Crítica | The Flash – 3X13: Attack on Gorilla City

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spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

E eis que, após uma semana de hiato a série volta com uma aventura que, sem mais nem menos, leva o Team Flash de volta para a Terra-2. Mas não se trata dessa vez da bela Central City-2 toda trabalhada no art déco e que serviu de palco para Welcome to Earth-2 e Escape From Earth-2, dois pontos altos da temporada anterior. Barry (Grant Gustin) , Caitlin (Danielle Panabaker), Cisco (Carlos Valdes) e um inesperado Julian (Tom Felton) rumam para nada menos que a Cidade Gorila, para atender ao pedido urgente de Jesse Quick (Violett Bane) e resgatar seu pai, Harrison “Harry” Wells (Tom Cavanagh), que fora raptado como um amador pelos insidiosos primatas. (Sério mesmo, Dr. Wells? Você é um gênio da ciência que vive por ai com um trabuco de plasma de 2 metros, como foi parar nessa situação por conta de uma charada enviada por um gorila?)

Devo reconhecer que tinha altas expectativas com relação a este episódio. Pelo menos em sua premissa, trata-se do tipo de coisa que deveria beneficiar a série e fazê-la seguir em frente, rompendo com os ciclos infinitos que arrastam muitos de seus episódios — dramas aleatórios, romances forçados, temáticas repetidas. Eu gosto muito de The Flash, do elenco e do material de origem. Mas tudo tem limite e eu juro que ver o Cisco fazer bico e virar a cara para o Barry mais uma vez me faria ter vontade de voltar no tempo e me impedir de sequer começar a assistir a série (o que teria como efeito causal lógico a morte de várias pessoas).

Uma aventura na Cidade Gorila, local icônico do universo do Flash que estreou, junto ao próprio Gorila Grodd, em The Flash V1 #106 (1959), certamente é o tipo de coisa que eu gostaria de ver em uma adaptação dos quadrinhos para televisão, e que até pouco tempo atrás eu julgaria impensável de se ver concretizar, ainda mais na CW, de todos os lugares. Na época em que Smallville era quase tudo que havia em termos de séries de TV adaptando quadrinhos de super-herói, este tipo de aventura, com a abordagem crua e direta que recebe em seus melhores momentos, era simplesmente inconcebível. Havia uma certa hesitação em mergulhar com tudo no material de origem e filmar os heróis em seus ângulos mais galhofeiros. Não que essa hesitação tenha desaparecido — como bem sabemos o “fator CW” pragueja as produções da casa até o limite de afastar muito de seu público em potencial. Mas, poxa, nesta semana temos um seriado onde o Flash vai para a Cidade Gorila. Isso é muito legal mesmo. Como amante de quadrinhos da Era de Prata, é o tipo de coisa que eu quero ver mais em Flash (no lugar de beicinhos e de romances esdrúxulos, de preferência).

Mas se a premissa é boa, a execução deixa bastante a desejar. O uso de CG para a realização da Cidade Gorila e de seus habitantes é realmente incrível para um programa televisivo. A Terra-2 continua a ser retratada em tons sépia, o que contribui para dar à Cidade Gorila e à absurda floresta tropical africana que a circunda um ar extraterrestre. Todos os shots aéreos da Cidade são muito bonitos e contribuem sem dúvida para o “lore” da série. Por outro lado, são os melhores shots do episódio. A direção de Dermott Downs tenta passar um clima claustrofóbico nas celas, mas acaba com um visual confuso e escuro. O restante das cenas não sai muito do básico, sendo que as cenas de ação são no máximo competentes. Provavelmente por motivos orçamentários, boa parte do tempo gasto na Terra-2 se dá na floresta ao invés da Cidade, e os gorilas, embora muito bem rendenizados, tem o estranho hábito de desaparecer ocasionalmente de cena. Destaque para Grodd, que aleatoriamente se usa do corpo de Tom Cavanagh “Harry” Wells para se comunicar na maior parte do tempo, arbitrariamente largando o cara como um objeto usado quando o orçamento permite lhe convém.

Mas o maior problema, na verdade, parece estar nas escolhas do roteiro. A começar pelo uso do plot de “julgamento por combate”, que foi usado muuuuuito recentemente (dois episódios atrás!) para já estar de volta assim, de forma tão descarada. A batalha de Flash contra Solovar é bem estranha, e mais uma vez vemos o homem mais rápido do mundo inexplicavelmente servir de saco de pancada de alguém infinitamente mais lento por alguns segundos, antes de se recompor e começar a agir. O que segue é bem interessante e típico da ação do herói, embora o golpe final seja dado de forma prematura e meio esquisita. A coisa toda acaba de repente. O fato de que os amigos de Barry acompanham tudo dentro das jaulas por umas janelinhas minúsculas também acaba distraindo da ação. Seria muito mais interessante ver eles na arquibancada algemados.

Uma vez desmascarado o plano óbvio de Grodd, a fuga da prisão também não faz muito sentido (e olha que eu já assisti muito Doctor Who nessa vida!). Barry e Cisco encontram-se sem os poderes, aparentemente fruto de um bloqueio de Grodd. Após uma série de considerações ASININAS sobre um plano de Cisco se sacrificar para não precisar abrir o portal para a Terra-1 para Grodd (onde todos se preocupam mais com o quanto isso potencialmente afetará os eventos que levarão à morte da Iris — aparentemente Cisco perdeu o amor pela vida e seus amigos não poderiam ligar menos), a conclusão acaba envolvendo utilizar o poder de Caitlin para forjar a morte de Barry. Cisco explica que Grodd desconhece os poderes dela e, por conta disso, talvez eles funcionem. Como exatamente isso funciona? Me pareceu muito estranho, mesmo porque se Grodd estava mantendo a concentração para inibir telepaticamente os poderes de Barry e Cisco, ele certamente interceptaria o plano esdrúxulo deles? Enfim, foi novamente uma escolha estranha que deixou tudo desnecessariamente mais confuso — umas coleiras anti-poderes em Barry e Cisco fariam o serviço muito melhor, por exemplo.

Enfim, a fuga acaba tendo sucesso, e todos voltam felizes para a Terra-1. Mas Grodd tinha um plano B: Cigana (Jessica Camacho)!! Poxa, pra que ele fez tudo isso então…?

Enquanto isso, na Terra-1: Kid Flash resolve um crime em 2 segundos. Jesse Quick está de cara virada pra ele porque é isso que as pessoas fazem nesse universo pra passar o tempo. Cenas de um romance forçado e desencontrado — da última vez que vimos os dois, Wally tinha rejeitado ela por conta de serem de universos diferentes. Agora, do nada, a situação meio que se inverteu, e as pessoas fazem menção ao status de “solteiro” do Wally no Facebook, como se ele não o fosse (?????). Depois de muito drama, Jesse aparentemente resolve ficar na Terra-1 — eu achava que Harry preferia ter ficado lá e que ela é quem tinha feito questão de voltar para a Terra-2, mas posso estar enganado. Enfim…

Attack on Gorilla City parte de uma boa premissa, o tipo de ideia que a série precisa e deve usar, mas acaba muito mal executada e com diversos furos de roteiro. O que salva nessa experiência toda é: 1. ver a Cidade Gorila bem realizada em live-action; 2. Julian vestido de Indiana Jones e 3. Tom Cavanagh. Torçamos para que a sequência faça valer a pena essa primeira parte!

The Flash – 3X13: Attack on Gorilla City (Estados Unidos, 21 de fevereiro de 2017)
Direção: Dermott Downs
Roteiro: Andrew Kreisberg, Aaron Helbing, David Kob
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Tom Felton, Violett Bane, Jessica Camacho, Keith David, David Sobolov

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.