Crítica | The Flash – 2X02: Flash of Two Worlds

estrelas 2,5

Obs: Há spoilers. Leia sobre os episódios da temporada anterior, aqui.

Chega a ser patético até que ponto a The CW segue à risca o ditado “em time que está ganhando não se mexe”. A fórmula da primeira temporada de The Flash funcionou perfeitamente bem para o público; portanto, no lugar de realmente inovar, realmente quebrar barreiras, o canal a cabo simplesmente passou a fazer mais do mesmo. Foi assim com Arrow e, ao que tudo indica, será assim com sua segunda série – e por enquanto ainda melhor – baseada em herói da DC Comics. Espero morder a língua mais para a frente, mas não me parece ser o caso não.

A primeira e mais evidente prova disto é que a introdução do conceito de multiverso, que deixou os fãs dos quadrinhos em polvorosa, não parece ser muito mais do que um artifício para se criar exatamente as mesmas situações da temporada anterior. Sai do cenário o “vilão da semana” causado pela explosão do acelerador de partículas do laboratório S.T.A.R. e entra – rufem os tambores! – o “vilão da semana” causado pela singularidade criada por Barry Allen em Fast Enough. Criativo, não?

Mas calma que, assim como as facas Ginsu e as meias Vivarina, tem mais! Ganhamos OUTRO Flash misterioso, de identidade desconhecida, com voz e tremelique iguais ao do Flash Reverso, mas com um nome pior ainda: Zoom. Ah, mas calma que eu sei – leio quadrinhos provavelmente há mais tempo que a metade dos leitores aqui do site – que o Professor Zoom é um  vilão clássico do Flash e que ele também é o segundo Flash Reverso, mas caramba. Duas temporadas e o mesmo exato conceito de figura vilanesca fora de foco, só que com uniforme preto? Haja o benedito, não?

E, se você acha que a coisa para por aí, então ache novamente. Temos Jay Garrick – o fenomenalmente batizado no Brasil como Joel Ciclone (sério, gostaria de cumprimentar o sujeito que criou esse nome!) – como o Flash da Terra 2 servindo como a versão light do Dr. Harrison Wells, ensinando Barry Allen a dar uma de Thor e lançar raios com as mãos. Nada como refazer, passo a passo, o que já foi feito antes, acrescentando suficientes diferenças para os fãs mais deslumbrados acharem que estão vendo algo diferente.

Mas, apesar da mais completa falta de imaginação e da tentativa de realmente subir um ou dois níveis estruturais na narrativa, não se pode dizer que Flash of Two Worlds é uma perda total, pois seria injusto de minha parte. A interação entre Jay Garrick e Barry Allen funciona muito bem desde o começo, em que o segundo está ressabiado pela oferta livre de ônus de ajuda de alguém que diz que detinha a Speed Force em seu mundo. Teddy Sears, apesar de ainda não ter demonstrado latitude de atuação que me permita dizer que ele efetivamente atua bem, tem porte mais do que perfeito para ser a encarnação do primeiro Flash, criado por Gardner Fox e Harry Lampert, em 1940. Seu uniforme, com cores mais mudas, mas mantendo o icônico capacete que não cai de sua cabeça, é, arriscaria dizer, melhor do que o do próprio Barry Allen. Os dois, juntos, criam um choque entre o “velho” e o “novo” que é gostoso de ver. Pena que o roteiro dá pouco tempo aos dois, pelo menos nesse episódio, e ainda convenientemente retira os poderes de Garrick, de maneira que ele não roube completamente as cenas de Allen. Também é digna de nota a aparição (nada surpreendente) do Dr. Harrison Wells da Terra-2 que ainda nos permite ver de relance a tecnologia meio steampunk de lá, em um design de produção caprichado, ainda que usado somente por breves segundos.

Aliás, o roteiro de Aaron Helbing e Todd Helbing é repleto de fan service. Não só o título da história é o mesmo da icônica publicação da revista The Flash #123, em 1961, que introduz o conceito da Terra 2 e do multiverso, como a capa é recriada na sequência de salvamento da policial Patty Spivot (Shantel VanSanten, em papel também retirado dos quadrinhos). Além disso, há menção explícita ao capacete de Garrick ter pertencido ao pai dele, que lutou durante a Guerra das Américas (nos quadrinhos, foi a Primeira Guerra Mundial mesmo, antes do conceito de multiverso surgir), além das 52 rachaduras espaço-temporais por Central City em direta menção aos 52 mundos do Universo DC depois que a saga Crise nas Infinitas Terras foi “negada” e assim por diante. É interessante ver o mergulho profundo da série nesses detalhes esquecidos para fazer o fã de carteirinha arregalar os olhos. Mas a coisa para por aí.

De conteúdo  mesmo, o roteiro é infeliz. Para começar, a introdução e caracterização de Spivot, como uma ávida candidata a fazer parte da força tarefa anti-meta-humanos de Joe West, não poderiam ser mais clichê. Mas clichê ruim mesmo, com desenvolvimento tão profundo quanto o proverbial pires. Não é uma surpresa o pai da moça ter sido assassinato por um vilão meta-humano? Não é uma surpresa ela ser uma policial melhor do que aparentemente a integralidade da delegacia de Central City? Agora é só contar logo que Barry é o Flash é voilà, um novo Eddie se junta à Equipe Flash.

E o vilão? O que dizer do Demônio da Areia? Se o Esmaga-Átomo do episódio anterior tinha potencial que foi jogado no ralo, como falar algo de um personagem que nem mostra um tiquinho de potencial e está lá só para oferecer uma micro-resistência e juntar os dois Flash? Ele vai embora tão rápido quanto aparece e ninguém nem lembrará dele em duas semanas. Dada a variedade de vilões da DC e dada a importância histórica deste episódio – afinal, não é todo dia que o conceito de multiverso é oficialmente trazido para a TV – não custava nada escolher um vilão menos descartável, que no mínimo convencesse o espectador por alguns segundos do perigo que deveria representar.

Acontece que o roteiro fraco deste episódio manifesta-se também em questões mais prosaicas, como a própria introdução do conceito de multiverso. Apesar de explicado didaticamente umas cinco vezes, o Dr. Stein chega a desenhar as diversas Terras que teoricamente existem simultaneamente. Ainda que seja excitante para um leitor de quadrinho ver os nomes Terra-1 e Terra-2 serem efetivamente falados na série, não deixa de ser irritante a necessidade de se mastigar conceitos que nem são tão complicados assim em sua superfície. É a produção deixando clara o que acha do intelecto dos fãs do show, em evidente desserviço narrativo.

Sei que com tantos pontos negativos, a nota acima parecerá incongruente. E ela é mesmo, confesso. Estava pensando em não mais do que 2 estrelas, talvez até 1,5, mas não resisto ao conceito do multiverso e vê-lo sendo tão abertamente trabalhado nesse episódio (além do Flash clássico, claro) ativou a parte do meu sistema límbico responsável pela benevolência…

Mas tenho certeza que essa benevolência não durará muito tempo…

The Flash 2X02: Flash of Two Worlds (EUA, 2015)
Showrunners: 
Andrew Kreisberg, Greg Berlanti
Direção: Jesse Warn
Roteiro: Aaron Helbing, Todd Helbing
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Rick Cosnett, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Robbie Amell, Wentworth Miller, Ciara Renee, Victor Garber, Matt Letscher, Michelle Harrison, Patrick Sabongui, John Wesley Shipp, Logan Williams, Teddy Sears, Shantel VanSanten
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.