Crítica | The Flash – 3X16: Into the Speedforce

spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

O episódio desta semana de The Flash se propõe a repetir uma premissa já explorada anteriormente, e não tem vergonha disso: já nos é entregue no próprio título, que nossa aventura será acompanhar Barry Allen (Grant Gustin) em uma viagem à misteriosa Força de Aceleração. Trata-se, assim, de uma revisitação do tema anteriormente explorado em The Runaway Dinosaur, episódio da temporada passada onde, sob a direção badalada de Kevin Smith, Barry visitou a extra-dimensão a fim de recuperar seus poderes, que haviam sido entregues de bandeja para Hunter Zolomon. Desta vez, o herói intenta salvar seu sidekick/cunhado/meio-irmão Wally West (Keiynan Lonsdale), que foi aprisionado após cair na armadilha de Savitar. Minha expectativa mais otimista era a de um episódio morno, fundado sobre o fanservice e encaminhando mais um passo curto do arrastado plot da morte de Iris. A menos otimista era a de um episódio terrível, seguindo a linha dos anteriores, que se utilizasse do setting para mais um show de culpabilização e drama forçado, como se os episódios regulares já não gastassem tempo suficiente com isso. Para minha grata surpresa, nesta semana meu lado otimista tinha razão. Talvez seja o efeito de contraste, após a sequência de episódios mais fraca que a série teve a oferecer até então, mas eu diria até que o episódio inclusive superou minhas previsões mais positivas.

É preciso reconhecer que a proposta aqui é o uso descarado do fanservice. O que quero dizer com isso é que se trata mais de conquistar o público pelo vínculo emocional, com elementos diversos da mitologia da série, apresentados de forma estratégica e inseridos no roteiro de maneira artificial, do que de realmente nos apresentar uma trama organicamente desenvolvida. Há quem condene pesadamente o uso desse tipo de artifício, mas como bom fã de quadrinhos de super-herói aprendi com o tempo a simplesmente reconhecer e aceitar como algo que pode ser bem ou mal utilizado. Para permanecer no universo da série, eu diria que Flash Back serve como exemplo de um bom uso, enquanto que The Runaway Dinosaur ilustra os perigos do excesso de confiança no poder do fanservice (embora este não seja o fator determinante de seu fracasso). Enquanto continuação deste último, Into the Speedforce consegue se sair um pouco melhor que o antecessor (que eu não considero tão diabólico quanto pintado pelo Luiz em sua crítica do episódio).

A viagem de Barry pela extra-dimensão começa no laboratório da delegacia que serviu de palco para sua origem, e segue para o familiar cenário do S.T.A.R. Labs, terminando no hospital onde ficou internada a mãe de Wally até seu falecimento. Os encontros com Eddie Thawne (Rick Cosnett) e Leonard Snart (Wentworth Miller) ilustram um uso eficiente do vínculo emocional dos espectadores com os personagens e as histórias que os rodeiam. A cena com Eddie faz um bom uso do sacrifício do personagem e do cenário da delegacia, além de ser o melhor momento da direção do episódio, aproveitando-se do caráter onírico da Força de Aceleração para além dos infalíveis filtros de câmera. O encontro com o Capitão Frio conta com a sempre cativante mastigação de cenário de Wentworth Miller, nos fazendo vislumbrar por um momento o quanto a série poderia ser mais divertida com vilões como ele e Trickster se unindo para constituir a ameaça principal de uma temporada, ao invés de recorrer pela terceira vez seguida ao “velocista viajante temporal” e pela segunda vez ao mistério do “quem está por debaixo da máscara?”. Porém, em termos de roteiro, senti que com o Capitão Frio tudo soou forçado demais, com a atribuição do sacrífico de Snart ao heroísmo de Barry. Não sei se a Força da Aceleração acompanhou a primeira temporada de Legends of Tomorrow, mas não me parece minimamente plausível que a figura de Barry tenha pesado de forma tão significativa assim na decisão do Frio.

A aparição de Jay Garrick (John Wesley Shipp) é repentina e até mesmo inesperada, embora a escolha por não mostrar pelo menos algum tipo de preparação da dita viagem de Cisco à Terra-3 causa uma falta de consistência à coisa toda, ficando a desnecessária impressão de que ele poderia ser mais uma aparição da Força, o que aparentemente não era a intenção. A dinâmica da cena do hospital é boa e sua resolução é até impactante, com o Flash da Era de Ouro ficando para trás para liberar Wally. Porém, não deixa de incomodar o fato de que não há explicação nenhuma que fundamente a necessidade de um velocista permanecer lá. Quaisquer três linhas de diálogo apresentando alguma justificativa pseudo-científica/misticista tornaria mais crível a coisa toda. Mas não houve tempo para tanto, já que os espectadores NECESSITAM seus 10 minutos de Barry e Iris com cara de enterro.

O encontro com Ronnie (Robbie Amell), Caitlin (Danielle Panabaker) e seu bebê hipotético me parece o ponto mais fraco da viagem pela Força de Aceleração. Talvez seja implicância de minha parte o fato de que eu considero o personagem de Ronnie muito mal utilizado e problemático (sua morte-retorno-partida-morte foi um dos primeiros dramas da série que me fez rolar os olhos em descrença), mas aqui é o ponto onde os roteiristas perdem a mão e forçam sobre Barry a culpa pelo não-nascimento do bebê, sendo que a decisão de abrir o portal para o Flash Reverso, em Fast Enough, embora muito mal pensada, foi uma decisão conjunta,

O restante do Team Flash acaba tendo um episódio regular, o que já é alguma coisa. H.R. (Tom Cavanagh) e Cisco (Carlos Valdes) protagonizam boas e divertidas cenas, traçando um plano inteligente para monitorar a viagem de Barry, coisa que tem sido rara de se ver. Não deixa de incomodar o fato de que Cisco aparentemente necessita de um impulso motivador de H.R. para perceber que é capaz de ajudar o amigo. Poxa vida, Cisco, você está nessa vida há três anos! Jesse (Violett Beane) protagoniza mais um rompante de impulsividade adolescente, desta vez imitando as ações de Wally no episódio anterior e decidindo ir atrás de Savitar por conta própria. Aqui o episódio apresenta algumas falhas, a maior delas sendo a de que a resolução pensada por H.R. para enfrentar Savitar é apresentada como se fosse uma sacada genial, quando na verdade é algo bastante óbvio: a de que o vilão provavelmente tem um motivo para usar uma armadura, e que esta provavelmente tem pontos fracos que podem ser aproveitados. Quer dizer, no tempo todo em que estão lidando com a ameaça do velocista, o time de super gênios dos S.T.A.R. Labs não pensou nisso? E no final é dito, como se fosse uma grande revelação, que Savitar é um homem dentro da armadura.

O dramalhão mexicano entre Barry e Iris tem uma nova reviravolta. Tentemos acompanhar: em um episódio, Barry pede Iris em casamento. No episódio seguinte, ela aceita. No episódio seguinte, ela tira o anel e abandona um Barry chorando na cama após apanhar de Savitar, desmanchando dramaticamente o noivado após descobrir que ele queria casar com ela para salvar sua vida (pois é). Por fim, neste episódio, Iris perdoa Barry e o aceita de volta, mas agora é ele que opta por desmanchar o noivado. Tudo isso em cenas arrastadas, forçadas e com os atores exibindo feições continuas de dor, sofrimento e desesperança. OK, eu já não consigo me sentir minimamente interessado pelo romance e, se for para que os personagens deixem de lado as caras de enterro em favor de voltarem a expressar, quem sabe, pelo menos alguma vontade de viver, torço para que continuem bem separados.

Mesmo com suas falhas evidentes, Into the Speedforce entretém, após uma sequência pouco inspirada de episódios. O problema da tonalidade depressiva continua a assombrar a série, e o notável ganho de fôlego obtido por um episódio que não faz mais do que investir bem o tempo em elementos mais interessantes e dinâmicos, inclusive com (ainda raros) momentos de descontração mostra que um ajuste nesse sentido é necessário (não que eu tenha esperanças de que possa acontecer, vide o fator CW). Representativa disso é a cena de abertura que, em um plano contínuo pela conhecida “sala de comando” do S.T.A.R. Labs, nos mostra as expressões pesadas de preocupação dos personagens, que não teve efeito narrativo algum. Todo o elenco já estava constantemente apreensivo e desesperançoso muito anteriormente ao sumiço de Wally na Força de Aceleração. O problema em nivelar a série sempre no clima de apreensão e drama forçado é que, dada a ausência de contraste, o efeito se perde nos momentos em que essa tonalidade realmente poderia se destacar de forma espontânea como foi, por exemplo, no desfecho da primeira temporada, quando a descoberta da identidade do Flash Reverso ocasionou uma mudança visível nos ânimos da equipe, desamparada com a perda do tutor. Desde essa época, a série gradativamente foi transformando seu tom de forma que hoje em dia se leva a sério demais, para o detrimento da diversão. Vejamos o que o crossover musical com Supergirl, na semana que vem, nos reserva a este respeito!

The Flash – 3X16: Into the Speedforce — Estados Unidos, 14 de março de 2017
Direção: Gregory Smith
Roteiro: Brooke Roberts, Judalina Neira
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Keiynan Lonsdale, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Tom Felton, Robbie Amell, Rick Cosnett, Wentworth Miller, Violett Beane, John Wesley Shipp
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.