Crítica | The Expanse: Origens

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Como é muito comum há décadas, filmes e séries de TV de sucesso costumam ganhar algum tipo de tratamento em quadrinhos, seja uma adaptação direta, seja uma expansão. The Expanse, apesar de nunca ter sido o sucesso de público que definitivamente merece ser, também foi brindada com sua versão da Nona Arte em uma minissérie de apenas quatro edições adicionada de mais uma exclusiva de sua versão encadernada pela BOOM! Studios, também atual detentora dos direitos em quadrinhos sobre as franquias O Planeta dos Macacos, Bill & Ted e Aventureiros do Bairro Proibido, só para citar algumas.

A estrutura escolhida foi a mesma que a IDW Publishing utilizou em Orphan Black: O Clube dos Clones, em que cada edição foi dedicada a contar sobre o passado de cada uma das clones principais da série de TV. A BOOM!, então, focou em cada um dos quatro tripulantes fixos da Rocinante, com a quinta história – nunca publicada separadamente – dedicada ao Detetive Miller de Thomas Jane.

Sendo uma adaptação da série de TV e não dos livros que serviram de base para ela, a costura com a narrativa é muito clara para quem assiste ao trabalho dos showrunners Mark Fergus e Hawk Ostby: excetuando Josephus Miller, o objetivo é mostrar os eventos separados e desconexos que levaram James Holden, Naomi Nagata, Alex Kamal e Amos Burton a embarcarem na Canterbury, a nave coletora de gelo onde todos estão no começo de The Expanse. Ainda que o que nos é contado não seja uma completa novidade já que há pistas sobre o passado de cada um ao longo das três temporadas da série, as HQs fazem um eficiente trabalho de “organização de ideias” que acaba funcionando como um bom – mas não excelente – complemento ao material televisivo.

A primeira edição e talvez a mais simples e direta é dedicada à James Holden, oito anos antes dos acontecimentos da série. Como um militar na nave Zheng Fei, das Nações Unidas, ele revela sua natureza que constantemente quer fazer o que é certo, não o que lhe é ordenado. A história lida com sua busca por uma identidade e seu amadurecimento como homem. Nem sempre “fazer o certo” é o certo a se fazer e as consequências de todos os atos têm que ser pensadas, especialmente dentro de uma cadeia de comando militar.

Contada a partir do ponto de vista da capitã da nave, que está próxima de sua aposentadoria e que defende Holden por identificar nele um futuro de destaque, mas não necessariamente com o uniforme que usa, a narrativa estabelece bem a personalidade e as dúvidas do futuro capitão da Rocinante especialmente ao relativizar sua própria moralidade de uma maneira até fria, mas que faz sentido se abandonarmos, por alguns segundos, nosso lado mais sentimental e impulsivo.

Na segunda edição, Naomi Nagata ganha os holofotes e vemos um pouco de seu passado remoto e de suas dúvidas que a fazem desistir de participar ativamente na OPA. Mas o ponto nodal da história, algo que realmente chama a atenção do fã da série é como ela acaba ganhando a fidelidade canina de Amos Burton, o violento à beira da psicopatia mecânico que ela acaba empregando como seu ajudante e, inadvertidamente, encontrando sua “alma gêmea do mundo de Bizarro” em uma narrativa que nunca surpreende de verdade, mas que faz absoluto sentido em sua simplicidade.

O piloto marciano da Rocinante Alex Kamal recebe atenção na terceira edição e a história é, toda ela, centrada naquela fotografia de seu filho e esposa que o vemos guardar com tanto carinho. É importante notar que essa edição foi publicada quando a segunda temporada da série tinha acabado de ser encerrada, pelo que pouco ou quase nada era conhecido sobre seu passado além de menções aqui ou ali e olhares saudosos por Alex a cada vez que via a foto. Portanto, de todas as HQs da minissérie, esta é a que mergulha mais profundamente no passado de um personagem e suas relações interpessoais com entes queridos. Não é, mais uma vez, uma narrativa espetacular ou particularmente original, mas é uma que aborda com realismo algo muito comum para muita gente: a busca por uma identidade. Se na edição de Holden há essa busca, mas que se mistura com a falta de maturidade do personagem, aqui ela se dá por frustrações da vida e, mais ainda, por acomodações do que a sociedade espera de cada um. Alex, como marido e pai, é um homem sofrido, apagado, realmente longe do que realmente gosta de fazer, ou seja, pilotar naves. A história navega por essa sua dúvida interior e não só se encaixa bem com o personagem, mas também com o que seria visto desse seu passado na terceira temporada.

Fechando a tripulação fixa da Rocinante, chega a vez de Amos Burton, o troglodita que faz de tudo para esconder seu bom coração de todos ao seu redor. De todas as edições, esta é a única que não obedece uma fórmula pré-fixada, com uma história linear no passado do respectivo personagem. Muito ao contrário, o roteiro de Georgia Lee arrisca e usa uma abordagem quase psicodélica para mergulhar na mente perturbada de Amos e mostrar um pouco de sua visão de vida a partir de seus olhos atormentados.

Com isso, somos jogados para dentro de um daqueles jogos de perguntas e respostas de um canal de televisão em que Amos é o “entrevistado”, o que serve de artifício para que visitemos seu passado remoto e o possível momento de virada em sua vida, assim como outros pontos de momentos diferentes de sua vida que, claro, funcionam para ilustrar uma sequência de ação em passado mais recente, além de seus próprios processos decisórios internos, justificando o uso de Naomi como uma âncora moral por Amos. O roteiro parece por momentos descambar para um estranho lado surreal na linha de Alice no País das Maravilhas, mas ele se segura bem na maioria do tempo e oferece uma lufada de ar fresco dentro da proposta geral da minissérie.

Finalmente, temos um pedaço do passado do detetive Josephus Miller em Ceres, em uma HQ que somente foi disponibilizada no encadernado da minissérie. Aqui, não vemos exatamente o caminho que levou Miller a juntar-se à Rocinante, pois isso a série de TV aborda em detalhes, mas sim uma investigação bem sucedida do policial que, porém, acaba pagando um preço alto demais.

Há um desfoque nesta narrativa, já que o roteiro desvia-se para abordar um pouco da vida do jovem informante de Miller e que é a peça-chave dos acontecimentos. Aqui, caberia o que foi feito na edição de James Holden, que usa o ponto de vista de sua capitã, mas o que vemos é uma indecisão entre Miller e o garoto a ponto s até esquecermos que se trata de uma história do detetive. Mesmo assim, a tragédia (previsível) que se abate é potente e ajuda a explicar a completa desilusão de Miller que vemos no começo da primeira temporada da série.

A arte, que ficou ao encargo de Huang Danlan, é, em uma palavra, desapontadora. Se há algo absolutamente excepcional em The Expanse é sua magnífica riqueza de detalhes, com a criação de um “universo vivido” perfeitamente crível e estranhamente belo. No entanto, o que Danlan faz é o exato oposto disto.

Com traços simples, o artista até consegue emprestar um ar de leveza às histórias, mas que só realmente se encaixa em algumas partes da HQ dedicada a Amos. Nas restantes, a leveza não dialoga com os eventos mais pesados e tristes. Além disso, seu trabalho é… vazio. Vazio de detalhes, vazio de nuances, vazio de vitalidade, parecendo muito mais algo feito correndo para cumprir prazos (algo infelizmente muito comum no mercado de quadrinhos). E, como se isso não bastasse, Danlan não arrisca em nada, mantendo uma estrutura de quadros burocrática e monótona que só ganha alguma “cor” na história de Amos que exige um pouco mais do artista. De resto, não fosse o conhecimento prévio de cada personagem, todos seriam fungíveis e desinteressantes. Uma pena.

Apesar de a minissérie lidar com importantes e, até agora, desconhecidos momentos do quinteto principal de The Expanse, toda a eficiência dos textos é diluída por uma arte cansada e simplista demais que nem de longe faz jus à série de TV. No entanto, as HQs mostram que há potencial para que outras histórias nesse universo sejam contadas nos quadrinhos.

The Expanse: Origens (The Expanse: Origins, EUA – 2018)
Contendo: The Expanse: Origins #1 a 5
Roteiro: Hallie Lambert, Georgia Lee (baseado em história de James S. A. Corey)
Arte: Huang Danlan
Cores: Triona Farrell, Juan Useche
Letras: Jim Campbell
Editoria: Cameron Chittock, Eric Harburn
Editora original: BOOM! Studios
Data original de publicação: fevereiro, abril, maio e julho de 2017 (edições separadas) e fevereiro de 2018 (encadernado)
Páginas: 126

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.