Crítica | The Flash 2X21: The Runaway Dinosaur

estrelas 1,5

Obs: Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Assistir ao final da 2ª Temporada de The Flash é como participar de um jogo mortal intitulado “ENCONTRE A COERÊNCIA”, onde você sabe que vai morrer porque não vai conseguir achar nada sequer parecido com este substantivo. A começar pelo elemento básico: o gênero.

The Flash é uma série de ficção científica com colunas narrativas de drama, ação e aventura, correto? Levando isso em contra e o público-alvo (julgado como se fossem crianças apaixonadas pelos produtores), qualquer espectador saberia o que encontrar no programa. Em tese, nada muito inteligente mas que seguisse ao menos o seu gênero principal, que adotasse a base canônica e descritiva dos quadrinhos — diferente da recente Lucifer, The Flash não é uma “livre-inspiração”, é uma adaptação pontualíssima das HQs — e que se concentrasse em desenvolver os personagens dentro de plots dos quais o público pudesse tirar proveito e com os quais pudesse ligar eventos, justificar coisas, entender ou expandir o que sabem sobre um determinado enigma; a simples tarefa de contar uma história coerente com um começo, meio e indicação de um final ou um bom cliffhanger.

Pois bem, The Runaway Dinosaur não tem nada disso. Antepenúltimo episódio da temporada, este capítulo deveria trazer consigo todos os ingredientes preparatórios para um bom desfecho, para algo que talvez lograsse transformar este terrível segundo ano do show no que pudéssemos ao menos nomear de “um bom final”. Todavia, os roteiristas Zack Stentz e David Kob jogaram fora as exigências básicas dos gêneros da série e chafurdaram-se na lama do melodrama que cobriu mais da metade da temporada, além de seguirem a inconveniente veia romântico-emotiva que Rupture nos trouxe anteriormente, só que desta vez, pior, se é que isto é possível.

O Rei Salomão escreveu algo que se tornou um dito popular: há tempo para tudo. Em um programa de televisão com boa audiência e inacreditáveis e desnecessários 23 episódios por temporada (não, eu nunca vou parar de reclamar disso) esta frase tem mais sentido do que qualquer outra coisa. Com tantos capítulos e sem a possibilidade de iminente cancelamento, os produtores podem se dar o luxo de espalhar de uma maneira que faça sentido dentro da história, características emotivas para qualquer um dos protagonistas. Não vejo problema algum nisso, desde que a coisa tenha razão para existir e venha na quantidade certa, nada de tomar lugar daquilo que deveria ser o objetivo do episódio. Daí você olha para The Runaway Dinosaur e vê dramas familiares lá da 1ª Temporada voltando sem nenhum sentido e tirando de cena a tão esperada e martelada luta (ou processo de luta) contra Zoom que, curiosamente, resolveu tirar férias e não atacou nada ou ninguém nesse episódio. Que coisa, não é mesmo?

Ora, não é Zoom o grande objetivo deste final de temporada?

Mesmo se os produtores quisessem cavar a cova de no antepenúltimo episódio enrolar o público com a recuperação do poder de Barry — isto é algo que já sabíamos que ia acontecer, afinal, a reconstrução da explosão foi feita para isto, não foi? –, por que não fazê-lo dentro de um universo natural para The Flash? Por que não utilizar a ciência, modular as piadas sem graça, deixar de lado todo o drama inapropriado da “perda da mãe” e, pelo amor de todos os deuses, colocar qualquer outra coisa que não fosse Barry conversando com a Força de Aceleração e tendo ao fundo uma trilha sonora pendendo para o minimalismo completamente intrusivo?

Sendo o jovem um herói cientista, a forma como a série resolveu finalizar o seu grande problema (a perda dos poderes) acaba sendo um insulto para o próprio personagem. Tampouco foi válida a colocação de rostos familiares em uma força inteligente que fez o moço passar por uma espécie de “ritual de iluminação” para se fazer digno do poder recebido. É como se víssemos um sci-fi sendo engolfado por misticismo e por mensagens de auto-ajuda, trazendo à tona nuances de destino, messianismo (“Barry, você foi o escolhido” — pelo amor de Deus!!!) e problemas pessoais que até aqui tinham sido colocamos como um adendo normal na vida de Allen.

Em The Runaway Dinosaur, a perda da mãe na infância (certo que não é algo que alguém supere, mas o tratamento dado pelos roteiristas sobre isto é tão irreal que me fez rir) é o cartão de validação para que Barry recebesse novamente os poderes, tendo que ‘parar’ a si mesmo, primeiro, correndo como alguém normal (qual foi a sua reação ao ver isto?); depois, tocando no ombro o borrão após se dar conta de… de quê mesmo?

De que ele era amado? De que tragédias acontecem e que ele, infelizmente, foi vítima de uma? De que a mãe o amava? Onde está a novidade em 60% deste episódio? Alguém tenha a bondade de explicar: quais foram as sinédoques, catacreses, metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros e figuras de linguagem ocultas e desconhecidas que os autores acharam lógicas para simbolizar o livro do dinossauro? Também aproveitem e me expliquem: o que impulsionou a direção de arte a fazer aquele “quarto temático” sem sentido no plano sólido do Barry dentro da Força? Também argumentem sobre o fato de a direção de Kevin Smith seguir um modelo repetido e cíclico de ação, escolha piorada pela montagem lenta, fora de sintonia nos paralelismos cênicos (perceberam como a mudança de blocos ficou enjoativa e como aquela sequência solta e intragável do Zoom, no final, piorou o que já estava ruim?) e componentes de texto diferentes dentro de um mesmo episódio que supostamente deveria falar de algo científico mas praticamente lança as bases de uma seita.

Por fim, alguém por favor tente dar sentido ao fato de haver um vilão morto no “necrotério” do Star Labs — que a gente não conhecia e que apareceu aqui como um milagre, talvez parte da seita que deu poder ao Barry — e o fato/necessidade desse vilão virar um zumbi e sair procurando, mecanicamente, por Iris. Ou explique o “chamado misterioso da Força” que fez Barry saber que deveria tocar Jesse. Ou o fato de isso não ter aparecido para Wally, que também foi afetado pela mesma Força. Ou o fato de Wally estar bem e Jesse não e, ainda sobre ele, o fato de ser escanteado a maior parte do episódio e voltar a sumir no final. Ou o desafio de nível “UÉ” dado por Zoom a Caitlin antes de bancar um militante das FARC naquela reunião de vilões da Terra 2, na delegacia…

Eu sinto como se estivesse sido lobotomizado.

Senhoras e Senhores, The Flash é o nosso novo Sucker Punch.

The Flash 2X21: The Runaway Dinosaur (EUA, 2016)
Direção: Kevin Smith
Roteiro: Zack Stentz, David Kob
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Teddy Sears, Violett Beane, Greg Finley, Michelle Harrison
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.