Crítica | The Expanse – 1ª Temporada

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Começarei a crítica com um comentário pessoal até para agradecer aos leitores aqui do site que pediram a crítica de The Expanse, série que, confesso, apesar de não ter passado exatamente em branco, não tinha intenção específica de abordar. E o agradecimento é devido, pois, desde que o fenomenal reboot de Battlestar Galactica acabou, eu não me sentia tão satisfeito com um série de ficção científica no estilo realista (ou hard sci-fi), que extrapola de maneira crível a tecnologia hoje conhecida. E isso com base apenas nesta 1ª Temporada, pois evitei ver as seguintes antes de redigir a presente crítica. Foi uma surpresa e um prazer descobrir que, apesar dos problemas, a série, baseada na coleção de romances e contos ainda sendo escritos por James S. A. Corey (nom de plume da dupla Daniel Abraham e Ty Franck), cria um fascinante universo com que o espectador pode identificar-se facilmente.

Bem, talvez o “facilmente” seja uma liberdade poética minha, fruto da tal empolgação. Afinal, apesar de minha crescente alegria ao mergulhar na série, não pude deixar de notar a frieza e a distância iniciais dos blocos de protagonistas, com personagens e histórias que exigem um certo esforço e perseverança para ganhar fluência e familiaridade. A temporada inaugural, composta de 10 episódios, não só mantém o mistério central escondido a sete chaves até o último minuto, como também o revela apenas parcialmente. E, nesse processo, pelo menos metade da temporada é empregada para estabelecer a razoavelmente complicada história desse futuro sombrio, o que pode — mas não deveria — afastar muita gente.

Situando-se 200 anos no futuro, quando o Sistema Solar foi colonizado pela Terra, somos atirados em meio à narrativa sem maiores detalhamentos e vamos aprendendo aos poucos as minúcias do funcionamento desse “Universo”. Assim como os grandes vértices desse futuro se passam na Terra, no cinturão de asteroides e em Marte, a temporada é quebrada em três grandes bolsões, um em Ceres, asteroide do cinturão onde vivem os Belters (belt é cinturão em inglês, daí o nome), terráqueos alterados fisicamente por gerações vivendo sem gravidade; outro na Terra comandada por uma versão mais robusta das Nações Unidas e outra no espaço aberto, com a tripulação da nave coletora de gelo Canterbury. Marte em si não aparece na temporada, ainda que os marcianos — também terráqueos que colonizaram o planeta — apareçam com frequência.

Há um estado de Guerra Fria entre a Terra e Marte, com o cinturão de asteroides ficando no meio, substancialmente como a força trabalhadora que extrai ricas matérias-primas explorada pelos dois planetas. Existe, ali, uma evidente insatisfação com essa exploração, algo que serve de berço ao nascimento de um grupo separatista (visto como terrorista pela Terra e por Marte) chamado OPA, sigla em inglês de Aliança dos Planetas Exteriores.

O importante é que os três bolsões ou núcleos narrativos caracterizam muito bem cada um dos três lados da história, com representantes bem definidos em cada um deles. Em Ceres, há Josephus “Joe” Aloisus Miller (Thomas Jane), um detetive corrupto da força policial privada local que recebe a missão de localizar o paradeiro de Juliette “Julie” Andromeda Mao (Florence Faivre), uma herdeira que desaparecera e que vemos no misterioso preâmbulo do primeiro episódio. Nesse lado da temporada, a pegada é noir com toques cyberpunk, muito na linha da abordagem dada a Rick Deckard, em Blade Runner.

No espaço aberto, há James “Jim” Holden (Steven Strait) primeiro imediato do Canterbury e, depois, hesitante capitão do Rocinante, nave marciana que ele e seu pequeno grupo acabam usando (lembranças fortes aqui de Firefly). O caminho de Jim e sua tripulação segue uma linha em que eles praticamente não têm escolha que não tentar entender o que afinal aconteceu na Canterbury, algo que inadvertidamente transforma Jim em uma ferramenta que coloca a Terra e Marte em rota de colisão, esquentando a Guerra Fria. É nessa “parte” da temporada que os elementos clássicos do hard sci-fi se fazem mais presentes, com o uso constante de tecnologia “possível” e perfeitamente crível, com especial destaque para as movimentações das naves e funcionamento dos trajes espaciais.

Finalmente, na Terra, há Chrisjen Avasarala (Shohreh Aghdashloo), subsecretária adjunta das Nações Unidas que faz de tudo em seu poder – inclusive tortura – para evitar uma guerra entre os dois planetas. Aqui, vemos a ficção científica de pegada política e utópica, com essa Terra do futuro sendo o paraíso cobiçado e invejado pelos habitantes do cinturão e de Marte.

Perdoem essa “sinopse” enorme acima, mas ela era necessária para estabelecer as bases para a crítica em si. Primeiramente, fica evidente a ambição e o escopo da série, que bebe de diversas fontes diferentes e aborda a ficção científica de três maneiras diferentes, algo por si só complexo e potencialmente alienante, já que força o espectador a acostumar-se não com uma, mas com três narrativas substancialmente diferentes.

Além disso, o tangenciamento e entrelaçamento das histórias não é direto e demora a acontecer de verdade. O preâmbulo misterioso com Julie Mao é um elemento de coesão, claro, mas nem de longe o único, com as ações de cada núcleo influenciando o outro de maneiras diferentes sem que os personagens sequer precisem interagir. Mas há que se ter paciência para chegar ao ponto em que a história caminha mais naturalmente na cabeça do espectador, já que os roteiros – ainda bem! – fogem o quanto podem do texto expositivo, exigindo atenção e a conexão de pontos entre cada elemento e entre cada novo personagem que vai sendo introduzido organicamente na narrativa. Pode ser uma tarefa exaustiva não pela complexidade intrínseca, mas sim pela quantidade de informações jogada na telinha.

Além disso, há o “fator personagem” aqui. Joe, Jim e Chrisjen não são exatamente empáticos e agradáveis. A não ser que nos fiemos nos atores — falo de Jane e Aghdashloo, claro, já que Strait é um ilustre desconhecido –para criar algum grau de simpatia, o que nos resta em termos de personagens é um emaranhado desagradável e antipático que complica muito mais do que facilita o conforto com a temporada. Particularmente, gosto de personagens dessa natureza, mas mesmo eu tive dificuldade de “comprar” as motivações de Joe e especialmente de Jim, tarefa um pouco – só um pouco – mais simples em relação a Chrisjen, considerando o magnetismo da atriz.

Mas essas caracterizações não são aleatórias. Ao contrário, elas são da natureza da série, já que o cinismo impera e não há heróis, apenas sobreviventes e aqui incluo até a diplomata de Aghdashloo. Não são pessoas feitas para serem simpáticas, com cada uma com histórias críveis por trás que aos poucos vão sendo desveladas para estabelecer as conexões necessárias e para justificar determinadas atitudes. Apenas Joe é Joe, um homem definido pelo seu local de nascimento e que embarca na investigação de corpo e alma, doa a quem doer, por uma razão que nem ele consegue identificar direito, talvez um desejo muito escondido de fazer algum tipo de justiça que faça jus à sua profissão.

A direção de arte é espetacular em cada detalhe, dos designs das naves e equipamentos, passando pelos figurinos e desaguando em uma computação gráfica que, não hesito em dizer, estabelece um novo padrão televisivo como Battlestar Galactica o fez em sua era. Tal qual BSG e Firefly, que seguem a tendência inaugurada com mais vigor por Star Wars, The Expanse faz todo o esforço para não só passar a impressão de absoluta veracidade, como também de um universo “vivido” em que nada que especificamente não deva ser é belo e novinho em folha. A cor branca ou qualquer outra mais alegre e forte não existem na temporada fora do núcleo da Terra – notadamente nos belíssimos figurinos étnicos de Chrisjen – e mesmo lá são dosadas e cirúrgicas, passando a impressão geral de um mundo frio e distante como seus protagonistas, com uma nuvem negra ameaçadora no horizonte.

Os diversos cenários, como toda Ceres, a gigantesca nave Mórmon em construção (há um tímido, mas interessante subtexto religioso perpassando a narrativa) e os demais interiores de naves, notadamente a Rocinante, são espartanos ao limite, com muito metal não polido à mostra, muitos vazamentos e muita simplicidade. Não é, vejam bem, uma questão de economia cenográfica, mas sim uma exigência do espírito do que a série nos quer passar. Esse futuro é tecnológico, mas nem tanto, já que não há viagens interestelares, motores de dobra, teletransportes ou armas de raio ou botões mágicos que resolvem problemas aleatórios e isso é uma escolha deliberada que alicerça a humanidade que vemos em um momento evolutivo que mescla avanços com fragilidades, espelhando muito bem o período de evolução tecnológica da Guerra Fria que já vivemos.

A fotografia, assim como os três núcleos, esforça-se em criar diferenças visuais que, porém, mantém a unicidade desse universo. Em Ceres, a abordagem mais sombria evoca diretamente os filmes noir, com uma atmosfera suja e cores esvaídas que chocam com o pouco de ostentação que é mostrado. No espaço, temos um trabalho de câmera inspirado que funciona como a versão podre e niilista do balé especial de Stanley Kubrick em 2001 – Uma Odisseia no Espaço, desnorteando-nos e ratificando o realismo de tudo que é mostrado. Na Terra, os planos costumam ser mais gerais em cenários externos e internos amplos, com cores que saltam aos olhos fazendo com que o planeta ganhe a conotação de Paraíso invejado por todos que lá não vivem. Com isso, o trabalho fotográfico ajuda a tornar mais fácil a identificação de cada vértice narrativo, evitando o uso constante de tomadas padrão pra estabelecer os locais de ação, ainda que elas existam.

Considerando as três histórias paralelas e a riqueza de detalhes, é uma felicidade notar que os roteiros conseguem, em grande parte parte, manter a coesão da temporada. Novamente há que se fazer as ressalvas de que a “curva de aprendizado” do espectador é triplicada e de que metade dos episódios é usada para a aclimatação ao universo adaptado dos livros pelos showrunners Mark Fergus e Hawk Ostby. No entanto, se houver essa aceitação, a amarração funciona muito bem mesmo que toda a temporada pareça muito mais um prelúdio, uma introdução ao que estar por vir do que qualquer outra coisa.

Para alcançar seu objetivo, porém, os roteiristas tomam atalhos que por vezes incomodam, como o uso de coadjuvantes, especialmente no núcleo noir de Ceres, que aparecem e desaparecem de acordo com a conveniência narrativa do momento, servindo de Deus Ex machina ou, apenas, de oportunidade para um breve diálogo expositivo aqui e ali. Da mesma forma, como somos apresentados a novas tecnologias, os textos pseudo-científicos, aqui mais presentes no núcleo espacial de Jim Holden por intermédio da McGyver de plantão Naomi Nagata (Dominique Tipper), por vezes atravancam a fluidez narrativa.

Finalmente, há a questão do final. Não entrarei em detalhes, pois quero manter a crítica sem spoilers, mas o pouco do segredo que nós é revelado parece descambar para um lado um tanto quanto genérico e “padrãozão” de séries sci-fi. Como não assisti às temporadas seguintes, é ainda muito cedo para afirmar, mas senti aquele leve dissabor do desapontamento depois de uma jornada para lá de interessante por esse futuro tenso, noir e realista.

The Expanse cumpre o que promete e entrega uma 1ª Temporada que faz jus ao gênero em que a série está inserida. É bem possível que meu sorriso ao acabar a temporada tenha contribuído com mais meia estrela na avaliação final, mas, por outro lado, pode ser que meu lado exagerado de “crítico chato” tenha tirado meia estrela. Portanto, na média, tudo ficou igual. O que importa é que a ficção científica ganhou um exemplar de respeito e que merece mesmo toda a atenção que vem recebendo.

The Expanse – 1ª Temporada (Idem, EUA – 14 de dezembro de 2015 a 02 de fevereiro de 2016)
Showrunners: Mark Fergus, Hawk Ostby (baseado em romances de James S. A. Corey, nom de plume de Daniel Abraham e Ty Franck)
Direção: Terry McDonough, Jeff Woolnough, Rob Lieberman, Bill Johnson
Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Robin Veith, Naren Shankar, Dan Nowak, Jason Ning, Daniel Abraham, Ty Franck
Elenco: Thomas Jane, Steven Strait, Cas Anvar, Dominique Tipper, Wes Chatham, Paulo Costanzo, Florence Faivre, Shawn Doyle, Shohreh Aghdashloo, Chad L. Coleman, Athena Karkanis, Jared Harris, François Chau, Jay Hernandez
Duração: 433 min. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.