. Anderson, Andy mergulha mais profundamente na possessão, mal-estar reforçado pela presença maligna que utiliza a imagem de sua esposa para atrai-lo ao fundo do poço espiritual. Através de diversos flashbacks, descobrimos a causa da morte de Nicole, a sua depressão, a importância das crianças do lar de Andy e o significado de alguns objetos expostos em cena, tal como uma pedra inicialmente sem simbologia, mas reveladora ao passo que o episódio se desenvolve.

Mais adiante, Andy piora ainda mais e a dupla de exorcista começa a adentrar pela zona do esgotamento nervoso. Esse é o centro nervoso do episódio 08 (A Heaven of Hell), dirigido por Meera Menon, feixe de tensões dramáticas que ainda traz as forças do mal em mais uma tentativa de desequilibrar os padres, resgatando detalhes obscuros do passado. Tudo isso escoa no penúltimo episódio da temporada (Ritual and Repetition), dirigido por Elisabeth Allen Rosenbaum. Tomas está numa forte batalha interna para derrotar as forças demoníacas, inclusive tentando afasta-la do seu interior. Ele se depara com a presença de Casey, da temporada anterior, personagem que surge em suas visões para deixa-lo se questionando sobre a eficácia do exorcismo da família realizado há seis meses. Bennet e Mouse continuam atuando juntos e a dúvida sobre como o destino de Andy será selado se estabelece, pois em seu momento de possessão, o personagem cometeu um crime que diante do estado laico, não terá validade para uma possível imunidade. No décimo e último episódio (Unworthy), alguns ciclos se fecham, outros se abrem, tendo em vista apresentar as possíveis histórias de uma nova temporada. Com a presença da tal cena que nos remete ao Exorcista III e as despedidas de Marcos e a efetivação de Mouse como provável parceria de Tomas, a série encerrou o seu ciclo bem equilibrada e com promessas de que ainda consegue render boas histórias.

No que tange aos aspectos estéticos, a segunda temporada da série The Exorcist foi muito bem elaborada. Os efeitos especiais estão ótimos, mas não significa que a produção fica presa nas armadilhas tecnológicas. Há coesão no roteiro dos dez episódios, desempenhos dramáticos bem convincentes do elenco e condução narrativa envolvente, com unidade temática nos enquadramentos, movimentos de câmera, cenografia e figurino, dentre outros setores da linguagem audiovisual deste programa que tem como um dos seus méritos, compreender a entrega dos espectadores e por isso, devolver ao público cenas bem conduzidas e uma história bem amarrada.

Basta esperar para ver se a FOX vai liberar a produção de episódios para uma terceira temporada. Com o acordo financeiro entre os produtores e a Disney, os interessados em um novo momento para os padres exorcistas podem se decepcionar, pois de acordo com uma postagem do showrunner Jeremy Slater, tal negociação pode prejudicar o futuro da série. Há planos de um caso a ser desenvolvido entre Los Angeles e o México. Vamos aguardar o encadeamento desta história e torcer para que haja ao menos mais uma incursão neste universo macabro, sombrio e instigante.

The Exorcist – 2ª Temporada (Idem, Estados Unidos – 29 de setembro a 15 de dezembro de 2017)
Criação: Jeremy Slater
Direção: Jason Ensler, Deran Sarafian, Ti West, So Yong Kim, Alex Garcia Lopez, Steven A. Adelson, Meera Menon, Elizabeth Allen Rosenbaum
Roteiro: Heather Bellson, Adam Stein, Manny Coto, Rebecca Kirsch, Alyssa Clark, Franklin Jin Rho, David Grimm, M. Willis, Sean Crouch, Jeremy Slater
Elenco: Alfonso Herrera, Ben Daniels, John Cho, Alex Barima, Caleb, Hunter Dillon, Cyrus Arnold, Brianna Hildebrand, Li Jun Li, Alicia Witt,Kurt Egyiawan, Zuleikha Robinson
Duração: 42 min. por episódio (10 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.