Crítica | The Fall – 2ª Temporada

estrelas 4

Se os cinco episódios da primeira temporada de The Fall, apesar do processo de investigação ricamente retratado, da ótima construção de personagens e do estilo com poucos cortes e tensão das suas sequências, ainda assim foram criticados pela eventual abordagem paralela da corrupção na polícia (quebra de ritmo da trama principal, sim, que no entanto não é irrelevante e em nada compromete a retratação dos acontecimentos em si), os seis episódios da nova temporada sustentam sua qualidade narrativa e deixam de vez o tal paralelismo de lado, embora o paralelismo anterior também contribua para o desenvolvimento de personagens nos episódios inéditos. Em especial, vemos o desenvolvimento assim beneficiado da detetive Stella Gibson (Gillian Anderson, de Arquivo X) -– ainda mais vibrante do que na temporada anterior graças a inabalável performance da sexy, segura e, aparentemente feminista Gibson –, mas sem cair na previsibilidade a partir do que passou.

Imprevisibilidade, aliás, é um elemento presente na segunda temporada, apesar de pontos que não convencem muito ou que parecem uma saída fácil demais para o roteiro – ainda que em um provável terceiro ano tal facilidade seja justificada.

Neste ano de série, acompanhamos a sequência da caçada de Stella ao lado da polícia de Belfast, na Irlanda do Norte, ao assassino de mulheres Paul Spector (Jamie Dornan, de Once Upon a Time), casado e com uma filha pequena. Especialmente pelo tom inicial do retorno da trama, em muito lembrando Breaking Bad pela retratação de uma decadência constante, na qual o serial killer parece enfiar cada vez mais os pés pelas mãos — embora aparente eterna segurança, sem dar o braço a torcer em nenhum momento –, tudo fica incerto ainda antes do fim da temporada.

Por outro lado, não é surpresa que The Fall encerre seu segundo ano como o faz, tendo-se em vista a proposta de sua trama, fácil de cair numa repetição sem sentido de elementos. Até então com poucos episódios por temporada, a série soube explorar temas específicos a cada ano: no primeiro, as implicações de se levar uma vida dupla, ora como marido, pai, prestativo e sociável, ora como um serial killer; no segundo, o passado e as motivações de Paul para ser o que se tornou. Já Stella é impulsionada, alimentada pelo novo vigor narrativo, desejando conhecer mais seu inimigo para, assim, capturá-lo; ele, que representa o seu oposto, aquilo que tanto despreza. Óbvio, sim, que esse caráter feminista tem potencial para indignar pelo pré-julgamento e pela generalização que o implica, só que cria uma perseguidora muito interessante por causa disso, principalmente por Stella estar na pele da atriz em que está, e deve-se pensar que o programa instiga ainda mais ao propor esse embate entre elementos naturais que, por maior que seja a guerra, sempre se completam, querendo ou não, pelo menos até onde se tem notícia.

A trilha sonora, se não conta com nenhum momento deveras marcante, nunca atrapalha ou incomoda. Simplesmente parece pendurada às vezes, como que estando lá para preencher um espaço desnecessário. Em alguns momentos, porém, é muito competente, como o som ruidoso, lembrando estática, durante alguns diálogos de policiais por rádio, e sabendo calar em maravilhosas sequências preenchidas sonoramente apenas pelo som ambiente, diálogos e presenças de câmera dos atores – salve a tensão dos interrogatórios perto do fim da temporada.

Com o final totalmente em aberto, resta saber como a série pretende manter relevante o seu tom narrativo daqui por diante. Na certa, se a temporada seguinte for anunciada como a última, sintamo-nos mais aliviados.

The Fall (Reino Unido/EUA – 2014)
Showrunner: Allan Cubitt
Direção: Allan Cubitt
Roteiro: Allan Cubitt
Elenco: Gillian Anderson, Jamie Dornan, John Lynch, Bronagh Waugh, Niamh McGrady, Sarah Beattie, Aisling Franciosi, Emmett J. Scanlan
Duração: 450 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.